Tendo vivido bastante para ver o apequenamento da CNBB, espero viver ainda o suficiente para ver também o seu ressurgimento.

Pedro Ribeiro– 19 de agosto de 2020 – Foto: Pedro A. Ribeiro de Oliveira – Membro da Coordenação Nacional – Juiz de Fora MG
Sei que desde o Batismo sou membro da Igreja. Só depois de crismado, porém, ao fazer o compromisso de militância na Juventude Estudantil Católica (Ação Católica) assumi conscientemente minha condição de leigo, isto é, membro do laos – povo – que tem a missão de evangelizar a sociedade.
Já há mais de 60 anos procuro ser fiel a essa missão não só individualmente, mas como parte plena da Igreja Católica Romana, em comunhão com tantas pessoas que animam essa Igreja
- desde as Comunidades Eclesiais de Base
- até as Conferências Episcopais
- e a Diocese de Roma.
Comovido pelo sofrimento de uma menina de dez anos vítima de cruéis estupros – que precisou recorrer ao Judiciário para interromper a gravidez resultante daquela violência e foi atendida num hospital de Recife – e solidário com os e as profissionais da saúde que a atenderam,
- me sinto na obrigação de expressar o profundo desconforto
- causado pelas manifestações de Bispos do Brasil.
Duas falas publicadas no site da CNBB no dia 18/08 bastam como exemplos.
O site reporta
- a fala de seu Presidente, D. Walmor A. Oliveira, referindo-se a “dois crimes hediondos”, sendo um a violência sexual e o outro a violência do aborto.
- Destaque maior é dado à manifestação de D. Ricardo Hoepers, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família,
- que fala do aborto como “um ato horrendo, de um ato abominável, nós demos a pena capital a um bebê.”
A minha indignação tem duas causas.
A primeira
- é com o simplismo intelectual dessas falas, que, seguindo a linguagem vulgar, não distingue embrião, feto e bebê,
- e ainda qualifica como pena capital um procedimento cirúrgico destinado a salvar a vida de uma menina.
É possível que, no calor das emoções, esses bispos tenham exagerado nas figuras de linguagem,
- mas isso não justifica essa abordagem,
- que ao ser reproduzida pelas redes digitais causa confusão em pessoas de pouca escolaridade.
Ninguém que eu conheço
- considera o aborto um método de contracepção equivalente a qualquer outro,
- e nenhuma mulher recorre a esse procedimento com a mesma serenidade com que vai ao dentista.
Aborto é sempre uma decisão muito grave e deve ser tratada com respeito. Estima-se que, no Brasil, a cada ano cinco milhões de mulheres recorrem ao aborto.
- As que podem pagar o procedimento numa clínica, o fazem com segurança;
- mas as mulheres pobres arriscam a sua vida e muitas, inclusive jovens e adolescentes, morrem.
Por isso,
- o debate deve ser feito com seriedade,
- levando em conta os conhecimentos científicos, a Ética
- e – para os cristãos – os preceitos bíblicos de defesa da Vida.
A outra causa de minha indignação
- é pelo destaque eclesiástico dado a essas manifestações
- enquanto a Carta ao Povo de Deus, endossada por mais de 150 bispos
- foi oficialmente ignorada pela CNBB.
Até parece que Francisco já previa isso ao referir-se às
“ideologias que mutilam o coração do Evangelho:
- A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento.
- Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte”. (Gaudete Exsultate 101).
Diante dessa realidade atual de minha Igreja, consola-me o que disse a mesma CNBB, nos sofridos anos da ditadura militar aberta, no Comunicado Pastoral ao Povo de Deus, de 25 de outubro de 1976. Cito apenas a Introdução, onde se lê
“Nossa intenção é iluminar com a luz da Palavra de Deus os acontecimentos atuais para que os cristãos tomem, diante deles, uma atitude de fé e coragem, uma animação parecida com aquela que dá o livro do Apocalipse.
Ao cristão é proibido ter medo. É proibido ficar triste”.
E segue-se
- uma preciosa apresentação da realidade da época,
- com perseguição aos pobres e à Igreja,
- sempre relacionada ao Novo Testamento, que é a única fonte citada – ao todo, 14 vezes.
Tendo vivido bastante para ver o apequenamento da CNBB, espero viver ainda o suficiente
- para ver também o seu ressurgimento,
- com esses novos bispos que, em sintonia com a proposta de Igreja em saída e com a valiosa colaboração das Pastorais Sociais,
- denunciam os sistemas e os governantes que destroem a Vida,
- ao mesmo tempo que anunciam a certeza de um novo céu e uma nova terra, movida pela mesma Esperança que deu vida à vida do santo Pedro do Araguaia.
Fonte: http://fepolitica.org.br/artigos/indignacao-de-um-leigo-catolico/