Foto: Nestor Forster foi indicado ao cargo pelo presidente Jair Bolsonaro em novembro de 2019 e confirmado pelo Senado em setembro de 2020 ? Geraldo Magalhães – Ag. Senado
Em entrevista à DW Brasil, Nestor Forster, representante do Brasil em Washington, critica dossiê entregue por ONGs ao presidente americano e diz que países discutem projetos para combater desmatamento na Amazônia.
Menos de dois meses após a posse de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos, a embaixada do Brasil em Washington, comandada por Nestor Forster, identificou uma mudança de “estilo” na relação com Brasília.
- Há mais preocupação com a proteção do meio ambiente,
- engajamento conjunto em organismos multilaterais
- e aproximação diplomática conduzida pelo departamento do Estado, em vez de pela Casa Branca.
Em entrevista à DW Brasil, Forster afirma que os dois países vêm conversando
- sobre iniciativas para reduzir o desmatamento da Amazônia
- e estimular o potencial da bioeconomia na região,
- além da participação na próxima conferência do clima, em novembro, na cidade escocesa de Glasgow.
Em sua campanha, Biden prometeu colocar pressão
- para que o Brasil protegesse o meio ambiente e a floresta amazônica,
- após recordes de desmatamento e de queimadas e de iniciativas do governo Bolsonaro que reduziram a capacidade de fiscalização e punição de crimes ambientais.
No início de fevereiro, acadêmicos e ativistas de ONGs entregaram um dossiê à Casa Branca pedindo que
- os EUA suspendessem a importação de produtos que poderiam ser ligados ao desmatamento
- e retirasse seu apoio à entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)
- por conta de violações à proteção ambiental e aos direitos humanos.
Forster afirma que a iniciativa foi uma “tentativa de fazer uma não agenda”, mas se diz satisfeito com a resposta da Casa Branca, que disse querer fortalecer os laços com o Brasil.
Forster,
- que acompanhou o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, em uma visita a Ivanka Trump na Casa Branca em 4 de janeiro e em uma reunião com empresários na embaixada em 5 de janeiro, um dia antes da invasão do Capitólio,
- diz desconhecer se o parlamentar participou de uma reunião com apoiadores de Trump, no dia 5, que teria discutido a invasão ao Congresso americano.
Na última segunda-feira (08/03), o senador Jaques Wagner (PT-BA) apresentou um requerimento cobrando do Itamaraty esclarecimentos sobre a viagem do deputado a Washington e de sua eventual ligação com essa reunião, levantada pelo jornalista americano Seth Abramson, do site Proof.
A ENTREVISTA:
DW Brasil: Um mês e meio após a posse de Biden, o senhor percebeu alguma mudança na relação do governo americano com o Brasil?
Nestor Forster: A mudança que se nota é de estilo, de ênfase, mas a relação continua sobre um leito mais profundo que une o Brasil e os Estados Unidos. O que mudou? O governo Biden veio com uma agenda muito firme na área de meio ambiente e mudança do clima.
Durante a campanha eleitoral, Biden disse que, se eleito, organizaria uma iniciativa internacional para transferir recursos ao Brasil em troca de preservação da Amazônia. A embaixada já detectou alguma movimentação do governo americano nesse sentido?
A movimentação foi iniciada por nós. Tivemos contatos do ministro das Relações Exteriores [Ernesto Araújo] com o secretário de Estado Antony Blinken e contatos aqui com o enviado especial para a mudança do clima, o ex-secretário John Kerry.
Esses temas são complexos e é difícil encapsulá-los numa fórmula que se apresenta na campanha eleitoral.
- Estamos discutindo uma agenda concreta sobre o que o Brasil e os Estados Unidos podem fazer juntos,
- tanto no plano bilateral, para combater desmatamento na Amazônia,
- com projetos de cooperação para a bioeconomia, como no plano multilateral,
- em preparação para a conferência [do clima] de novembro, em Glasgow, sobre o Acordo de Paris.
