Leonardo Miazzo – 07 Outubro 2020
Foto: Bandeira do Brasil enrugada. / http://ceseep.org.br
A extrema-direita americana, como mostrei no meu livro “A guerra contra o Brasil”, se inicia nos anos 70 do século passado e tem sua singularidade, antes de tudo, no fato de
- não mais ter o comunismo e a “esquerda” como os inimigos principais,
- mas sim o próprio consenso democrático construído à custa de muita luta e sofrimento nos últimos duzentos anos.
Os movimentos negacionistas que despertam a atenção em meio à pandemia do novo coronavírus representam um novo fenômeno e têm participação direta da extrema-direita dos Estados Unidos. A opinião é do sociólogo Jessé Souza, autor de livros como “A Elite do Atraso”, “A Classe Média no Espelho” e, mais recentemente, “A Guerra Contra o Brasil”.


Três livros de Jessé Souza – Fotos: Internet
“O objetivo é a formação de um novo consenso social e político abertamente reacionário, por meio precisamente da propagação da mentira como arma de guerra”,
afirma o sociólogo em entrevista exclusiva a CartaCapital.
No âmbito nacional, Jessé avalia que o presidente Jair Bolsonaro é o principal responsável por um processo de “naturalização” dos números de mortes causadas por Covid-19.
“Em situações extremas, a função apaziguadora e o comportamento racional do líder máximo são decisivos. Nada nem ninguém o substitui. Os governadores têm muito menos poder de ação”, afirmou.
O boletim mais recente sobre a Covid-19 no Brasil, divulgado na noite desta segunda-feira 5 pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), aponta que o País registra 146.675 mil mortes causadas pelo novo coronavírus desde o início da pandemia, além de 4.927.235 casos confirmados.
Eis a entrevista.
Negacionistas atuam em diversas frentes, em um momento de calamidade pública: negando a gravidade da Covid-19, retomando um movimento antivacina e duvidando até da devastação ambiental. Não é particularidade do Brasil, mas aqui esses movimentos vêm ganhando força. Como o senhor avalia esse fenômeno?
Sem dúvida é um fenômeno surpreendente e novo.
Para mim se trata de um ataque da extrema-direita comandada pelos Estados Unidos com impactos globais, especialmente no Brasil.
A extrema-direita americana, como mostrei no meu livro “A guerra contra o Brasil”, se inicia nos anos 70 do século passado e tem sua singularidade, antes de tudo, no fato de
- não mais ter o comunismo e a “esquerda” como os inimigos principais,
- mas sim o próprio consenso democrático construído à custa de muita luta e sofrimento nos últimos duzentos anos.
O que deve ser destruído
- é a própria noção de democracia e de seus corolários como
- direitos individuais,
- proteção da natureza,
- direitos de minorias
- e, antes de tudo, os direitos dos trabalhadores.
O objetivo
- é a formação de um novo consenso social e político abertamente reacionário,
- por meio precisamente da propagação da mentira como arma de guerra
- e a subversão da noção de esfera pública argumentativa,
- baseada em argumentos racionais falseáveis por meio do debate público.
A manipulação das redes sociais só pode ser compreendida dentro deste registro.
A criação de uma esfera pública argumentativa é mecanismo básico do processo de aprendizado coletivo de todas as sociedades modernas nos últimos 200 anos.
- E é precisamente isso que a extrema-direita americana, hoje em dia com Trump e Bannon como figuras públicas mais reconhecíveis, quer destruir.
- Como em países como EUA e Brasil a população é saqueada, sem se dar conta disso, pelo rentismo sem peias e por dívidas públicas secretas e galopantes,
- há muito ódio e frustração sem direção sendo canalizados por discursos de ódio.
É isso o que está destruindo a democracia em muitos lugares.
