Thomas Reese – 15 Agosto 2020 – Foto: Daqui
Eis o artigo.
O papa Francisco é um pastor que gosta de estar com seu povo, mas a pandemia de covid-19 tornou isso impossível.
- Ele não pode viajar ou convidar multidões para a Praça São Pedro.
- Ele não pode abraçar os doentes e deficientes.
- Ele não pode falar com os peregrinos.
- Ele não pode nem mesmo celebrar a Eucaristia para multidões.
Francisco tornou-se prisioneiro do Vaticano, exatamente o que ele nunca quis ser.
O que ele deve fazer com todo o seu tempo extra?
Aqui estão cinco caminhos que o Papa poderia tomar nesse tempo.
* Primeiro, Francisco deveria rezar e escrever sobre a pandemia aos católicos e pessoas de todo o mundo, dar-lhes consolação e esperança. Ele precisa falar com as pessoas e governantes sobre como responder à covid-19 de modo que reflita o amor cristão e o ensino social católico.
* Segundo, Francisco precisa convocar encontros virtuais com especialistas para discutir como o uso da internet e das mídias sociais pode fortalecer pequenas comunidades virtuais na igreja a nível paroquial, os grupos poderiam, por exemplo, refletir e rezar as próximas leituras dominicais antes de ouvir os padres na missa dominical.
- Esses grupos de leigos poderiam planejar projetos educacionais e sociais de ajuda aos pobres.
- Já existem muitas experiências ocorrendo ao redor do mundo, e uma conferência de especialistas e praticantes seria uma grande maneira de compartilhar conhecimento e as melhores práticas.
Isso não deveria ser um encontro de bispos incapazes de pensar para fora das estruturas hierárquicas.
Temos muita pregação e ensino online. O que é necessário é uma abertura para a participação interativa de leigos, particularmente de especialistas em tecnologia e aqueles que já a usam para fomentar a comunidade.
* Terceiro, Francisco precisa terminar de lidar com o escândalo de Theodore McCarrick.
McCarrick, que era cardeal e arcebispo, foi demitido do sacerdócio por abusar sexualmente de crianças e dormir com seminaristas.
- As pessoas ainda querem saber por que ele conseguiu subir tão alto na igreja.
- Quem nos Estados Unidos e em Roma soube de suas transgressões e quando souberam disso?
Um relatório que responderia a essas perguntas foi encomendado por Francisco.
- Mas onde está?
- Meu palpite é que o Vaticano (incluindo, talvez, Francisco) está se arrastando porque o relatório fará com que os dois últimos papados, especialmente o de João Paulo II, pareçam ruins.
- O que esses Papas sabiam?
- O que as pessoas ao seu redor sabiam?
Por que o processo de consulta para a nomeação de McCarrick a três dioceses (Metuchen, Newark e Washington), além de sua promoção a cardeal, falhou?
* Quarto, o Papa precisa lidar com a corrupção financeira no Vaticano e na Igreja.
O papa emérito Bento XVI recebe crédito por iniciar a reforma das finanças do Vaticano durante seu papado, trazendo a Moneyval, uma agência financeira internacional, para enfrentar a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo. Mas, repetidas vezes, as tentativas de limpar as finanças encontraram oposição e os reformadores acabaram sendo forçados a sair.
Um maior sucesso foi a limpeza no Banco do Vaticano. Os auditores externos gastaram incontáveis horas examinando todas as contas. Novos procedimentos foram implementados, o staff foi treinado e a supervisão foi melhorada.
- Mas nós precisamos de uma explicação completa de porquê a alta chefia da Autoridade de Informação Financeira da Santa Sé e da Cidade do Vaticano foi demitida.
- Quando alguém como René Bruelhart, com uma impecável reputação internacional, é forçado a rescindir, há algo terrivelmente errado.
A reforma do banco é um modelo de como a reforma deve seguir: auditores externos devem trazer uma revisão completa da agência.
- Se Francisco não quer gastar dinheiro com isso,
- a maioria dos doadores nos Estados Unidos e Alemanha devem se voluntariar a pagar.
