Movimento que busca minar anúncios de site de desinformação ganha 200.000 seguidores em uma semana e mobiliza 30 marcas. Após pressão de Carlos Bolsonaro, BB desiste de aderir

Na Foto: Fabio Wajngarten, secretário de Comunicação do Planalto, protestou contra retirada de anúncio do Banco do Brasil / UESLEI MARCELINO
Entre as dezenas de companhias que atenderam às solicitações do Sleeping Giants, destacam-se multinacionais como McDonald’s e Philips.
- Incomodados com a atuação do perfil no Twitter,
- que já convenceu mais de 30 marcas e empresas a retirarem publicidade em sistema de mídia programática do Google do portal Jornal da Cidade Online, notório por propagar desinformação,
- apoiadores do presidente lançaram um contragolpe visando impedir que outras páginas ultraconservadoras sejam afetadas pela debandada de anunciantes.
O primeiro a reagir publicamente foi o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, que reclamou da decisão do Banco do Brasil de vetar anúncios no Jornal da Cidade Online. Em sintonia, o secretário de Comunicação do Planalto, Fabio Wajngarten, afirmou que contornaria a situação a favor dos “veículos independentes”.
Após os protestos,
- o setor de marketing do banco, gerido por Antonio Hamilton Rossell Mourão, filho do vice-presidente Hamilton Mourão,
- retirou a restrição de publicidade no site.
“O Sleeping Giants precisa urgentemente deixar o viés ideológico de lado na hora de fazer suas supostas denúncias”,
publicou Wajngarten em sua conta no Twitter.
- solicitou investigação sobre os gastos em campanhas publicitárias
- executados pela pasta chefiada por Wajngarten.
O órgão do MPF
- aponta a escolha de veículos para propaganda por parte da Comunicação da Presidência em razão de afinidades ideológicas,
- além de acusar a Secom de direcionar verbas para sites alinhados a Bolsonaro
- e censurar mídias críticas ao Governo.
Procuradores ainda reivindicam a análise de uma ação de improbidade administrativa contra Wajngarten.
- Ele é acusado de favorecer, com direcionamento de recursos da Secom,
- emissoras de TV que possuem contratos com sua agência de marketing.
Os deputados Felipe Rigoni (PSB-ES) e Tabata Amaral (PDT-SP) incluíram em uma representação ingressada na Procuradoria-Geral da República
- o pedido para que o secretário seja investigado
- por descumprir o princípio da impessoalidade ao prometer intervir em decisão do Banco do Brasil.
Fazendo coro ao irmão,
- o deputado federal Eduardo Bolsonaro (sem partido-SP)
- foi outra figura influente do bolsonarismo a se queixar da articulação do Sleeping Giants no Brasil.
Em seu canal do YouTube, o filho do presidente expressou preocupação com o que chamou de “a mais nova estratégia da esquerda para destruir blogs de cunho conservador”.
Segundo ele,
- o movimento se trata de “milícia virtual” e “uma patrulha ideológica pré-ordenada”,
- clamando ao empresariado que “não se curve ao politicamente correto”.
O deputado aproveitou para divulgar dois perfis criados no Twitter com objetivo de contrapor o Sleeping Giants (um deles, no entanto, já saiu do ar por descumprir as regras da plataforma).
- Para tentar reverter a campanha iniciada a fim de desidratar a principal fonte de renda dos sites de fake news e extrema direita,
- apoiadores de Bolsonaro pregam boicote às empresas que vetaram seus anúncios no Jornal da Cidade Online.
A hashtag #NaoCompreDell apareceu entre os temas mais comentados do Twitter após a empresa de computadores retirar propaganda do site. Em um editorial,
- a página se diz vítima de censura e se defende com a publicação de nova notícia distorcida, em que atesta,
- com base em publicações de usuários no Twitter, mas sem nenhuma comprovação estatística,
- que os anunciantes que bloquearam publicidade no site estariam perdendo clientes “de maneira avassaladora”.
