PARA NÃO MATARMOS A ALMA

Tempos Modernos': crítica atemporal e definitiva ao capitalismo

JOSÉ  TOLENTINO MENDONÇA – 24/12/20 – Foto: Filmes Clássicos – Tempo Modernos – Chareles Chaplin tragado pela máquina – Daqui

 ALGUNS DICIONÁRIOS COLOCAM COMO SINÓNIMOS DE PRODUZIR OS VERBOS GERAR E CRIAR, O QUE É UM EQUÍVOCO. NÃO SE DIZ “PRODUZIR UM FILHO”, MAS SIM GERAR, POIS UM FILHO É FRUTO DO AMOR

 

O verbo produzir, que se tornou nas nossas sociedades um parâmetro obrigatório de avaliação da atividade humana, é, no fundo, um verbo parcial e pobre para descrever aquilo de que se pretende avizinhar.

Produção, produtividade, produtivo, produto

  • podem ser termos úteis para a elaboração estatística
  • ou para a composição do arsenal de gráficos e grelhas com que se tenta capturar a morfologia da vida,
  • mas não tocam, nem de longe, a vida no seu âmago.

Há nessas palavras — na verdade, mais apropriadas para a máquina do que para a pessoa —,

  • uma deliberada supressão da complexidade da nossa experiência sobre este mundo,
  • um cinzento camuflado de neutralidade face àquilo que a vida é.

Por isso, que esse vocabulário seja hoje triunfante, e sonambulamente disseminado como modelo de compreensão do real, diz muito sobre a redução de sentido que aceitamos viver. Recordo o que escreveu a filósofa Simone Weil, partindo da sua experiência como operária numa fábrica, onde sentiu na pele o que significa ver-se reduzido a peça anónima da cadeia de produção:

“Vi a consciência da minha dignidade e o respeito por mim mesma serem sistematicamente estilhaçados aos golpes de uma construção brutal e quotidiana. Custa-me confessá-lo, mas para meter-se diante de uma máquina, é necessário matar a própria alma oito horas por dia.”

Seguramente, não se trata apenas de um caso singular, mas de um sintoma epocal.

  • A aceleração extrema da vida e a sua desumanização, 
  • o crescimento de fenómenos como a industrialização, a computadorização, a conceção global do mundo como mercado (e não mais do que isso), 
  • conduziram-nos a este estranho estatuto de vivos-mortos, de gente que está viva mas amputada na sua humanidade.

O presépio desautoriza o conformismo com que lidamos com a amputação da nossa própria existência e da dos nossos semelhantes

Penso que é disto — e não de enfeites e berloques — que nos fala o Natal.

De facto, um dos textos inesquecíveis do cânone cristão, a Primeira Carta de João, afirma o seguinte:

“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos palparam acerca do Verbo da Vida. Pois a Vida se manifestou, nós a vimos e dela damos testemunho” (1 João 1,1-2).

 

Igreja Vineyard -presépio humano

Foto: Blog Senza Pagare

 

O presépio é uma representação radical da vida, em contraciclo com a maior parte do nosso presente,

  • e não só porque a vida é colocada no centro
  • em vez de ser desclassificada e remetida para um lugar secundaríssimo,
  • mas também porque ela se escreve com maiúscula.

O presépio

  • desautoriza o conformismo com que lidamos com a amputação da nossa própria existência e da dos nossos semelhantes.
  • Obriga-nos a querer mais do que isto.
  • Revela o ser humano a si mesmo e fá-lo descobrir a sua vocação sublime.

Quem o diz é o Concílio Vaticano II, que acrescenta:

“Na realidade, só no mistério do Verbo Encarnado, se esclarece verdadeiramente o mistério do homem” (Gaudium et spes, 22).

Alguns dicionários colocam como sinónimos de produzir os verbos gerar e criar, o que é um equívoco.

  • Não se diz “produzir um filho”, mas sim gerar, pois um filho é fruto do amor.
  • Não se produz um abraço, nem a profusão de luz de um sorriso, nem um silêncio, nem a escrita sem letras de um pranto, nem uma amizade, nem o cuidado solidário, nem aquela arquitetura íntima de relações que é o miolo de uma casa;
  • não se produz a indagação sem fim e o espanto sobre o qual a vida constantemente nos debruça, nem o desejo e o encontro que o excede, nem o repouso de certos instantes e a dança para a qual ele nos sonha, nem o convite ou a chegada à festa.
  • Não se produz aquilo que o presépio significa. O Evangelho de João explica-o antes assim:

“Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu próprio Filho” (Jo 3,16).

 

José Tolentino Mendonça | Universidade Católica Portuguesa - Academia.edu

José Tolentino Mendonça

cardeal, escritor, poeta e profeta

in Semanário Expresso 24.12.2020 pg 166

Fonte: https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2513/html/_index?p=/semanario/semanario2513/html/revista-e/que-coisa-sao-as-nuvens/para-nao-matarmos-a-alma

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *