Nos últimos anos têm havido fortes revoltas em vários países latino-americanos. Contra políticas liberais que beneficiam poucos ricos e o mercado e inviabilizam a vida do Povo

Luciano Canfora, 23/10/20 – Foto: Revolta na Bolívia em 2019 / Peoples dispatch
Em seu novo livro, a filósofa italiana Donatella Di Cesare vê nos protestos atuais um “laboratório de resgate”. O problema de fundo é como deixar para trás a condição atual em que “o capitalismo triunfa sobre os destroços das utopias”. Segundo a filósofa, “a revolta “convida a um outro modo de habitar o tempo” e, por isso, é “laboratório de resgate, tempo de libertação”.
O comentário é de Luciano Canfora, classicista e historiador italiano, professor da Universidade de Bari. O artigo foi publicado em Corriere della Sera, 23-10-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.

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Donatella Di Cesare (Foto: Wikipedia) escreveu um livro de poesia: “Il tempo della rivolta” [O tempo da revolta] (Ed. Bollati Boringhieri). A autora repensa, em uma modalidade lírico-apocalíptica, uma questão antiquíssima: a “psicologia das multidões”, nas palavras do célebre livro de Gustave Le Bon (1895).
O seu ponto de vista, nesse reavivamento da explosão violenta das multidões (“as chamadas multidões criminosas”do livro de Le Bon), é que, no tempo presente, a explosão (a “revolta”, justamente)
- seria característica dos sujeitos marginais ou marginalizados.
Por isso, ela insiste muito na contraposição entre
- encastelamento, como ela escreve, “estadocêntrico” da maioria
- e as explosões “anárquicas”
- dos marginais.
Explosões
- que não podem ser explicadas apenas com “os motivos contingentes”que parecem desencadeá-las,
- mas que expressam “um mal-estar impreciso, um desconforto vago mas insistente”, revelador de “todas as expectativas desiludidas”.
Por isso, a autora
- evoca “os insurgentes que atiravam contra os relógios” – fenômeno bem conhecido de inconcludente “ludismo”–
- e sugere também (e aqui mais do que nunca ela entra no campo da poesia) que “a revolta beira a festa”.
Na página final, capta-se quase um elogio dos Saturnais romanos, durante os quais
- “as regras não são simplesmente anuladas, mas se despedaça aquele nexo entre meio e fim que demarca a habitual produtividade dos dias”
- e “liberta-se o agir da economia”.
Desse modo – conclui ela – a revolta “convida a um outro modo de habitar o tempo” e, por isso, é “laboratório de resgate, tempo de libertação”.
A sintomatologia que esse livro quer descrever estava bem delineada em grandes clássicos:
- os capítulos de Manzoni sobre a revolta milanesa (o assalto aos fornos que excita Renzo Tramaglino à ação rebelde);
- ou os capítulos de Tucídides sobre o enlouquecimento moral consequente ao contágio da peste e assim por diante.
Toda generalização precisaria de uma exemplificação concreta:
- não por acaso, os grandes que acabamos de recordar partem de um caso concreto
- e, ao descrevê-lo, fazem emergir a sintomatologia da “explosão”anárquica (por norma, inevitavelmente efêmera).
A história até aqui conhecida é pontilhada de “revoltas”, cujas características são justamente aquelas resumidas nesse livro: a precipitação em forma violenta e aparentemente libertadora de um descontentamento que se acende a partir de um “pretexto” individual e que, por isso, o transcende.
A autora se pergunta também se, no futuro próximo, quem levará a melhor será
- “a parcial satisfação das demandas” (da qual brotou a revolta)
- ou se, em vez disso, “as lutas se difundirão e se radicalizarão”;
- e delineia uma encruzilhada: entre “raiva cega sem amanhã” e “centelha destinada a pegar fogo”.
Vem à mente o diálogo (real ou imaginário) entre Luís XVI e o seu ministro no fatídico 1789:
- o rei se pergunta se explodiu uma “revolta”,
- e lhe respondem: “Não, é uma revolução”.
Muito raramente, as revoltas se tornam revoluções. No máximo, o problema é:
- em que medida – e por que – as revoluções se tornam cada vez menos possíveis,
- enquanto as revoltas explodem de modo cada vez mais frequente (com resultados principalmente nulos).
Muitos fatores contribuíram com essa linha de tendência do desenvolvimento histórico: no século XIX, depois da “primavera dos povos” de 1848, no país mais atingido por revoltas transbordantes em revoluções (a França, na realidade, principalmente a sua capital), o poder político buscou ampliar desmedidamente as ruas para impossibilitar as barricadas (o prefeito Haussmann).
Era uma resposta “técnica” ao mal-estar social e ao seu resultado político.
A máquina estatal tornou-se cada vez mais forte desde então:
- a última revolução europeia foi o Outubro de 1917 em São Petersburgo,
- que foi o resultado não só de uma notável direção militar da insurreição,
- mas também (e sobretudo) de uma série de circunstâncias concomitantes (desgosto de massa pela guerra desastrosa etc.).
Mas já a revolta espartaquista de Berlim (janeiro de 1919)
- fracassou em poucos dias
- e não conseguiu assumir as características da revolução em nenhum momento.
Nos 20 anos entre 1927 e 1949, em vez disso,
- uma revolução de um tipo totalmente diferente (lenta e capilar) se produziu em um mundo (a China)
- muito diferente daquela emblematicamente representado por Paris, São Petersburgo, Berlim.
Sinal da inevitável mutação do próprio conceito de “revolução”.
A questão aqui posta – se e quando uma revolta se torna revolução – foi abordada com maestria por um grande historiador, Edward Hallett Carr, no único texto em que ele se concedeu uma reflexão de caráter teórico (“Que é História?”, Ed. Paz e Terra), naquele capítulo inicial centrado no tema:
- quando um “fato”(um dos bilhões de “fatos” que ocorrem na realidade) se torna um “fato histórico”?
- E deu o exemplo dos destinos historiográficos da morte violenta (uma “explosão” também, de uma multidão enfurecida) de um vendedor de pão de gengibre em Stalybridge Wakes em 1850.
A outra questão que se deveria levar em consideração quando se estuda o rebelismo que permeia o mundo atual (em igual medida que nos milênios anteriores da história humana conhecida)
- é se o desembarque decepcionante das “revoluções” do século XX
- não contribuiu com a multiplicação do rebelismo fatalmente de fôlego curto (e cada vez mais violento).
É difícil avaliar quão enganoso é o raciocínio daqueles que preveem que, mesmo assim,
- um novo ciclo de racionalidade revolucionária pode se abrir depois do esgotamento do rebelismo estéril,
- a ponto de deixar para trás a condição atual:
- em que – como escreve a autora – “o capitalismo triunfa sobre os destroços das utopias”.
Maquiavel ensina que
- o “círculo em que todas as repúblicas foram e são governadas”
- não pode se replicar indefinidamente,
- “porque – explica – quase nenhuma república pode ser de tanta vida que possa passar muitas vezes por essas mutações e ficar de pé”.

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Luciano Canfora