… A multidão livre conduz-se mais pela esperança que pelo medo, ao passo que uma multidão subjugada conduz-se mais pelo medo que pela esperança: aquela procura cultivar a vida, esta procura somente evitar a morte”.

José Alcimar de Oliveira *, 16/08/20
É preciso destruir o preconceito, muito difundido,
de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser
a atividade intelectual própria de uma determinada categoria
de cientistas especializados ou de filósofos
profissionais e sistemáticos.
É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são filósofos (Antonio Gramsci)
1. Nesse 16 de agosto de 2020 comemoramos o dia do filósofo.
Poderia ser também a data para se comemorar a arte do pensar e, a seguir o grande pensador da epígrafe acima, devem ser incluídos nesse dia com igual estatuto de Filósofos todas e todos que cultivam a sabedoria,
- do jardineiro ao pós-doutor,
- do pajé indígena, pai ou mãe de santo, trovador popular, cordelista, benzedor,
- até aqueles que foram convidados a proferir sua aula magna no renomado Collége de France, como Foucault e Barthes.
E por que não
- Patativa do Assaré ou o nosso Zé da Zilda (do Filósofo e meu amigo Marcos José)
- e seu parceiro Biu Buduia, ambos de Manaus e ambos no contracurso da figura servil do Zé Ninguém do atualíssimo Wilhelm Reich?
E as mulheres?
- Que belo trio, para pensar em três mulheres militantes nesse Brasil que parece naturalizar o ódio ao pensamento,
- não seria formado por Carolina Maria de Jesus, Elizabeth Teixeira e Marilena Chauí (as duas últimas vivas)?
2. A filosofia é a democracia do pensamento. O requisito básico do filósofo é o cultivo da sabedoria,
- seja por meio de conceitos acadêmicos,
- seja pelo manejo sábio das palavras daqueles que,
- mesmo impedidos de entrar nos templos acadêmicos, impedidos do acesso à cultura letrada,
- exercitam a arte de falar enraizados na sabedoria construída no chão da vida e na casca do alho.
Filósofos Narradores da Tradição Oral. Em regra,
- as Academias são mais habitadas por funcionários da ciência do que por intelectuais
- e, dentre estes, poucos sábios, e menos ainda intelectuais das classes subalternas.
- O que há, em excesso, são intelectuais subalternos das classes orgânicas.
Quanto a isso,
- é sempre saudável uma visita ao velho Gramsci.
- Milton Santos, a propósito dessa contradição (explicável)
- já denunciava que no Brasil aumenta o número de letrados e diminui o número de intelectuais.
3. Não cabe o reconhecimento de filósofo
- a quem impede ou trava a democracia do pensamento.
- A quem impede o acesso às letras.
- A quem conjura o iluminismo.
Aqui, peço que leiam com atenção as sábias palavras do incontornável Immanuel Kant (1724-1804), reproduzidas ipsis litteris:
“Uma época não pode se aliar e conjurar para colocar a seguinte em um estado em que
- se torne impossível para esta ampliar seus conhecimentos (particularmente os mais imediatos),
- purificar-se dos erros
- e avançar mais no caminho do esclarecimento [Aufklärung].
Isto seria um crime contra a natureza humana, cuja determinação original consiste precisamente neste avanço”.
Por mim, não consideraria exagero nenhum que esta declaração kantiana se espalhasse nos muros dos becos, das ruas e nas praças,
- não na forma de outdoors (palavrazinha excrescente),
- mas de panfletos e intervenções artísticas e emancipatórias.
4. Sem filosofia não há democracia.
- Não falo de democracia burguesa, que é, por si, um contrassenso.
- Democracia é poder do povo, mas do povo livre e sem medo.
- Do povo-multidão, de todas as cores e credos.
- Da liberdade de pensar.
Como dizia o meu caríssimo Espinosa no Tratado político:
- “Porque a multidão livre conduz-se mais pela esperança que pelo medo, ao passo que uma multidão subjugada conduz-se mais pelo medo que pela esperança:
- aquela procura cultivar a vida, esta procura somente evitar a morte”.
São realidades excludentes: 100 mil mortes e democracia.
- 100 mil mortes indicam necrocracia. Viver sob o poder da morte. Da política da morte. Da necropolítica, segundo Achille Mbembe.
- Democracia é política da vida.
Não é de estranhar que Jesus de Nazaré, incluído como Filósofo no livro Meus filósofos, de Edgar Morin – hoje com 99 anos e a quem dedico essas linhas no dia do Filósofo – , tenha dito:
“vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10).
5. Se filosofia é a democracia do pensamento, outra coisa ela não pode ser senão saber do povo livre e sem medo.
Santo Agostinho, esse monumento do saber teológico e filosófico da Antiguidade Cristã, afirma que a sabedoria é que é, portanto, a medida da alma (modus ergo animi sapientia est).
Essa medida, esse modo de ser, não se confunde com o saber acadêmico. É saber da vida, saber viver. Conviver. Não excluir. Não discriminar.
A filosofia não pode vicejar fora do cultivo do canteiro democrático, do jardim de mil plantas e flores. Habermas, hoje aos 91, nos apresenta esta bela equação filosófica:
“A filosofia e a democracia não só partilham as mesmas origens históricas como também, de certo modo, dependem uma da outra”.
No primeiro período do Curso de Filosofia aprendi que
- a filosofia é filha da cidade, da pólis.
- Mas é na cidade também, sobretudo quando nas mãos de malfeitores,
- que mais se conspira contra a filosofia.
- Isso não se iniciou hoje. Voltem a Sócrates e sua condenação à morte na “democrata” cidade de Atenas.
6. Hoje,
- no prevalente regime da semiformação (ou semicultura), segundo o fecundo conceito do velho Adorno, e bem mais fecundo atualmente que ao tempo do autor da Dialética negativa,
- virou regra acusar de esquerdopata, esquerdista, comunista, quem se recusa a rezar pelo catecismo da mediocridade cognitiva (é ausência de pensamento mesmo) que infesta as redes sociais.
Minha rede de dormir, de ler e de pensar, já foi desinfestada. Além do mais, disponho de excelentes filtros cognitivos, em vários modelos,
- de Heráclito a Paulo Arantes,
- de Epicuro a Dom Pedro Casaldáliga,
- de Agostinho a Carolina Maria de Jesus,
- de Abelardo a Marx,
- de Paulo Apóstolo a Alain Badiou,
- de Epicuro a Elizabeth Teixeira,
- de Platão a Espinosa,
- de Jesus de Nazaré a Lênin,
- de Aristóteles a Kant,
- de Parmênides a Hegel,
- do Filósofo Operário Joseph Dietzgen a Marilena Chauí.
E são muitos os fecundos afluentes do caudaloso rio da Filosofia.

