“Se não existe uma verdade transcendente, na obediência à qual o homem adquire a sua plena identidade, então não há qualquer princípio seguro que garanta relações justas entre os homens”.
Anselmo Borges – 31 de Outubro de 2020 -Imagem: Vitor Higgs / DN
Quando se expulsa Deus da sociedade, “acaba-se adorando ídolos e bem depressa o próprio homem se sente perdido, a sua dignidade é espezinhada, os seus direitos violados”.
- Do tríptico: liberdade, igualdade e fraternidade, é a fraternidade que, sem a referência à transcendência, tem dificuldade em encontrar um fundamento último sólido. Por isso, Francisco escreve:
“Como crentes, pensamos que,
- sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis para o apelo à fraternidade.
- Estamos convencidos de que só com esta consciência de filhos que não são órfãos podemos viver em paz entre nós.
- Com efeito, a razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles,
- mas não consegue fundar a fraternidade.”
A própria ética, embora autónoma, terá dificuldade em estabelecer um fundamento inabalável, sem essa abertura à transcendência. De facto, o ser humano é terrivelmente carente e, por isso, irracionalmente egoísta e está sempre sob o perigo de ser subrepticiamente assaltado pela pergunta:
- porque é que hei-de fazer o bem e cuidar do outro em necessidade
- mesmo quando isso agride os meus interesses e me prejudica?
Neste contexto, Francisco continua, derrubando a acusação feita por católicos conservadores de fomentar o relativismo:
“Quero lembrar um texto memorável de João Paulo II:
- ‘Se não existe uma verdade transcendente, na obediência à qual o homem adquire a sua plena identidade,
- então não há qualquer princípio seguro que garanta relações justas entre os homens.
- Com efeito, o seu interesse de classe, de grupo, de nação contrapõe-nos inevitavelmente uns aos outros.
Se não se reconhece a verdade transcendente, triunfa a força do poder,
- e cada um tende a aproveitar-se ao máximo dos meios à sua disposição para impor o próprio interesse ou opinião,
- sem atender aos direitos do outro.
A raiz do totalitarismo moderno deve ser individuada
- na negação da transcendente dignidade da pessoa humana, imagem visível de Deus invisível,
- e precisamente por isso, pela sua própria natureza, sujeito de direitos que ninguém pode violar:
- indivíduo, grupo, classe, nação ou Estado.
- Nem tampouco o pode fazer a maioria de um corpo social lançando-se contra a minoria.”
2. A maior parte da Humanidade continua a afirmar-se religiosa. Francisco está convicto — por isso, confia e espera — de que
- as religiões todas, de acordo com a sua essência e razão de ser,
- levarão à prática, por palavras e obras, o que constitui o fundamento e o mandamento principal de todas elas: o amor, a misericórdia, a paz, a fraternidade.
Por isso, acrescenta:
“Como crentes das diversas religiões sabemos que tornar Deus presente é um bem para as nossas sociedades.”
Daí, a exigência da liberdade religiosa:
- “Conheceis bem a brutalidade a que pode conduzir a privação da liberdade de consciência e da liberdade religiosa,
- e como desta ferida se gera uma Humanidade radicalmente empobrecida, porque fica privada de esperança e de ideais”.
Quando se expulsa Deus da sociedade,
“acaba-se adorando ídolos e bem depressa o próprio homem se sente perdido, a sua dignidade é espezinhada, os seus direitos violados”.
O cristianismo e o islão juntos somam mais de metade da Humanidade, e Francisco confessa que, para esta encíclica, recebeu estímulo do “Documento sobre a fraternidade humana”, assinado por ele e pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb em Abu Dhabi em 2019, no qual se recorda que Deus
“criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e chamou-os a conviver como irmãos.”
Dirige-se a todos, não só aos crentes. Aliás, há ateus que vivem mais de acordo com a vontade de Deus do que alguns crentes:
“Quando chegar o último dia e houver luz suficiente na terra para poder ver as coisas como são, não faltarão surpresas!”
3. E a inevitável pergunta sobre a violência e a opressão brutais exercidas ao longo dos séculos pelas religiões, de que o exemplo mais recente é a morte de Samuel Paty, professor francês, degolado em nome de Alá, por defender a liberdade de pensamento e de expressão? Como resposta, penso que há dois princípios imprescindíveis, irrenunciáveis.
3.1. Quem é a pessoa religiosa, crente?
Aquele, aquela que, perante as perguntas religioso-metafísicas, inevitáveis:
- qual é o Fundamento último de tudo, qual é o Sentido final da minha existência, da História, do mundo,
- ousa entregar-se confiadamente ao Sagrado, ao Mistério último, ao Absoluto, a que também se dá o nome de Deus, do qual espera Sentido último e salvação.
As religiões, essas,
- são tentativas de dizer e tornar presente o Mistério, o Absoluto,
- mas elas não são o Absoluto.
Por isso, como escreveu Kant,
- as religiões, apesar da sua majestade, não são imunes à crítica.
- Pelo contrário, já que nelas há de tudo: o melhor e o pior.
Este princípio tem uma aplicação concreta, essencial:
- os Livros sagrados não são ditados de Deus,
- são Palavra de Deus em palavras humanas.
Por isso, exigem interpretação histórico-crítica, sendo critério decisivo da sua verdade
- a ética,
- a defesa da dignidade de todos,
- a promoção da fraternidade universal e da paz.
3.2. Para garantir a liberdade religiosa de todos — ter esta ou aquela religião, não ter nenhuma, mudar de religião —,
- exige-se a separação da religião e da política,
- o Estado tem de ser confessionalmente neutro, não podendo ter uma religião oficial.
É o princípio da laicidade, que não laicismo — este seria a religião da não religião, ao pretender remetê-la exclusivamente para o domínio da esfera privada ou íntima, ignorando que a religião também tem lugar no espaço público.’
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Anselmo Borges
Teólogo, escritor, professor de Filosofia em Coimbra
