Um artigo de agosto 2020, mas muito atual
Fernanda Mena – 11 de agosto de 2020![]()
- Capra articulou a física moderna a uma visão holística da vida no planeta e dos fenômenos naturais,
- inserindo a humanidade e suas ações nos ciclos de transformação da vida no planeta.
- Diretor do Centro de Alfabetização Ecológica, com sede em Berkeley, na Califórnia (EUA),
- Capra desenvolveu uma pedagogia da ecologia a ser aplicada no ensino formal, primário e secundário.
Convertido em ambientalista por sua própria pesquisa,
- o austríaco há décadas denuncia o caráter predatório da economia global capitalista extrativista e a captura corporativa da política,
- que sucumbe a interesses econômicos em detrimento dos recursos naturais do que chama de Gaia—a Mãe-terra da mitologia grega (Terra, em grego é: GHÉ. GAIA é uma forma poética – NdR) que batizou uma visão do planeta como um imenso organismo vivo.
Para ele, estão equivocadas as atuais métricas do desenvolvimento baseadas no crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) a partir de uma cultura de excessos, que implica em perdas sociais e econômicas.
A ENTREVISTA:
Em quais aspectos o momento presente pode redefinir a condição humana?
Na minha visão,
- o coronavírus deve ser visto como uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo,
- à emergência social e ecológica que a humanidade criou para si própria.
- A pandemia emergiu de um desequilíbrio ecológico e tem consequências dramáticas por conta de desigualdades sociais e econômicas.
Cientistas e ativistas ambientais há décadas vêm alertado para as terríveis consequências de sistemas sociais, econômicos e políticos insustentáveis. Mas até agora as lideranças corporativas e políticas teimaram em resistir a esses alarmes. Agora eles foram forçados a prestar atenção, já que a Covid-19 trouxe os avisos de antes para a realidade de hoje.
Quais paradigmas a humanidade precisa mudar e por quê?
Com a pandemia, Gaia nos trouxe lições valiosas capazes de salvar vidas. A questão é:
- teremos a sabedoria e a vontade política necessárias para ouvir essas lições?
- Mudaremos do modelo de crescimento econômico indiferenciado baseado no extrativismo para outro de crescimento qualitativo e regenerativo?
- Vamos substituir combustíveis fósseis por formas renováveis de energia que dêem conta de todas as nossas necessidades?
- Vamos substituir nosso sistema centralizado de agricultura industrial com uso intensivo de energia por um sistema orgânico de agricultura regenerativa, familiar e comunitária?
- Vamos plantar bilhões de árvores capazes de retirar o CO2 da atmosfera e de restaurar diferentes ecossistemas do mundo?
Nós já temos o conhecimento e a tecnologia para embarcar em todas essas iniciativas. Teremos a vontade política que falta?
Num momento em que o valor do conhecimento científico biológico e tecnológico se mostram tão importantes, qual é o papel das humanidades?
Isso está diretamente relacionado a sua pergunta anterior.
Se temos todo o conhecimento científico e tecnológico para construirmos um futuro sustentável, porque não o fazemos simplesmente?
Quando refletimos sobre essa questão crucial, rapidamente percebemos que
- o nível conceitual não conta toda essa história.
- Nós também precisamos lidar com valores e éticas, e é por isso que as ciências humanas são mais importantes do que nunca. Literatura, filosofia, história, antropologia podem todas nos imbuir do compasso moral que tanto falta à política e à economia atuais.
Índices de desmatamento têm aumentado na Amazônia brasileira. Quais são os incentivos para isso?
- Esses crimes são uma consequência direta da obsessão com o crescimento econômico e corporativo.
- A devastação de grandes áreas de florestas tropicais é impulsionada pela ganância de corporações multinacionais do setor de alimentação, que buscam incansavelmente lucro e crescimento.
Se o que chamamos de progresso foi atingido às custas de danos ao meio ambiente, nossa ideia de progresso está errada?
