Artigo para discussão

Marco Marzano, Domani – 27 de janeiro de 2021. Tradução: Orlando Almeida
Parece difícil poder pensar na vida afetiva e sentimental do clero católico sem que aflorem imagens extremas: o santo e o pervertido. De um lado, a figura assexuada do mártir radicalmente dedicado à causa, a socorrer os últimos ou a edificar espiritualmente as massas.
Alguém assim, diz a vulgata popular,
“não teria nem mesmo tempo para ter uma história ou pensar em sexo; sabe cumprir os acordos e mantém as promessas, inclusive a do celibato, até ao sacrifício total, à imolação no altar do dever”.
Por outro lado,
- há o depravado,
- o sedutor dissimulado das paroquianas em crise conjugal,
- o corruptor vicioso dos jovens que,
- valendo-se da autoridade da sua função e da ingenuidade dos adolescentes,
- os enreda até conquistar os seus favores sexuais.
Paraíso e inferno
A diferença entre os dois polos, entre o paraíso e o inferno, entre a perfeição e a infâmia,
- é determinada em última instância, nestas representações tão profundamente enraizadas na nossa cultura,
- pela força de vontade subjetiva,
- pela capacidade de controlar os próprios instintos sexuais e as próprias necessidades amorosas,
- pelo rigor com que se mostram capazes de respeitar o compromisso solene assumido na juventude, depois de seis anos de seminário,
- de permanecer castos e puros, de elevar-se acima das tentações do mundo, dos ordinários prazeres da carne.
Neste quadro edificante (que os próprios padres tantas vezes pintam e que encanta muitos de nós), existem apenas dois protagonistas:
- o primeiro é o “mundo” fascinante com todas as suas armadilhas,
- o segundo é o sacerdote com todo o seu estoico heroísmo ou a sua fatal fraqueza.
No meio não há nada.
Acontece, porém, que falta o elemento mais importante, aquele que dá a todo o corpo clerical sua marca e a sua forma: a igreja.
Para entender o papel que a igreja desempenha neste quadro, precisamos examinar o problema pela raiz:
- como a igreja educa os seus padres?
- O que ela lhes ensina além de filosofia e teologia, da liturgia e do direito canônico?
- Que parte desempenha a obrigação da castidade no processo formativo que conduz ao sacerdócio?
Foto: Bompiani
São as perguntas que nunca são feitas e às quais tentei responder no livro La casta dei casti [A casta dos castos], publicado pela Bompiani.
Fiz isso estudando o que está escrito na literatura científica, mas principalmente perambulando pela península [Itália]
- em busca de padres e ex-padres que quisessem contar-me a sua história,
- e depois de psicólogos, de formadores, de homens e de mulheres
- que tiveram relações com os padres e que me ajudassem a compreender.
Um lugar protegido
O que entendi é que, deixando de lado alguns oportunistas mais sabidos,
- os garotos que entram no seminário, (antes sobretudo no “menor”, no ensino de primeiro grau, hoje sobretudo no “maior”, depois de terminado ensino de segundo grau ou mais tarde)
- são, em muitos os casos jovens frágeis, inseguros, com medo de não poderem sobreviver num mundo competitivo como o nosso,
- dominados por mães devotíssimas,
- entusiasmadas pela ideia de ter um filho padre e muitas vezes invasivas e castradoras.
O seminário atrai esses garotos por ser um lugar protegido onde eles não precisam preocupar-se com nada.
- A instituição oferece tudo o que precisam e organiza a sua existência em todos os detalhes.
- Para usar as palavras de um padre formador que entrevistei, ela preenche todos os interstícios.
Dentro desta lógica, estão também as palavras de outro sacerdote: «Os seminaristas são sujeitos que é preciso ‘resetar’a e ‘reprogramar’, pessoas dentro das quais se deve ‘botar todo tipo de coisas, todo tipo de iniciativas’».
Os dias do seminário assemelham-se ao que me foi descrito pelo padre Franco, agora com cinquenta anos, que entrou no seminário ainda menino:
- «Acordávamos às seis e meia, reuníamo-nos às sete para a oração (louvor, meditação ou missa ).
- Depois tomávamos o café da manhã juntos e em seguida íamos para as aulas (com professores quase sempre padres), até às 12:45.
- Às treze horas almoçávamos com um menu único, sem opções.
- Depois do almoço tínhamos uma hora de recreação, dedicada principalmente às atividades lúdicas (rigorosamente divididas por turma) ou ao passeio.
- Estudávamos das 14:45 às 16:15 e, após um recreio de 30 minutos, das 16:45 às 18:30.
- Aí chegava hora das vésperas ou da missa. E do rosário.
- Às 19:30 jantávamos, sempre com um menu único, sem opções.
- Depois do jantar, tínhamos uma hora de recreação livre e, por último, finalmente, alguma atividade cultural comunitária.
- Às 22:00 mais uma oração e depois todos para a cama».
Sem liberdade
O estudo muito raramente representa um obstáculo real para os seminaristas. Os professores estão prontos a ajudar os alunos com dificuldades e pode até acontecer que os bispos, precisando de novos funcionários, entrem no meio, como aconteceu com um professor que um dia recebeu um telefonema do seu bispo que lhe pedia para ser menos severo com um seminarista,
“porque – argumentava – tu também sabes bem qual é a nossa situação na diocese. Certamente não posso deixar de ordenar padre a este jovem por não ter passado no teu exame».