Em fevereiro, mais de cem acadêmicos e ativistas de ONGs entregaram um dossiê ao governo Biden pedindo que os EUA suspendam a importação de produtos que poderiam ser ligados ao desmatamento da Amazônia e retire seu apoio à entrada do Brasil na OCDE, entre outros temas, por conta de violações à proteção ambiental e aos direitos humanos e riscos à democracia no Brasil. Como o senhor avaliou essa iniciativa?
É normal que, numa democracia, todas as correntes políticas se manifestem, e ativistas de qualquer área podem dizer o que quiserem.
- Foi uma tentativa de fazer uma não agenda. Isso não tem base em um trabalho sério, profissional, na relação entre dois países.
- O importante é a reação da Casa Branca, que foi ponderada e realista em relação ao tal dossiê.
Notou mais alguma mudança na nova gestão americana?
Biden tem enfatizado a importância de os Estados Unidos buscarem alianças e atuar nas organizações internacionais, o que difere da administração anterior. Também, no passado,
- houve concentração da formulação da política externa americana na Casa Branca, às vezes mais do que no próprio departamento de Estado.
- A nova administração pretende devolver [isso] ao departamento de Estado e valorizar o papel da diplomacia profissional.
Biden não era o candidato preferido de Bolsonaro, que defendia abertamente a reeleição de Trump. Como minimizar o efeito nas relações bilaterais dessa escolha feita pelo presidente brasileiro?
A campanha eleitoral ficou para trás, estamos engajados com o novo governo daqui em todos os níveis. As pessoas ficaram muito presas na questão recente da amizade entre os chefes de Estado. Essa amizade ajuda, pode acelerar a agenda, mas não define a agenda. Os interesses concretos vão além, têm raízes muito profundas.
O governo Bolsonaro assinou alguns acordos bilaterais com o governo americano. Um para desenvolvimento conjunto de produtos de defesa, em março de 2020, e três sobre comércio, boas práticas regulatórias e anticorrupção, em outubro de 2020. Esses acordos já tiveram algum resultado prático?
O primeiro acordo, de pesquisa, desenvolvimento, testes e avaliação de produtos na área de defesa, os Estados Unidos só têm com 14 países do mundo, o Brasil é o primeiro na América Latina.
- O projeto foi encaminhado para o Congresso Nacional e está sendo avaliado pela Comissão de Relações Exteriores, esperamos que nos próximos meses esteja aprovado e possa entrar em vigor.
- Enquanto não entra em vigor, o establishment de defesa dos dois países está explorando qual será a agenda de cooperação que será implementada.
Com relação aos acordos de comércio, eles responderam a uma demanda do setor privado, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, por uma maior aproximação comercial.
- É difícil entender por que as duas maiores economias das Américas não têm um acordo mais amplo de comércio.
- Esses acordos foram encaminhados para apreciação do Congresso no Brasil.
Do lado americano isso não é necessário, estão prontos para entrar em vigor. Precisamos fazer a nossa parte com a aprovação pelo parlamento.
- Uma vez aprovados, trarão benefícios em termos de redução de custos de fazer negócios no Brasil
- e vão pavimentando o caminho para um acordo mais abrangente de comércio.
O saldo comercial brasileiro com os EUA em 2020 foi o pior em seis anos, com déficit de 2,7 bilhões de dólares. Na última década inteira, com exceção de 2017, o saldo foi negativo para o Brasil. O que ocorreu?
Esse resultado em si não quer dizer muita coisa, a gente tem que ver o quadro mais amplo da relação bilateral e trazer também o componente de investimento. Os Estados Unidos
- continuam sendo o maior destino para as nossas exportações de produtos industrializados e de maior valor agregado,
- e continua sendo o maior investidor direto estrangeiro no Brasil.
- Em 2019, o estoque de investimento americano chegou a 145 bilhões de dólares no Brasil.
