Cristovam Buarque* – 16 de dezembro de 2020 – (Correio Braziliense)
Em pleno século XXI, nossa direita ainda não aceitou a Lei Áurea e a esquerda não percebeu a queda do Muro de Berlim. A primeira mantém a divisão do Brasil entre Casa Grande e Senzala, por isso o capitalismo continua amarrado ao passado. A segunda conserva as mesmas ideias que vêm do socialismo dos séculos XIX e XX.
Não dá para ter ilusão no reacionarismo atávico da direita, que não vai se reciclar para o capitalismo moderno, dinâmico, inclusivo e sustentável.
Difícil ter esperança na esquerda atual, porque não está sintonizada com a realidade de transformações que ocorrem no mundo.
Uma está do lado dos donos, a outra do lado dos trabalhadores agregados à Casa Grande, sem propostas transformadoras para o futuro.
- A direita olha o presente, querendo manter privilégios para a minoria;
- a esquerda reivindica privilégios para trabalhadores e gestos solidários com o neoliberalismo social, como bolsas e cotas.
- A esquerda tem sensibilidade social, mas não tem proposta para um novo sistema econômico e social.
- Defende os sem-teto no presente, mas não tem estratégia para fechar a fábrica de sem-teto da estrutura social brasileira.
A direita sempre repudiou e a esquerda aposentou a palavra revolução, depois que suas ideias ficaram velhas e suas corporações conseguiram sentar à mesa da Casa Grande.
- Defende ampliação de universidades, mas não se empenha em erradicar o analfabetismo e garantir educação de base com qualidade igual para todos;
- defende os que já estão no sistema de aposentadoria, não os que estão fora dele; os sindicalizados, não os excluídos; os sem-teto, não o fim da exclusão.
Com individualismo e egoísmo,
- a direita repudia o Estado quando ele tenta beneficiar os pobres,
- e a esquerda não percebe que sem reformas o Estado se esgota porque seu gigantismo o faz ineficiente, seu elitismo atende mais a interesses da própria máquina que da população;
- seus dirigentes se viciaram na corrupção.
Nosso estatismo faz parte da Casa Grande. Não aceita que estatal não é sinônimo de público nem de popular.
A esquerda
- não vê que a mudança no perfil da pirâmide etária exige reforma da previdência; nem que o avanço técnico exige reforma trabalhista.
- Entende que a globalização é invenção do capitalismo e não a marcha da civilização industrial.
- Não percebe que a política não se faz por partidos polarizados, mas por partidos com divergências e convergências.
A esquerda não entende que
- inflação é roubo à população
- e que é preciso quebrar a tradição de governos conservadores de gastar mais do que se arrecada, jogando a conta para o povo.
Não percebe que
- a economia não é mais realizada apenas pelo capital, trabalho e recursos naturais;
- porque dois novos fatores são fundamentais: conhecimento, que se produz na educação, e confiança, que exige regras duráveis, especialmente com moeda estável.
Deve reconhecer que consumidores e investidores devem tirar proveito do mercado e não ignorá-lo. Ela ainda não quer entender que l
- imites ecológicos ao crescimento exigem mais do que proteger o meio ambiente:
- requer substituição do PIB por novos indicadores de progresso.
A esquerda
- não pode mais representar apenas trabalhadores agregados à Casa Grande
- e deve entender que luta de classes se faz na divisão de recursos públicos no orçamento de governos
- para revolucionar a estrutura social na direção da inclusão, sustentabilidade e eficiência.
Ela deve
- sair do tempo de reivindicar para o de lutar pela distribuição de recursos públicos,
- enfrentando os que perdem privilégios, mordomias, vantagens e subsídios.
Sobretudo, entender que
- neste século o vetor do progresso econômico e social é a educação.
- Por isso, deve radicalizar e defender que todas as escolas tenham a mesma qualidade,
- indicando como fazer isso, determinando prazo e custos e quem os pagaria.
Esta seria a revolução possível e necessária hoje.
O problema da esquerda é que,
- prisioneira do presente eleitoral e de alianças corporativas,
- não tem ousadia de olhar para o futuro, nem de defender as ideias que ele exige.
O problema político do Brasil não é só falta de sensibilidade da direita, ainda escravocrata, mas de compreensão da esquerda saudosista e corporativa.
Ambas atrasadas:
- uma 100 anos,
- a outra 30;
as duas olhando o mundo desde a Casa Grande, uma com olhares de senhores, a outra dos agregados. As duas conservadoras.
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*Cristovam Buarque
Professor Emérito da Universidade de Brasília (UnB)
Postado por Gilvan Cavalcanti de
Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2020/12/4894868-e-o-futuro-esquerda.html
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