
Por Ulysse Bellier – 19-08-20
Foto: Um incêndio ilegal na Amazônia, no estado do Pará, Brasil, 15 de agosto de 2020. CARL DE SOUZA / AFP
Um ano depois das imagens que correram pelo mundo, os incêndios voltaram a se vingar neste verão na imensa floresta sul-americana.
A Amazônia ainda está pegando fogo. Durante os primeiros dez dias de agosto, ocorreram 10.136 incêndios no local, segundo dados oficiais compilados pelo Greenpeace .
Isso corresponde a um aumento de 17% em relação a agosto de 2019, quando as imagens da imensa floresta em chamas movimentaram o mundo inteiro e geraram uma crise diplomática entre Brasil e França . Um aumento semelhante em incêndios já havia sido registrado em junho .
Porque
- se o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem conseguido manifestar o desejo de combater esses incêndios (60% da floresta amazônica está no Brasil),
- “nada foi feito pelo governo ou pelas empresas, e os processos para o trabalho é o mesmo ”de 2019,
lamenta Cécile Leuba, ativista florestal do Greenpeace França.
Para a indústria agroalimentar brasileira, a Amazônia é uma terra a ser explorada:
- as exportações de carne bovina aumentaram 32% entre os primeiros seis meses de 2019 e os deste ano.
- E para liberar novas terras agrícolas para sustentar esse crescimento, um dos processos utilizados é o desmatamento.
Grilagem ilegal de terras
A transformação de florestas úmidas em campos requer pelo menos duas etapas: um primeiro corte raso e depois a queima do mato restante.
- A primeira, que permite derrubar e vender árvores de grande porte, ocorre no período das chuvas, entre novembro e março.
- As queimadas intencionais, necessárias para tornar essas áreas de corte cultiváveis, vêm em segundo lugar na estação seca – que começa no final de maio.
- O desmatamento, portanto, precede os incêndios.
- esse processo permite que “bandos, máfias” legalizem a posteriori a grilagem ilegal de terras –
- prática “incentivada” por Jair Bolsonaro,
resume Catherine Aubertin, economista ambiental e especialista em desmatamento da Brasil.
Outros fogos se somam a isso, em parcelas já utilizadas para cultivo, porque
“a agricultura tropical envolve o fogo, que permite manter pastagens, obter cinzas para obter um novo uso do solo-terra ” ,
acrescenta este pesquisador vinculado ao Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento.
“Há incêndios por toda parte”
Pegando números oficiais, o Greenpeace explica que todos os incêndios detectados na Amazônia brasileira podem ser agrupados, para simplificar, em três terços:
- incêndios após cortes rasos (34%, o maior número em quatro anos, de acordo com ONG),
- incêndios que atingem a floresta (30%),
- queimadas que ocorrem de facto em parcelas agrícolas (36%).

Em julho, equipes do Greenpeace Brasil sobrevoaram áreas queimadas em 2019 para verificar o propósito dos ataques incendiários.
“Em quase todos os casos , diz Cécile Leuba, encontramos pastagens para gado”.
No domingo, dia 16 de agosto, essas equipes voltaram a campo para observar diretamente o que indicam os números oficiais, obtidos por observação de satélite: “ Há incêndios por toda parte.
Ainda assim, um mês antes, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro emitiu um decreto para proibir as queimadas por 120 dias e enviou militares para proteger a floresta.
“São medidas de comunicação ineficazes”,denuncia o Greenpeace.
“Já é ilegal limpar um lote com fogo na Amazônia, exceto em alguns casos. Está, portanto, moratória de uma medida já amplamente proibida ”, acrescenta Cécile Leuba.
“É um pouco tarde”,acrescenta Catherine Aubertin.O material [para queimar] está lá. Pode proibir a queima, mas deve ser feito bem antes do desmatamento. O estrago está feito para este ano. “
Sobretudo, nos últimos doze meses – agosto de 2019 a julho de 2020 -, o desmatamento atingiu 9.205 km², ou 34,5% a mais que no ano anterior, segundo números ainda provisórios.

Desde que chegou ao poder, o presidente de extrema direita
“desmontou, sabendo bem o que fazia,todos os padrões ambientais para a proteção da Amazônia”, disse Catherine Aubertin.
- Redução de recursos e pessoal dos órgãos ambientais,
- interferência do poder político e demissão de lideranças:
Brasília
- estabeleceu um clima de impunidade generalizada
- que beneficia a indústria agroalimentar.
Segundo o Greenpeace, que afirma ter ido verificar por meios próprios em uma área da Amazônia,
- “quase todos” os proprietários de terras responsáveis por incêndios ilegais
- não receberam multa.
Soma-se a isso uma crise global de saúde, que, segundo a ONG, permite ao governo
- “desviar a atenção de mais desmatamentos”
- e limitar o número de funcionários encarregados dos controles presentes no campo.
“A presença dos órgãos ambientais se reduziu à dor de cabeça” , lamenta Cécile Leuba. Desde o início do ano já foram desmatados 4.731 km², contra 4.701 km² de janeiro a julho de 2019. Se levarmos em conta os últimos doze meses, o aumento anual é de 34%.
NOTA DO EDITOR:
1 Verão – o autor e o jornal são franceses. E na França, agosto é um mês do verão. No Brasil, no sul e sudeste, agosto é um mês do inverno, mas tão seco (e, às vezes, quente) como o verão europeu; já no nordeste e na Amazônia, que fica no norte, o inverno, tempo de chuva, mas quente, vai de novembro a maio; e o verão, quente e seco, vai de junho a novembro.
2 Grilagem – termo que se aplica aos procedimentos de irregular ou ilegal apropriação privada de terras públicas. Muitas vezes com a conivência das autoridades: cartórios, políticos e polícia.
“Muito se fala em grilagem e o termo pode ser curioso para os menos afetos às letras jurídicas ou à realidade no campo, soando exótico ou até meio romântico: algo como documento envelhecido pela ação de insetos… “Sugiro que a expressão possa ter outra configuração. Assim como o grileiro disfarça as suas ações e muitas das vezes produza documento físico que em tudo parece bom e valioso juridicamente – embora não resista a uma análise especializada mais atenta – também os insetos que inspiram a palavra “grilagem” vivem entocados nos jardim ou ocultados sob folhagens, emitindo sons naturais e, assim, dando sinais da sua existência, podendo ser localizados.” …. Todavia, para quem vive no interior do país, a expressão efetivamente revela um significado sombrio, pesado, violento, envolvendo abusos e arbítrios contra os antigos ocupantes, ocasionalmente com forçada perda da posse pela tomada da terra com ameaças, sangue e morte.” ( DEVISATE, Rogério Reis (2017). Grilagem das Terras e da Soberania. Rio de Janeiro, 2017)