Uma das mais ferrenhas apoiadoras do Governo, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) também criticou a Dell por ceder à “pressão de um perfil anônimo de esquerda”, atitude que qualificou como “gesto de desprezo pela maioria conservadora da população brasileira”.
Em abril,
- deputados do PT assinaram representação contra Zambelli por denunciação caluniosa
- após a parlamentar afirmar em entrevista que caixões estavam sendo enterrados vazios no Ceará.
Por não ter apresentado provas, o Governo do Estado divulgou nota de repúdio e informou que tomaria as “medidas judiciais cabíveis” em relação à fala da deputada.
Repercussão impressiona criadores do movimento
Enquanto desagrada o Governo e seus seguidores, o Sleeping Giants Brasil é celebrado por personalidades como
- a atriz Patrícia Pillar,
- o apresentador Luciano Huck
- e o youtuber Felipe Neto,
que se mostraram simpáticos ao movimento.
Os fundadores da iniciativa nos Estados Unidos
- festejam o sucesso meteórico da filial brasileira,
- que, em cinco dias, superou a marca de 200.000 seguidores e já está próxima de alcançar os números do original em inglês.
“O perfil gerou um movimento massivo em todo o Brasil,
- sendo comentado por todos, desde o maior youtuber do país até os filhos de seu presidente,
- teve grandes anunciantes que deixaram de apoiar um site que espalha desinformação
- e, em breve, será muito maior do que a nossa humilde e pequena conta”,
publicou a matriz norte-americana, que foi fundada em 2016 e tem 270.000 seguidores.
Além de empresas,
- pessoas físicas, como profissionais autônomos e palestrantes, também tem sido alertadas pelo perfil sobre anúncios de mídia programática exibidos em páginas de extrema direita e notícias falsas.
- Um deles é o economista e empresário Eduardo Moreira, que revisou os filtros do sistema de propaganda online do Google após indicação de que seu banner aparecia no Jornal da Cidade Online.
“Alertado por seguidores sobre o anúncio das minhas aulas gratuitas de finanças sendo veiculadas num site de fake news, pedi imediatamente que a equipe que coordena as propagandas agisse. Bloqueamos este e vários outros sites”, disse Moreira.
Entre as dezenas de companhias que atenderam às solicitações do Sleeping Giants, destacam-se multinacionais como McDonald’s e Philips. Pelas regras de compliance,
- empresas que negociam ações na Bolsa de Valores
- adotam procedimentos para blindar a reputação de marca,
algo levado em consideração pelos precursores do movimento ao adotar a abordagem de alertá-las sobre a associação, via publicidade digital, com páginas disseminadoras de fake news e desinformação.
Os alertas já renderam situações inusitadas,
- a exemplo do Nubank, que, ao ser questionado sobre um anúncio,
- verificou que a publicidade não fazia parte de suas campanhas oficiais
- e, na verdade, se tratava de um golpe para atrair usuários com falsas facilidades na aprovação de cartão de crédito.
O EL PAÍS
- identificou anúncios de empresas como Mastercard e Drogaria São Paulo —suspensos após contatos da reportagem—
- em canais de YouTube vinculados à extrema direita e com histórico de publicação de informações falsas.
De acordo com o administrador do Sleeping Giants Brasil, que mantém anonimato, há mais de 100 páginas e canais monitorados por causa de fake news que se sustentam das receitas com mídia programática. No entanto,
- a estratégia do perfil é focar na exposição massiva de um veículo por vez
- até que seja desmonetizado por completo.
Adepto da agenda bolsonarista e reiteradamente denunciado por agências de checagem pela propagação de notícias falsas,
- o Jornal da Cidade Online esvaziou, na tentativa de conter a sangria, seus espaços reservados a anúncios direcionados pelo Google
- e ainda perdeu o banner fixo do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS), que determinou a retirada da publicidade em meio ao turbilhão desencadeado pela chegada do Sleeping Giants ao país.

Fonte: https://brasil.elpais.com/acervo/2020-05-23/
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