
Na série The Young Popee em sua continuaçãoThe New Pope, da HBO, o papa Pio 13 (Jude Law) é um superstar da fé. Mais famoso e idolatrado do que qualquer cantor de rock ou estrela de cinema. Indisfarçavelmente narcisista, ele gosta do culto à sua imagem.
Já seu sucessor, o deprimido João Paulo III (John Malkovich), prefere manter distância dos holofotes. A pressão midiática sobre ele é tão sufocante que resulta em sua abdicação ao trono de São Pedro. Qualquer semelhança entre o popular papa Francisco e o introspectivo papa emérito Bento 16 não é mera coincidência.
A um católico tradicional, as duas produções causam choque, talvez até indignação.
A ficção a respeito dos bastidores do Vaticano mostra um mundo odioso:
- disputas por dinheiro e poder,
- sexualidade e luxúria entre os homens que juraram castidade e celibato,
- domínio da vaidade sobre a pretendida humildade,
- acobertamento de pecados e crimes,
- menosprezo às mulheres que servem à cúpula da Igreja.
Na vida real, que às vezes supera a ficção em sordidez,
- um pouco daquele universo chocante no entorno dos papas
- pode ser vislumbrado nas acusações contra o padre Robson de Oliveira, do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, de Trindade (GO).
Nacionalmente famoso graças a seu programa diário na Rede Vida,
- ele está no centro de uma investigação de vários crimes
- — apropriação indébita, falsificação de documentos, sonegação fiscal, associação criminosa e lavagem de dinheiro —
- que teriam sido cometidos a partir do desvio milionário de doações de fiéis ao longo de anos.
O escândalo não está restrito ao pecado da ganância.
- Um hacker pago com dinheiro arrecadado na igreja sob a liderança do padre Robson
- para não divulgar conteúdo impróprio a respeito da intimidade do líder religioso disse ter sido amante dele
- e apontou outros supostos casos amorosos.
A repercussão de tantas denúncias graves teve repercussão bombástica na imprensa, nas redes sociais e entre devotos. O ápice da exposição negativa aconteceu em matéria de 19 minutos na edição de 23 de agosto do Fantástico, na Globo. O religioso e seus advogados negam qualquer ato ilegal.
Culpado ou não, o estrago à imagem de Padre Robson é irreversível.
Esse vexame à Igreja Católica tem potencial para encerrar a era dos padres pop.
- Sempre existiram líderes com atuação artística e forte presença na mídia, a exemplo do precursor padre Zezinho, hoje com 79 anos, ainda circulando por TVs e rádios.
- Mas o status de superstar da fé foi lançado por Marcelo Rossi na década de 1990.
O ‘boca a boca’ a respeito de suas missas dinâmicas o levou aos programas de Gugu Liberato e Faustão. Sucesso imediato.
- A televisão transformou o padre do hit ‘Erguei as Mãos’ em ídolo de milhões de pessoas, inclusive de outras religiões.
- Ele se tornou uma máquina de dinheiro com a venda de CDs, DVDs e livros.
A veneração à sua personalidade gerou extensa investigação do Vaticano.
- Havia na cúpula do catolicismo certo incômodo com a espetacularização em torno de Marcelo Rossi
- e a sombra que seu exibicionismo involuntário fazia sobre a liturgia.
Vítima do próprio êxito, o padre de sorriso contagiante desenvolveu depressão profunda.
- Precisou renunciar ao espaço cativo diante das câmeras.
- Despiu-se da imagem de ‘showman’ de Cristo para buscar a reconexão consigo mesmo e com sua missão evangelizadora.
- Hoje, faz raras aparições na TV. Dedica-se aos livros.
- Em alguns deles relatou o inferno vivido nos anos de falsa felicidade.
Igualmente elevado à condição de popstar,
- padre Fabio de Melo se fez influenciador digital e prolífico produtor de memes.
- Belo e carismático, virou galã aos olhos das telespectadoras.
- Da TV Canção Nova passou a aparecer nos principais programas do País. Era um ímã de audiência.
Contudo, em algum momento, uma desordem emocional o levou ao fundo do poço.
- O quadro depressivo foi tão forte que fez o sacerdote pesquisar métodos de suicídio.
- Afastou-se dos palcos e estúdios de TV.
- Buscou ajuda médica para tratar a mente e recuperar o amor pela vida.
- Continua ativo nas redes sociais, porém com grau de exposição menor.
Importante destacar que
- Marcelo Rossi e Fabio de Melo nunca foram acusados de nenhuma atitude ilícita,
- como acontece com Robson de Oliveira.
- A única falha foi, talvez, contra a própria saúde mental.
Ambos conheceram as delícias e as dores do status de celebridade:
- foram amados e respeitados por muitos,
- criticados e desprezados por tantos outros.
A mesma experiência ambígua (baseada em elogios e fofocas, respeitabilidade e invasão de privacidade) marcou os também padres midiáticos Reginaldo Manzotti (TV Evangelizar) e Alessandro Campos (ex-TV Aparecida e RedeTV!, atualmente na Rede Vida).
A visibilidade exagerada sempre cobra um preço alto, às vezes impagável. Nem os ungidos de Deus escapam dessa pressão. Por isso, após episódios angustiantes, a maioria dos padres pop decidiu se recolher ou diminuir a exposição pública. O surgimento de novo fenômeno do gênero na base da Igreja Católica brasileira fica cada vez mais improvável.

Jeff Benício