… como pode encontrar sentido quem não tem uma causa que o transcende e pela qual se bate?

Anselmo Borges – 30 de Janeiro de 2021 – Foto: DAQUI
Houve um tempo em que ainda não existíamos, ainda não vivíamos, e haverá um tempo em que já não existiremos, já não viveremos cá, deixaremos de viver neste mundo. Donde vim, Para onde vou? Qual é o sentido da minha existência? Que valor tem a minha vida?
Há uma vivência radical que põe o pensamento em sobressalto. Cada um de nós sabe que não esteve sempre no mundo, isto é, que nem sempre existiu e que não existirá sempre.
- Houve um tempo em que ainda não existíamos, ainda não vivíamos,
- e haverá um tempo em que já não existiremos, já não viveremos cá, deixaremos de viver neste mundo.
Nesta constatação, experienciamos que
- somos de nós, somos donos de nós — essa é a experiência da liberdade —,
- mas não nos pertencemos totalmente,
- não somos a nossa origem nem temos poder pleno sobre o nosso fim.
Três livros de Anselmo Borges – Fotos: Reprodução
Viemos ao mundo sem nós — ninguém nos perguntou se queríamos vir — e um dia a morte chega e leva-nos pura e simplesmente.
- Não nos colocámos a nós próprios na existência
- nem dispomos totalmente do nosso futuro, não somos o nosso fundamento.
Aqui, perante a certeza de que nem sempre estive cá e de que não estarei cá para sempre, pois morrerei, ergue-se, enorme, irrecusável, a pergunta:
- donde vim?,
- para onde vou?,
- qual é o sentido da minha existência?,
- que valor tem a minha vida?
Esta pergunta formula-se em relação a todos os seres humanos, à vida em geral, a toda a realidade.:
- Porque é que há algo e não nada?, perguntaram Leibniz e Heidegger, entre outros,
- mas ela diz respeito concretamente a cada um, a cada uma, de modo existencial
- e tem carácter ao mesmo tempo teórico e prático, uma vez que implica a liberdade.
Ela é a pergunta mais originária e fundamental, como bem viu Albert Camus:
“Se a vida tem ou não tem sentido, essa é a questão metafísica”.
- De facto, o ser humano não pode viver sem sentido.
- Aliás, a existência humana está baseada na convicção do sentido.
Há um pré-saber do sentido, de tal modo que a sua própria negação ainda o afirma. No limite, não é possível o “suicídio lógico”, pois quem pegasse numa arma para suicidar-se, porque tudo é absurdo, estava a negar o absurdo e a afirmar o sentido: pelo menos esse gesto tinha sentido…
Assim, quando se fala em sentido da vida, é preciso referir
- o “ter sentido” — há inteligibilidade e valor no ser —,
- e o “dar sentido”: comprometer a liberdade na tarefa de realização da existência própria.
Dar sentido pressupõe encontrá-lo antes. E fundamentalmente sente a vida como tendo sentido quem vê a sua existência reconhecida. A nossa vida não tem sentido, quando não vale para ninguém.
- No entanto, suportamos e superamos sofrimentos e fracassos, se alguém nos reconhece;
- erguemo-nos outra vez, apesar de tudo, se a nossa vida continua a ter valor para alguém, se alguém nos ama.
Então, reciprocamente,
- a vida tem sentido, quando saímos de nós e nos dedicamos a alguém ou a uma causa.
- Quem não ama nem é amado sente a vida vazia de sentido, isto é, sem valor, como não valendo a pena.
E como pode encontrar sentido quem não tem uma causa que o transcende e pela qual se bate?
O famoso psiquiatra e psicoterapeuta, Viktor Frankl, fundador da logoterapia,
- mostrou — ele sabia-o por experiência, pois esteve prisioneiro nos campos de concentração nazis —
- que a experiência mais radical do ser humano é o sentido, razões para viver.
Ao contrário do que afirmaram Freud e Adler,
- no mais fundo de nós não se encontra a exigência de prazer e de poder, respectivamente,
- mas a vontade de sentido.
Claro que o prazer é importante na vida,
- mas o prazer não garante a felicidade,
- um dos maiores enganos e ilusões consiste mesmo em confundir a felicidade com a soma de prazeres;
concretamente,
- o prazer erótico, sem amor, sem encontro pessoal de liberdades em corpo, vai definhando e morrendo em frustração pornográfica.
- O poder pelo poder passeia-se pela vaidade oca de estrelas cadentes e na dominação político-económica arrogante e totalitária, e, depois… o que resta senão a ilusão de grandezas que murcham e se apagam?
Ah!, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade!”, constata o Eclesiastes (Ec, 1, 2 – NdR).
O paradoxo é este:
- a felicidade não pode ser buscada por si mesma, pois surge como consequência da realização dos valores e do sentido:
- é esquecendo-se de si e entregando-se a alguém, no serviço de grandes causas,
- que os seres humanos verdadeiramente se encontram a si mesmos.
Investigadores sociais e psiquiatras não têm dúvida de que
- o vazio e a frustração existencial são uma das causas maiores dos desequilíbrios psicológicos do Homem contemporâneo.
- E mostram que a carência de sentido está frequentemente na base da dependência da droga, do alcoolismo, da criminalidade, do suicídio.
E a prova do sofrimento?
Em primeiro lugar,
- até porque muitas vezes a religião sacralizou o sofrimento, como se Deus precisasse do sacrifício dos seres humanos para aplacar a sua ira,
- é preciso dizer que o sofrimento pelo sofrimento não só não vale nada como deve ser evitado como um mal.
Mas é preciso acrescentar com igual veemência, concretamente neste tempo de hedonismo selvagem, que nada de grande, bom e valioso se consegue sem sacrifício.
Quem, por exemplo, não está disposto a sofrer pela pessoa amada não ama verdadeiramente.
- É necessário aprender a alegria de superar obstáculos para atingir objectivos valiosos:
- já os Gregos associaram sofrer e aprender.
Viktor Frankl verificou, concretametnte nos campos de concentração,
- que sobreviviam aqueles que ainda tinham um sentido para a sua existência:
- reencontrar a família, realizar uma obra, bater-se por uma causa, lutar por um ideal, proclamar ao mundo:
“Nunca mais este horror!” “Dos que pudemos sobreviver só sobreviveram os que encontraram sentido para o sofrimento.”