Durante o governo Trump, alguns pesquisadores afirmavam que a relação entre Brasil e EUA era de “alinhamento automático”, algo inédito na história do Itamaraty. O governo Bolsonaro fez diversas concessões aos EUA sem contrapartidas claras, como
- a desistência de indicar um brasileiro à presidência do BID,
- ter zerado o imposto de importação sobre uma cota do etanol americano,
- aceitar a sobretaxa americana ao aço brasileiro
- e isentar os americanos de vistos para vir ao Brasil.
Do lado brasileiro, o estilo adotado nas relações bilaterais também mudou?
Não acho que essa seja uma boa premissa. Desde o primeiro momento, critiquei a ideia de que houvesse um alinhamento automático, pois não é possível que um país do tamanho do Brasil se alinhe automaticamente com quem quer que seja.
Com relação ao BID, desde o primeiro momento em que se colocou a questão da sucessão o Brasil sempre disse que estava interessado não em cargos, mas em projeto, que é representado pelo candidato que o Brasil apoiou e foi vitorioso [o americano Mauricio Claver-Carone].
- Na questão do etanol, a isenção foi temporária, durou dois meses, para permitir uma negociação, que não deu frutos. Hoje os dois países estão com tarifa de 20% para o etanol.
- A sobretaxa sobre exportações de siderúrgicas é um assunto sério, e estamos colocando toda a pressão para que isso seja removido, mas é uma decisão unilateral do governo americano.
A eliminação do visto
- não foi algo em atendimento a uma demanda dos Estados Unidos, mas ao setor de turismo brasileiro.
- E a isenção não foi dada somente para os Estados Unidos, mas também para Canadá, Japão e Austrália. Nos primeiros seis meses, o turismo desses países no Brasil cresceu 30%, sobretudo dos Estados Unidos.
O Brasil foi designado como aliado preferencial extra-Otan, e os Estados Unidos apoiaram o ingresso do Brasil na OCDE. E não falamos de pandemia, os americanos deram uma colaboração imensa nessa área quando faltavam respiradores, fizeram uma doação de mil unidades para o Brasil.
Em relação ao etanol, o próprio setor agrícola brasileiro, representado pela bancada ruralista no Congresso, se opôs à isenção do imposto de importação ao produto americano.
- Isso foi uma decisão de governo, não conheço os detalhes da parte parlamentar.
- Foi para abrir uma oportunidade de negociação, que pareceu acertada naquele momento.
Houve demanda, do lado brasileiro, de que se buscasse
- não só a liberalização do setor de etanol, como estava sendo reclamado pelos americanos,
- mas que se ampliasse para zerar a tarifa do milho e do açúcar.
Mas não avançou.
Um dia antes da invasão ao Capitólio, ocorrida em 6 de janeiro, houve uma reunião no Trump International Hotel, em Washington, com apoiadores próximos de Trump que teriam discutido a invasão do Congresso. Nesse mesmo dia, o deputado Eduardo Bolsonaro, estava na cidade e se encontrou com um dos aliados de Trump que teria incentivado a invasão, o empresário Michael Lindell. O senhor tem informações sobre a participação do deputado nessa reunião no hotel de Trump?
Não tenho nenhuma informação. Na embaixada, a gente trabalha com a agenda do embaixador. Não tenho conhecimento de nenhuma outra agenda do deputado Eduardo Bolsonaro, que não seja a que eu o acompanhei na segunda-feira [04/01] na Casa Branca, quando visitamos a senhora Ivanka Trump, e uma reunião na terça [05/01] na embaixada com ele e empresários.
Em evento realizado no dia 5 de março pelo think tank americano Council of the Americas, o ministro Ernesto Araújo disse que o Brasil queria trabalhar com os EUA para “livrar a América Latina do narcossocialismo”. O senhor poderia detalhar qual é o objetivo do Itamaraty nessa linha de política externa com os americanos?
O que o ministro falou foi um pouco mais complicado do que essa afirmação.
- Ele lembrou da questão de apoiar uma transição democrática na Venezuela promovida pelos próprios venezuelanos, por meio de eleições livres e justas.
- Não é novidade que um dos suportes importantes da ditadura do Nicolás Maduro na Venezuela é apoiada no narcotráfico.

Bruno Lupion
