‘O povo não pode pagar com a própria vida’

FelipeMascari – 16 Março 2021
Carta dos bispos afirma que “não há tempo a perder e negacionismo mata” e aponta o governo de Jair Bolsonaro como o “primeiro responsável” pela tragédia que assola o Brasil
Encontro virtual teve a entrega de documento ‘O povo não pode pagar com a própria vida’, elaborado pela CNBB, OAB e outras instituições.
A reportagem é de FelipeMascari, publicado por Rede Brasil Atual – RBA, 15-03-2021.
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O negacionismo e a omissão de Jair Bolsonaro ante a pandemia, foram amplamente criticados nesta segunda-feira (15), em evento organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
O evento teve a participação de governadores, cientistas e entidades da sociedade civil.
Para os participantes, em unanimidade, a tragédia causada pela covid-19, que já custou a vida de 278 mil brasileiros, tem o presidente da República como o maior responsável.
O encontro virtual teve como objetivo a entrega do documento “O povo não pode pagar com a própria vida” ao governador do Piauí e coordenador do Fórum Nacional dos Governadores, Wellington Dias (PT).
A carta
- declara apoio aos esforços de governadores e prefeitos para garantir o cumprimento das medidas sanitárias de proteção,
- paralelamente à imunização rápida e consistente da população,
- neste que é o momento mais grave da crise causada pela pandemia.
A carta dos bispos afirma que “não há tempo a perder e negacionismo mata” e aponta o governo Bolsonaro como o “primeiro responsável”pela tragédia que assola o Brasil.
“O vírus não será dissipado com obscurantismos, discursos raivosos ou frases ofensivas. Basta de insensatez e irresponsabilidade.
Além de vacina já e para todos, o Brasil precisa urgentemente que o Ministério da Saúde cumpra o seu papel,
- sendo indutor eficaz das políticas de saúde em nível nacional,
- garantindo acesso rápido aos medicamentos e testes validados pela ciência,
- a rastreabilidade permanente do vírus
- e um mínimo de serenidade ao povo”,
defende o texto.
Neste domingo (14), o Brasil bateu novo recorde na média móvel de mortes decorrentes da covid-19 dos últimos sete dias, com 1.831 óbitos diários em média. Em pleno domingo, foram oficialmente notificadas mais 1.138 mortes pela doença, o que totalizou 278.327 óbitos, desde o início do surto, há um ano.
Foto: Daqui
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Incompetência de Bolsonaro
Durante o encontro,
- governadores e representantes de entidades civis fizeram duras críticas a Bolsonaro.
- O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, lembrou que a sociedade está “exausta, empobrecida e vive realidade aviltante”.
Ele ainda citou a provável saída do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, divulgada pela imprensa, desde ontem, e a recusa do convite por parte da cardiologista Ludhmila Hajjar para assumir a pasta, nesta segunda-feira.
- “O pior ministro da Saúde da história do país, no governo mais incompetente da história do Brasil, não será substituído por uma médica.
- Pois nenhum médico em sã consciência comprará a agenda política do governo.
- Bolsonaro trabalha para ver o Brasil pegar fogo e ver romper os limites da institucionalidade.
- Precisamos estar prontos para defender a democracia.
- A covid-19 mata, mas a irresponsabilidade na condução da pandemia, por parte de Jair Bolsonaro, mata também a nossa democracia”,
alertou o presidente da OAB.
Governadores unidos
Os chefes estaduais de governo endossaram a culpa de Bolsonaro na ascensão da pandemia de covid no país e o colapso no sistema de saúde.
Wellington Dias lembra que
- todos os estados enfrentam fila de UTI para atender as vítimas do vírus,
- o que comprova a necessidade de o Brasil aderir ao isolamento social, através de uma coordenação nacional.
“Precisamos criar um movimento nacional para que os protocolos de proteção sejam cumpridos. Não adianta fazer o trabalho nos estados e municípios sem o apoio do governo federal”,
disse o governador do Piauí. Ele listou algumas das medidas necessárias.
“Precisamos de apoio para a área da saúde. O governo federal apresentou, em 2021, um orçamento com R$ 43 bilhões a menos que o ano passado. Destaco ainda o apoio às medidas sociais, como o auxílio emergencial. Ele ajudará a deixar as pessoas em casa. É preciso fechar bares e comércios, mas dar suporte às pessoas para que fiquem casa”,acrescentou.
Pauta única
O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), afirmou que os verdadeiros defensores da economia e dos empregos são os chefes de Estado que defendem a vida e a saúde.
“Criar uma dualidade sobre as pautas é uma ideologia falaciosa, afastando o Brasil do rumo correto”, disse.
A carta das entidades, na avaliação de Dino, é um convite para um novo caminho a ser adotado pelos governos estaduais.]
“O problema do Brasil não está no ministro, vai além disso. Acreditar nisso é cair na armadilha do maior responsável pelo caos do Brasil. Precisamos endossar o humanismo, criar laços humanitários, porque é assim que se responde ao fascismo e sua política do ódio”,finalizou.
Fátima Bezerra, governadora do Rio Grande do Norte, e Camilo Santana, governador do Ceará, ambos do PT, também
- atrelaram a tragédia da pandemia ao desprezo de Bolsonaro pela ciência.
- “Quando nós, governadores e prefeitos, adotamos medidas de restrição, fazemos pela absoluta necessidade e são avalizadas pela ciência”,
explicou a governadora potiguar.
Entidade civil mobilizada
A carta da CNBB teve o apoio do presidente da Frente Nacional de Prefeitos, Jonas Donizetti. Em sua participação no evento, ele afirmou que a entidade endossa as medidas de restrição e o aumento de investimento público para garantir renda e dinheiro para quem gera emprego.
Já o presidente da Comissão Arns, José Carlos Dias, lembrou que
- o isolamento social é o único caminho para o Brasil reduzir seus números de casos.
- Ele alertou ainda para a lentidão na vacinação da população:
- apenas 9,7 milhões de pessoas já receberam a primeira dose de vacina contra a covid-19, ou seja, 4,5% da população.
“Precisamos estar sensibilizados e nos unir por mais vacinas. Temos estrutura para vacinação em massa, o processo se arrasta com uma lentidão inaceitável. A inoperância e negacionismo matam e o governo federal é conivente com a tragédia nos abate, que se omitiu na compra das vacinas e propalou risco para quem se imunizasse”,criticou.
Ciências e imprensa
O presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Luiz Davidovich, lembrou que, desde o começo da pandemia especialistas em saúde e ciência pedem medidas para salvar vidas. No entanto, tiveram seu clamor negado por Bolsonaro.
“O governo não fez nada e continua a propagar opiniões negacionistas, oferecendo kit de cloroquina aos infectados, mesmo que ineficazes. O nosso manifesto é político e humanitário para lutar contra a insensatez que está causando muitas mortes no país. Devemos esperar até chegar a 300 mil mortos? Quantos aviões isso representa por dia?”, questionou.
Por fim, o jornalista Juca Kfouri, que representou a Associação Brasileira de Imprensa, disse que a salvação para o país é o impeachment.
“A ABI defende o auxílio emergencial pelo tempo que for necessário e somos a favor do impeachment de Jair Bolsonaro. Conclamamos os governadores a pressionarem suas bancadas no Congresso Nacional. Maior do que a covid-19 é a pandemia chamada Jair Bolsonaro que assola o país.”
A carta endereçada aos governos estaduais, ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal (STF) é assinada, além da CNBB, pela OAB, Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, Academia Brasileira de Ciências (ABC), ABI e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Felipe Mascari – RBA
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