Foto: Daqui
7. Para ficar apenas em sete parágrafos, concluo chamando à ágora das ideias mais dois mestres do pensamento filosófico: Epicuro e Karl Jaspers.
- O primeiro, Epicuro, foi tema do TCC (Neste caso, foi a Tese de Doutorado apresentada em Jena – NdR) de Karl Marx em Filosofia.
- O segundo, Karl Jaspers – e preventivamente adianto que ele está isento do “periculoso pensamento de esquerda”, bem como da “terrível ameaça do marxismo cultural”, é autor de uma conhecida, ao menos nos meios filosóficos, Introdução ao pensamento filosófico
- apresentada inicialmente na forma de comunicações radiofónicas há mais de 50 anos na Alemanha.
7.1. Epicuro:
- “Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma.
- E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou, assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz”.
É o mais belo elogio à filosofia já escrito.
7.2. Karl Jaspers:
- “Muitos políticos veem facilitado o seu nefasto trabalho pela ausência de filosofia.
- Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão-somente usam uma inteligência de rebanho”.
Karl Jaspers, professor de uma desconhecida aluna chamada Hannah Arendt, nunca esteve no Brasil e publicou esse texto em 1965.

*José Alcimar de Oliveira
É professor do Departament0 de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho dos rios Solimões e Jaguaribe.
Em Manaus, AM, no Dia do Filósofo, 16 de agosto do ano coronavirano de 2020.