Em suma,
- os seminaristas da instituição recebem proteção integral,
- mas em troca devem renunciar de maneira igualmente integral à sua liberdade, à sua subjetividade, à sua criatividade.
Nas palavras extremamente lúcidas de um professor:
- “A aflição é consequência da total dependência do seminarista da instituição, da sua absoluta falta de liberdade e de meios próprios, e é produzida com bastante facilidade: por exemplo, punindo até o mínimo sinal de autonomia e de inteligência crítica.
- Em geral, o que é castrado nos jovens que passam por aqui é a imaginação, a capacidade de pensar no futuro e de pensar no próprio futuro.
- Deste ponto de vista, o seminário é um lugar que anestesia, que entorpece, que paralisa a imaginação.
- Para recuperá-la, só resta a quem está lá dentro retroceder com a memória, voltar, com uma nostalgia invencível, à vida anterior à institucionalização. Que é o que os presidiários fazem para não enlouquecer durante o encarceramento».
A sexualidade
O que certamente fica fora da formação são os temas da sexualidade e da afetividade.
- Não que essas questões não sejam tratadas de um ponto de vista teórico, com um dilúvio de noções abstratas sobre o amor, o querer-se bem, o relacionamento e assim por diante.
- O que está taxativamente excluído são os tormentos concretos da carne ou do coração, os desejos, os sonhos, os namoricos, a excitação sexual, as emoções.
Tudo isto, um seminarista só pode compartilhá-lo no máximo com seu diretor espiritual, isto é, com aquele que supervisiona, por conta da instituição, os seus progressos e insucessos na formação do caráter clerical.
Confidenciar com colegas é decididamente mais arriscado:
- os delatores estão sempre à espreita num lugar como o seminário
- e contar uma experiência amorosa à pessoa errada pode levar diretamente à expulsão,
- pois ter violado publicamente a regra que impõe a castidade constitui o crime mais grave para um seminarista, a primeira causa de afastamento.
A consequência principal desta situação é que
- sexo e amor são vividos como intrinsecamente pecaminosos e perigosos,
- como monstros a serem mantidos à distância, se alguém quer tornar-se um bom sacerdote.
Neste cenário interior, mesmo um ato como a masturbação solitária torna-se, como me disse o padre Armando recordando os tempos do seminário,
«um tormento aterrador. Eu pensava que se me tivesse masturbado não poderia comungar e teria de me confessar primeiro. E como eu me tocava praticamente todos os dias, eu tinha entrado numa espécie de monstruosa circularidade: eu me tocava e tinha de me confessar.
O padre que me confessava não fazia uma ruga, mas eu era destruído por aquela armadilha.
Eu me sentia dilacerado, dentro de uma espécie de prisão psíquica. A certa altura fui eu que interrompi esse circuito: obviamente continuei a me masturbar, mas decidi não me confessar mais, não me importar e continuar a fazer a comunhão todos os dias».
A ação repressiva
Os efeitos desta mortal ação repressiva combinados com os que derivam de sufocar sistematicamente todas as formas de discordância e da exaltação do conformismo e disciplina produzem efeitos diferentes.
Na maioria dos casos, os futuros padres se comportam como o jovem masturbador que acabamos de citar:
entendem
- que as regras não são tão importantes,
- que para sobreviver, para não enlouquecer, elas devem ser serenamente ignoradas e contornadas,
- e começam a construir uma existência própria, não só onanística,
- uma vida dupla, por vezes muito intensa, com muitas relações, resguardada de olhares indiscretos
- e possibilitada pela grande liberdade de que gozam depois de saírem do seminário.
Na melhor das hipóteses,
- o cinismo e a duplicidade dizem respeito apenas à vida sexual e emocional,
- mas muitas vezes, infelizmente, estendem-se a todo o resto:
- à administração do dinheiro, aos aspectos espirituais, etc.
A hipocrisia torna-se um estilo de vida.
Em outros casos, as coisas não vão tão bem
- e a dissimulação toma caminhos diferentes do simples cinismo manipulador
- para tornar-se suplício, depravação, violência, frutos envenenados por uma formação clerical que, centrada no celibato obrigatório e na castidade,
- corre o risco de envenenar toda a sociedade, corrompendo até o que a igreja faz por esta última.
Não chegou a hora de discutir isso seriamente?
Nota:
a Resetar- neologismo, derivado do inglês ‘reset’: reiniciar , redirecionar

Marco Marzano
Professor catedrático de Sociologia na Universidade de Bérgamo… Entre as sua publicações: Cattolicesimo magico (Bompiani, 2009), Quel che resta dei cattolici (Fetrinelli, 2012), La società orizzontale (con Nadia Urbinati, Feltrinelli, 2017) e La chiesa immobile. Francesco e la rivoluzione mancata (Laterza, 2018).
Fontes: https://www.editorialedomani.it/idee/cultura/lipocrisia-di-una-vita-nella-finta-castita-f4puxsgs
https://ilsismografo.blogspot.com/2021/01/italia-si-fa-presto-dire-castita.html
NOTA DA REDAÇÃO:
Artigo bastante realista, mas, a meu ver, exagerado. Provavelmente o autor não viveu num Seminário. Mas os pontos de vista que expõe merecem uma boa discussão. Vivi 15 anos no Seminário, em Portugal e na Itália, e a minha ideia de Seminário e da Formação recebida , é bastante diferente: muito maia positiva.
João Tavares – Editor