Entrevista exclusiva com o padre maronita Hani Tawk

Por Claire Lesegretain | Líbano – Nas ruas de Beirute, Líbano, em 5 de novembro de 2020. (Foto de JOSEPH EID / AFP)
O trabalho principal do padre Hani Tawk é ensinar filosofia árabe e ciência política em Beirute. Mas o padre maronita de 46 anos, que é casado e tem quatro filhos, agora passa cinco dias por semana preparando refeições para famílias que foram deslocadas em agosto passado por uma explosão que atingiu o porto da capital do Líbano.
O Padre Tawk e sua pequena equipe de voluntários preparam cerca de 600 refeições por dia para aqueles que sobreviveram à explosão. O desastre de Beirute matou 200 pessoas, feriu mais de 6.500 e deixou outras 300.000 desabrigadas.
Foi um golpe terrível para o Líbano, que continua lutando contra a sua pior crise econômica na história moderna. O desemprego ultrapassa 30% e a pobreza é agora uma realidade para mais de 50% da população.
O Padre Tawk está tentando fazer algo para aliviar o sofrimento e mostrar um pouco da esperança cristã, como explicou nesta entrevista a Claire Lesegretain de La Croix .
A ENTREVISTA
Padre Hani Tawk e Esposa – Foto: Facebook
La Croix: Como o senhor começou a distribuir comida para as pessoas nos bairros afetados de Beirute?
Padre Hani Tawk: No dia seguinte à explosão de 4 de agosto, passei pelos bairros mais afetados. Tudo estava totalmente destruído.
- Vi o que nunca tinha visto durante os quinze anos de guerra civil: sangue e cacos de vidro por toda parte, pessoas desalentadas, imensos danos materiais.
- Eu mesmo fiquei arrasado por esta catástrofe causada pelo descuido e negligência do nosso governo.
- Durante uma semana, não parei de chorar. Então, graças à minha esposa que é terapeuta familiar, decidi agir.
Viemos aqui com uma panela grande durante vários dias seguidos. Cozinhávamos em casa até meia-noite e depois levávamos tudo pela manhã para Karantina, um dos bairros mais afetados.
Em seguida, encontrámos uma velha garagem que fomos ocupando gradualmente com as doações que recebemos.
- Passámos gradativamente de 150 para 250 pratos quentes servidos todos os dias na hora do almoço.
- Hoje, distribuímos 600 pratos aos habitantes de Karantina, mas também no município xiita de Ghobayri e no distrito sunita de Basta.
- Também damos comida aos bombeiros e operários que estão reconstruindo os edifícios p´ç´ç´çdo porto, bem como aos voluntários das associações “Offre Joie”1 e “Arc-en-Ciel Liban”2 que estão muito empenhadas aqui.
Por quanto tempo vai continuar a servir refeições quentes como esta?
É o Senhor que me guia. Recebi muitos sinais da Providência que me encorajam a continuar.
- Ex-alunos, dos quais eu não tinha notícia há mais de vinte anos, enviaram-me dinheiro.
- Um grande número de voluntários – inclusive quatro franceses enviados por L’Œuvre d’Orient3 – vieram nos ajudar e eu vi que, para eles, “Mary’s Kitchen”4 (nome dado à garagem reformada) é um lugar de terapia .
Ajudar os outros ajuda-os a superar o trauma de 4 de agosto. Queremos mostrar-nos fortes com as pessoas e dar esperança. Pois nós, cristãos, somos filhos da esperança.
De que forma “Mary’s Kitchen” é um local de terapia?
As pessoas da vizinhança que vêm trabalhar como voluntários encontram uma família aqui. São Sunitas, Xiitas, Maronitas, etc. Todos são acolhidos porque é o coração de Maria que os acolhe. Temos relacionamentos profundos e fraternos uns com os outros.
Na verdade, acima de tudo damos amor e um pouco de comida. As pessoas sentem-se em casa e o fato de compartilhar, de aceitar os outros, é uma maneira de acalmar os medos, de curar.
- No início, alguns voluntários opuseram-se à distribuição de refeições em bairros sunitas e xiitas,
- mas com o tempo eles entenderam que não é a nós que cabe julgar.
Alguns me dizem:
- o senhor dá comida aos Muçulmanos, mas eles não dão comida aos Cristãos.
- Mas digo a eles que o que importa para mim é ser coerente com a minha fé.
Um muçulmano vem comer aqui todos os dias. Todos os dias ele me agradece e eu digo a ele todas as vezes que não é a mim que ele deve agradecer, mas a Cristo.
- Não se questiona quanto à filiação religiosa,
- porque dar comida, mesmo aos próprios inimigos,
- faz parte dos deveres de todo o ser humano.
É assim que devemos continuar a viver se quisermos permanecer como Líbano – “a mensagem”5 de que falava João Paulo II –
uma experiência única de convivência e fraternidade no mundo, entre as comunidades muçulmanas e cristãs.
O senhor acha que o Líbano será capaz de se recuperar das graves crises políticas e econômicas que vive atualmente?
Sim, acho que sim.
- O Líbano poderá se recuperar assim que tiver um bom governo que seja capaz de reconquistar a confiança do povo.
- Isso exigirá novas eleições e pressão internacional sobre o Hezbollah – e, portanto, sobre o Irã –
- para fazer este partido xiita abandonar as suas armas e renunciar às ameaças ao povo libanês.
Há um grande número de pessoas competentes aqui que são capazes de formar um novo governo fora dos partidos tradicionais que monopolizaram o poder por décadas.

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Claire Lesegretain
NOTAS:
1 Offre joie – lit. Ofereça alegria.
2 Arc-en-ciel – Arco-íris.
3 L’Œuvre d´Orient (A Obra do Oriente) é uma associação francesa sem fins lucrativos fundada em 1856 e reconhecida como sendo de interesse geral. Comprometida em servir aos cristãos do Oriente, ela atua em 23 países, principalmente do Oriente Médio, do Chifre da África, da Europa Oriental e da Índia. Oferece aos bispos, sacerdotes e comunidades religiosas, assim como aos voluntários, os meios para cumprir as suas missões: educação, saúde e assistência social, socorro aos refugiados, cultura e patrimônio. (Wikipedia)
4 Mary’s Kitchen – Cozinha de Maria.
5 Durante a sua visita ao Líbano, no seu discurso em 11 de maio de 1997, na Esplanada da base naval em Beirute, João Paulo II referiu-se a uma mensagem do profeta Isaías: «…No limiar do novo milénio, possamos nós ver realizar-se a mensagem profética de Isaías: ‘Mais um pouco, em breve, converter- se-á o Líbano em vergel, e o vergel será considerado floresta » (29, 17)!