A crença em um progresso contínuo e, em particular,
- a obsessão de nossos economistas e políticos com a ilusão de um crescimento ilimitado em um planeta finito
- constituem o dilema fundamental que permeia nossos problemas globais.
Isso equivale ao choque
- entre o pensamento linear
- e os padrões não lineares da nossa biosfera —a interdependência dos sistemas ecológicos e os ciclos que constituem a teia da vida.
Essa rede global altamente não linear contém inúmeras alças de retroalimentação por meio das quais o planeta se regula e se equilibra.
Nosso sistema econômico atual, ao contrário, parece não reconhecer a existência de limites. Nele, um crescimento perpétuo é perseguido incessamente através da promoção do consumo excessivo e de uma economia do descarte que usa de maneira extravagante tanto recursos como energia, aumentando a desigualdade econômica.
Esses problemas são exacerbados pela emergência climática global, causada pelas tecnologias de uso intensivo de energia e baseada em combustíveis fósseis.
Com a pandemia, projeções apontam para o aprofundamento das já marcantes desigualdades sociais de nosso tempo. O que as produziu e como reverter esse processo?
O aprofundamento das desigualdades é uma característica inerente ao sistema econômico capitalista de hoje.
O chamado “mercado global” é, em verdade,
- uma rede de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental
- segundo o qual ganhar dinheiro tem primazia sobre direitos humanos, democracia, proteção ambiental.
Valores humanos, no entanto, podem mudar porque eles não são leis naturais. A mesma rede eletrônica de fluxos financeiros pode ter nela embutidos outros valores. O ponto crítico não é a tecnologia, mas a política.
Há sinais de mudanças neste sentido na política de hoje?
Uma nova liderança começou a emergir recentemente em uma série de movimentos jovens muito potentes, como Sunrise Movement, Extinction Rebellion, Fridays for Future, entre outros.

Jacinta Arden, Sanna Marin, Alexandria Ocasio-Cortez. Fotos: Reprodução
Há também a ascensão de uma nova geração de políticos, curiosamente formada por mulheres, como a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinta Arden, a primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin, ou a congressista [democrata] norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez.
A crise atual prescreve nossa percepção de soberania e de globalização? Como?
Com certeza absoluta!
- Para prevenir o alastramento da pandemia, agora e no futuro,
- teremos de reduzir densidades populacionais excessivas, como ocorre no turismo de massa e em condições de vida marcadas pela superlotação.
- Ao mesmo tempo, necessitamos de cooperação global.
A justiça social se torna uma questão de vida ou morte durante uma pandemia como a da Covid-19. E ela só pode ser superada por meio de ações coletivas e cooperativas.
Seu trabalho explorou a interconectividade entre as ciências e os conceitos e filosofias considerados não-científicos. Como esse diálogo complexifica nosso entendimento do planeta e da humanidade?
Eu me formei como físico e fiquei fascinado pelas implicações da física quântica, que nos mostra que
- o mundo material não é uma máquina gigante
- mas uma rede inseparável de padrões de relações.
Durante os anos 1980,
- minha pesquisa virou para a área das ciências da vida,
- da qual tem emergido um novo conceito sistêmico que confirma a fundamental interconectividade e interdependência de todos os fenômenos naturais.
Quando nós entendemos que compartilhamos
- não apenas as moléculas básicas da vida,
- mas também princípios elementares de organização com o restante do mundo vivo,
- percebemos o quão firme estamos costurados em todo o tecido da vida.
O que você aprendeu com a pandemia?
Tem sido incrível para mim
- ver como o coronavírus expôs tantas injustiças ecológicas, sociais e raciais
- omitidas por décadas pelas mídias de massa.
Também fiquei espantado de ver como, em um curto espaço de tempo, a poluição quase desapareceu da baía de São Francisco, na Califórnia (EUA), onde eu vivo, assim como ocorreu em várias das grandes cidades do mundo. Isso me encheu de esperança quanto à capacidade da Terra de se regenerar.

Fernanda Mena
Fonte: https://espacoecologiconoar.com.br/category/noticias/
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