
José Alcimar de Oliveira * – 19/11/20 – Foto: Chief of Design
Algo estranho nessa fobia ao vermelho, porque a cor da vida e da luta está presente em mais da metade das bandeiras das nossas unidades federativas.
Em pelo menos nove delas (AL, AM, BA, MA, MG, PA, PB, RS, SC e SP) a cor vermelha é realçada, especialmente na da Paraíba.
1. Criado pela UNESCO em 2002, o Dia Mundial da Filosofia é comemorado na terceira quinta-feira do mês de novembro.
- Nesse 2020, e marcada pela pandemia do coronavírus,
- a comemoração da Ave de Minerva coincide com o Dia da Bandeira do Brasil que,
- para parte da direita e a totalidade da ultradireita, nunca será vermelha.
Algo estranho nessa fobia ao vermelho,
- porque a cor da vida e da luta
- está presente em mais da metade das bandeiras das nossas unidades federativas.
Em pelo menos dez delas (AL, AM, BA, MA, MG, PA, PB, RS, SC e SP) a cor vermelha é realçada, especialmente na da Paraíba.
- Vermelho é o sangue dos mártires e sem o vermelho que beleza haveria nas rosas?
- E a mais vermelha das Rosas, Rosa Luxemburgo, poderia desvestir-se do vermelho?
- A Eucaristia dos cristãos católicos subsistiria sem o vermelho do sangue do martírio de Jesus de Nazaré?

A bandeira da Paraíba: Preto e vermelho: quem vai negar que o vermelho é tão brasileiro que está em nove bandeiras? / Pinterest
2. E a Filosofia, em seu devir histórico, dos Pré-Socráticos ao Brasil atual e sob ostensivo domínio do obscurantismo que a cada dia trama a mutilação das asas da Ave de Minerva,
- poderia ser pensada sem a resistência vermelha e dialética do iluminismo,
- que faz a ponte entre o pensamento de Heráclito, na Grécia Antiga, e Florestan Fernandes,
- o mais irredento dentre os pensadores revolucionários do Brasil contemporâneo?
Como pensar
- o vermelho do sangue da resistência indígena e negra à brutalidade da colonização de Nuestra América, Ameríndia e Afro,
- sem uma Filosofia que reconheça no saber dos povos originários um estatuto epistêmico tão fecundo quanto aquele de matriz cartesiana?
O saber em proveito do homem, conforme definição platônica da Filosofia, seria menos filosófico entre os povos indígenas das Américas do que o de matriz helênica?
3. O Dia Mundial da Filosofia deve ser antes de tudo o dia da exaltação do pensamento e da sabedoria dos povos.
- Não pode ser um dia helênico nem eurocêntrico, com a devida vênia de Heidegger, para quem a Filosofia é algo geneticamente grego.
- Nenhum povo é destituído de bom senso ou, numa interpretação limitada de Descartes, teria sido o bom senso partilhado exclusivamente na Europa?
A composição helênica da palavra Filosofia não significa que o constitutivo ontológico indicado pelas duas palavras gregas – amor e sabedoria – seja um apanágio da Hélade. Há Filosofia fora do termo Filosofia.
- As águas dos rios da Hileia não são menos dialéticas ou heurísticas do que as águas dos rios heraclíticos da Hélade.
- O que lá flui para cá conflui e inversamente.
- Se a verdade é o modo de ser do real, onde houver esforço honesto de pensar o real, aí haverá Filosofia.
4. Comemorar o Dia Mundial da Filosofia implica reafirmar o direito do povo à educação.
- Quando integral e ao promover a necessária formação omnilateral,
- em contraposição à unilateralidade da instrução para o mercado de trabalho,
- a educação já será em si mesma filosófica.
Educação e Filosofia confluem para a afirmação do que o Marx dos Manuscritos denomina de natureza genérica humana.
- Não é destino do ser social limitar a riqueza de sua existência genérica ao enjaulamento requerido pela produção do valor de troca.
- Nascemos não para produzir mercadorias, mas antes para produzir nossa existência como espaço da formação humana.
A gramática do capital
- sempre depõe contra a natureza da omnilateralidade do processo educativo
- e, por consequência, por travar o pensamento,
- impede a formação da consciência filosófica.
A formação omnilateral é, pois, o início, o processo e o fim da Educação e da Filosofia.
5. A gramática do capital é intrinsecamente antieducativa e antifilosófica. É impossível nos limites do sociometabolismo da produção capitalista afirmar o trabalho como princípio educativo e filosófico. A lógica do capital alimenta e se alimenta do trabalho alienado.
Não é gratuito o medo que a direita e tanto mais a ultradireita têm da Educação e da Filosofia. Desse medo nasce a organização política do ódio que outra coisa não é senão o fascismo.
- O Dia Mundial da Filosofia, como dia essencialmente educativo,
- é dia de afirmar a luta contra o fascismo,
- que não viceja sem o ódio ao pensamento.
A Filosofia é sempre a ponte fecunda e festiva que permite o encontro entre a verdade e o real.
- Nietzsche, o filósofo matinal da afirmação da vida, associava o pensar à festa e à alegria.
- Todos os regimes e governos autoritários e ditatoriais, retensivos e ressentidos que são, cultivam ódio mortal à alegria e à festa, portanto, à Filosofia.
6. Quanto mais a Filosofia se aparta do mundo da vida, do mundo do trabalho, e se encastela nos aposentos do produtivismo acadêmico, tanto mais a classe que vive do trabalho desconfia das intenções, por melhores que sejam, do mundo intelectual.
É célebre a carta que Joseph Dietzgen, operário do Curtume Vladimir Vlassili Ostrov, de São Petersburgo, enviou a Marx em 1867:
- “Perdoe-me, prezado senhor, pela presunção de tomar seu tempo e atenção. Pensei ser capaz de dar-lhe satisfação pela prova de que a Filosofia de um trabalhador manual é mais clara do que a média dos filósofos-professores de nossos dias.
- Eu daria mais valor à sua aprovação do que ao convite que alguma academia erudita pudesse fazer-me, para que me incluísse entre seus membros”.
Para Dietzgen,
- “o fundamento de toda ciência reside no conhecimento do processo do pensamento.
- Pensar significa desenvolver o geral a partir do que é dado pelos sentidos, do particular”.
7. É de conhecimento comum que Marx, cujo doutorado versou sobre a diferença entre as filosofias da natureza dos pensadores gregos Demócrito e Epicuro, nunca frequentou academias nem submeteu sua monumental produção filosófico-científica aos cânones restritivos da intelectualidade universitária.
Soube como poucos superar as armadilhas tanto do teoricismo quanto do voluntarismo. Por isso,
- pela aderência crítica e destrutiva a que submeteu o objeto de seu pensamento, o devir do modo de produção capitalista,
- é de longe o mais dialético entre os pensadores de todos os tempos.
É dele, segundo Kopnin, a mais importante conquista do pensamento filosófico: “a incorporação da prática à teoria do conhecimento”.
Celebrar com Marx o Dia Mundial da Filosofia é reconhecer que a teoria – Filosofia – quando penetra a consciência das massas se converte em força material.
* José Alcimar de Oliveira
é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões, AM, e Jaguaribe, CE. Em Manaus, AM, no Dia Mundial da Filosofia, 19 de novembro do ano coronavirano de 2020.
Fonte: Original enviado pelo autor, via e-mail
