O pedido de ajuda a Pequim para vencer as eleições, acusações sobre o escândalo de Ucrânia e amostras da falta de conhecimentos gerais do presidente figuram nas memórias do ex-assessor de Segurança Nacional
Se a Casa Branca não conseguir impedir, The Room Where It Happened (“a sala onde aconteceu”), a polêmica autobiografia do ex-assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos John Bolton, chegará às livrarias na próxima terça-feira.
São 592 páginas de material inflamável, que pintam um retrato estrambótico e corrupto do presidente Donald Trump a partir dos 17 meses (abril de 2018 a setembro de 2019) que esse falcão da política externa passou na Casa Branca.
Bolton afirma que o escândalo da Ucrânia, estopim do processo de impeachment, não foi o único caso pelo qual mandatário merecia ser julgado. Trump acusa Bolton de mentir. Estes são alguns dos episódios mais explosivos, segundo os trechos do livro ao qual veículos norte-americanos como The Washington Post, The New York Times e CNN tiveram acesso:

Uma mão de Pequim para ganhar as Eleições
Bolton relata um jantar de trabalho entre Trump e o líder chinês, Xi Jinping, durante a cúpula do G20 realizada em junho de 2019 no Japão. No momento em que Xi se queixava das críticas à China nos Estados Unidos, o republicano mudou de assunto abruptamente.
“Então, assombrosamente, desviou a conversa para as eleições presidenciais de 2020 nos Estados Unidos, aludindo à capacidade econômica chinesa de afetar as campanhas”,
afirma o ex-assessor de Segurança Nacional. Além disso, segundo sua versão,
- o presidente norte-americano viu com bons olhos a construção
- de um campo de internamento para membros da minoria muçulmana uigur, que habita o extremo oeste da China.
Mais lenha no escândalo da Ucrânia.
No começo deste ano, Trump foi julgado e absolvido pelo Senado (de maioria republicana) pelas acusações de abuso de poder e obstrução de uma CPI, relacionadas a pressões dele para que a Ucrânia investigasse seu rival político Joe Biden e seu filho Hunter por negócios deles nesse país europeu, na época em que Biden era vice-presidente (2009-2017).
Bolton corrobora um dos pontos principais deste caso:
- que o presidente barrou a entrega de 391 milhões de dólares (2,1 bilhões de reais) em ajudas militares a Kiev,
- como forma de pressão.
Em 20 de agosto, segundo a versão do ex-assessor, o mandatário
“disse que não estava a favor de enviar nada para eles até que todos os materiais da investigação sobre [Hillary] Clinton e Biden se tornassem públicos”.
“Ah, vocês são uma potência nuclear?”
Bolton descreve várias situações que, se verdadeiras, mostram um vergonhoso despreparo de Donald Trump para exercer a presidência do país mais poderoso do mundo. Por exemplo, afirma que em uma reunião em 2018 com Theresa May, então primeira-ministra britânica, um funcionário presente se referiu ao Reino Unido como uma potência nuclear, ao que Trump respondeu:
“Ah, vocês são uma potência nuclear?”. “Não disse como brincadeira”,
afirma Bolton. Relata que também chegou a perguntar, antes de sua cúpula com Vladimir Putin em Helsinque, se a Finlândia “é uma espécie de satélite da Rússia”.
Seria ‘bacana’ invadir a Venezuela
Em suas conversas sobre o país caribenho e a campanha para retirar Nicolás Maduro do poder, Bolton diz que Trump chamou de ‘bacana’ (cool, em inglês) a possibilidade de uma invasão. A Venezuela, disse também o presidente (de acordo com Bolton), era “realmente parte dos Estados Unidos”.
O ex-conselheiro de Segurança afirma que Trump, de qualquer forma, não estava entusiasmado com Juan Guaidó, reconhecido como presidente interino pelos Estados Unidos e por meia centena de países. Via Guaidó como uma “criança”, diante de um “forte” Maduro, e isso o fez repensar sua estratégia.

Interferência na Justiça em favor de Erdogan
Bolton acusa Trump de
- fazer “favores pessoais aos ditadores de que gostava”
- e transformar a obstrução da Justiça em um “estilo de vida”.
Relata um caso sobre a empresa estatal turca Halkbank, que estava sendo investigada por escapar das sanções dos EUA ao Irã.
Em 2018, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan entregou a Trump um relatório dos representantes legais da empresa estatal, que o norte-americano abençoou quase sem ler.
“Trump disse então que cuidaria disso. Explicou que os procuradores do Distrito Sul [encarregado do assunto] não eram sua gente, mas de Obama, um problema que seria resolvido quando ele os substituísse pelos seus”,
escreve Bolton, conforme relatado pelo Post.
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