O objetivo é a construção de um capitalismo altamente destrutivo e desregulado, com um Estado enfraquecido e sem condições de controlar o mercado, possibilitando, por exemplo, o saque da natureza por indústrias sujas e poluentes que deixam de temer multas bilionárias por sua ação destrutiva. O Brasil é, obviamente, o laboratório de teste mais visível deste tipo de novo capitalismo.
O Brasil ultrapassou as 146 mil mortes por Covid-19 e os dados diários continuam elevados. Ao mesmo tempo, porém, a impressão é de que muitas pessoas entraram em processo de ‘naturalização’, como se tivessem se habituado aos números. O que explica essa postura?
Bem, eu acho que Bolsonaro pessoalmente tem a maior parcela de culpa desta situação.
- Ao contrário dos países que tomaram enorme cuidado com suas populações,
- o Brasil foi sabotado pelo próprio presidente da República, ou seja, pela figura política central que,
- precisamente em épocas de catástrofes, deve assumir a responsabilidade pelo cuidado, e envidar todos os esforços para evitar mortes inúteis.
Em situações extremas, a função apaziguadora e o comportamento racional do líder máximo são decisivos. Nada nem ninguém o substitui. Os governadores têm muito menos poder de ação. Infelizmente,
- Bolsonaro não é apenas o representante mais obtuso e irresponsável da extrema-direita reacionária mundial que descrevi acima.
- Ele é também um tipo psicológico patológico por sua virtual ausência de qualquer sensibilidade e empatia humana.
Destas 140 mil pessoas, 100 mil morreram pela inépcia e pela irresponsabilidade de Bolsonaro. Basta comparar o desempenho do governo brasileiro com o dos países que foram, inclusive, afetados pela pandemia muito antes do Brasil. Bolsonaro teve todo o tempo do mundo para se preparar e aprender com o exemplo alheio, mas preferiu não fazer nada.
O presidente Jair Bolsonaro negou desde o início da gravidade da Covid-19, se contrapôs a medidas de isolamento social e defendeu o uso de um medicamento cuja eficácia não foi comprovada. Nesse contexto, o presidente vê a aprovação a seu governo crescer, entre outros fatores, pela popularidade do auxílio emergencial. Como o senhor avalia esse quadro?
Ora, a maior parte da população brasileira
- é pobre por razões que ela desconhece.
- Esse desconhecimento abre enorme espaço à manipulação.
- A grande mídia fragmenta notícias e cria um mundo falso e enviesado.
- A religião evangélica, quando se organiza como partido político, pretende se aproveitar dessa ignorância construída e volitiva para fabricar um consenso reacionário e fundamentalista no País.
Isso abre enorme espaço para um uso instrumental da pobreza da qual Bolsonaro é a expressão máxima.
A única defesa do pobre é seu pragmatismo: como a política é vista pelo pobre como corrupta e coisa de rico, o que importa é o que sobra para ele no final das contas.Enquanto este dinheirinho estiver entrando, haverá apoio a Bolsonaro, que foi falsamente identificado como o pai da ajuda emergencial. Daí vem a atual popularidade de Bolsonaro apesar de todos os erros e bobagens que cometeu.
Os Estados Unidos passarão por eleições presidenciais em menos novembro. Até que ponto uma eventual derrota de Donald Trump para Joe Biden pode abalar a expansão da direita a nível internacional verificada nos últimos anos e impactar, inclusive, o Brasil e Jair Bolsonaro?
Esta é uma questão de difícil resposta. O Partido Democrata é tão ou mais envolvido com práticas criminosas do “deep state” americano que o Partido Republicano. A submissão e o enfraquecimento do Brasil, como potência regional em potencial, é um programa político de ambos os partidos americanos. Nesse sentido, não vejo grande possibilidade de mudança. Talvez em relação ao apoio a Bolsonaro pessoalmente, que é uma figura caricata e ligada ao que há de pior no mundo, tenhamos um afastamento relativo de Biden por oposição ao “caso de amor” unilateral de Bolsonaro com Trump.

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Leonardo Miazzo
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