O relatório de auditoria deve ser tornado público para começar a restaurar a confiança nas finanças da igreja.
O Vaticano deve então implementar procedimentos para eliminar a corrupção e a incompetência. Isso não é ciência de foguetes. Governos, empresas e organizações sem fins lucrativos fazem isso todos os dias.
- Novos procedimentos foram anunciados recentemente para lidar com os vendedores e empreiteiros do Vaticano;
- isso é um passo na direção certa,
- mas as regras de conflito de interesses também são necessárias,
- assim como as regras de divulgação sobre a renda externa de cada funcionário, incluindo presentes. Isso deve incluir cardeais.
Os especialistas leigos precisam estar mais envolvidos nas finanças do Vaticano, como funcionários e membros dos conselhos de supervisão. A recente nomeação de seis mulheres especialistas para o Conselho do Vaticano para a Economia é um passo a frente.
* O quinto projeto para o Papa enquanto ele está confinado em Roma é a reforma da Cúria do Vaticano, a burocracia que o ajuda a governar a Igreja e o Estado da Cidade do Vaticano.
As finanças da Igreja são parte dessa reforma, mas não toda a história. O Vaticano precisa de um escritório de recursos humanos profissional envolvido
- na contratação, remuneração, treinamento, supervisão, promoção, aposentadoria e demissão de funcionários.
- Todos os funcionários devem ser tratados com justiça, mas também precisam fazer o melhor para servir ao Papa.
Francisco tem tido certo sucesso em mudar a cultura do Vaticano, de acordo com bispos e outros que o visitaram recentemente.
- Funcionários que antes simplesmente davam lições para o clero que os visitava,
- agora estão mais dispostos a ouvir.
Outra mudança positiva é a consolidação de mais escritórios papais menores, de modo que menos pessoas se reportem diretamente ao Papa.
A consolidação também diminuiu ou efetivamente fechou certos escritórios sem diretamente dizer isso. Mas também agrupou escritórios com pouco em comum. O mesmo acontece em governos civis; dê uma olhada nos principais departamentos do governo dos EUA.
Também seria bom consolidar todas as funções de Procuradoria em um escritório, como um departamento de justiça.
- Não faz sentido para a Congregação para a Doutrina da Fé lidar com padres abusadores, nem os bispos devem ser investigados pelas próprias congregações que os promoveram.
- Essas congregações não querem admitir que falharam em vetar os homens para o episcopado.
Um departamento de justiça poderia investir na investigação de crimes financeiros, no Vaticano e nas dioceses. Seria assessorado por investigadores leigos com experiência em aplicação das leis.
Entretanto,
- a Cúria continua o modelo de corte real,
- onde cardeais e bispos atuam como príncipes e nobres.
Francisco deve acabar com esse sistema, extinguindo a prática de tornar oficiais da Cúria bispos e cardeais
Cardeais e bispos, como príncipes e nobres,
- são difíceis de demitir
- e esperam uma posição equivalente quando removidos (veja, por exemplo, a consternação causada em 2017, quando o cardeal Gerhard Müller não recebeu um encargo prestigioso depois de ser retirado da Congregação para a Doutrina da Fé).
- Padres poderiam simplesmente voltar para suas dioceses.
A Cúria precisa se ver não entre o papa e os bispos, mas como serva de ambos. Isso seria mais fácil de fazer se fossem simplesmente padres e leigos.
Essas mudanças também diminuiriam o efeito da ambição eclesial.
- Se um cardeal da Cúria deseja ser Papa,
- ele não se concentrará no que é bom para a Igreja,
- mas em aumentar suas chances no próximo conclave.
Se os funcionários da Cúria não fossem cardeais, essa politicagem seria eliminada.
Infelizmente, há muitas coisas que o papa Francisco precisa fazer enquanto está confinado no Vaticano.
- Francisco odeia esse tipo de trabalho administrativo – para ele, é o equivalente eclesial de limpar o porão –
- mas isso é parte do seu trabalho
- e, se não enfrentar isso, acabará por comprometer sua reputação
A hora é agora.
.
Tomas Reese
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