
Andrea Lebra – 09 Mai 2020 – Foto: DAQUI
“A fé cristã é deturpada quando é transformada em uma doutrina teórica ou em uma religião ritual” (p. 93) e degenera em uma gnose (p. 95)
O comentário é de Andrea Lebra, publicado em Settimana News, 07-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O título, decididamente provocador, atraíra a minha atenção na livraria, quando foi lançado. Depois de ler, na página 5, que o ensaio era dedicado pelo autor
- a amigos crentes e não crentes que o ajudaram a se interrogar sem medo para repensar e purificar a sua fé,
- sempre distorcida quando se tenta “traduzi-la nas nossas pobres palavras humanas”,
eu não tive dúvidas de comprá-lo, com a intenção de lê-lo o quanto antes.
Tendo ficado por vários meses no fim da fila de outros livros do meu (desordenado) escritório, somente nestes dias de isolamento domiciliar forçado pela pandemia é que me foi possível trazê-lo à luz e lê-lo com grande interesse.
Estou falando do livro “Eresie attuali del cattolicesimo”* [Heresias atuais do catolicismo], publicado na Espanha em 2013 e publicado no ano passado em italiano pelas Edições Dehoniane de Bolonha, de José Ignacio González Faus *, jesuíta e professor emérito de Teologia Sistemática na Faculdade de Teologia da Catalunha (Barcelona) e na Universidade Centro-Americana de El Salvador, autor, pela EDB (primeira edição em 1995, edição econômica de 2012), de “I poveri, vicari di Cristo” [Os pobres, vigários de Cristo], uma rica e iluminadora antologia de textos da tradição cristã sobre a dignidade dos pobres na Igreja.
As “heresias” levadas em consideração são aquelas que
- a tradição teológica considera como “materiais” ou “inconscientes”,
- distinguindo-as das formais que se traduzem em negações conscientes e deliberadas de aspectos fundamentais da mensagem cristã.
O livro – escreve o autor na Introdução –
- “não pretende acusar diretamente ninguém de heresia” (p. 13).
- Pelo contrário, ele quer ser uma “confissão”,
e as heresias a serem desmontadas
- são aquelas que ele, teólogo, descobriu em si mesmo,
- tendo tido “a imensa sorte de estar muito em contato com as fontes cristãs”
- e de dialogar com os seus irmãos na fé.
“Acho que essa imensa sorte me obriga a tentar prestar um serviço aos meus irmãos de hoje que não tiveram tanta sorte e que muitas e muitas vezes discutem sobre a própria fé” (p. 15).
São dez as heresias inconscientes que o teólogo espanhol entrevê no catolicismo contemporâneo e que
“podem destruir a identidade cristã” (p. 16):
- todas – parece-me – bastante difundidas,
- com modalidades talvez nem tão inconscientes nas nossas comunidades e na mentalidade dos fiéis.
O monofisismo e o apolinarismo latentes
José Ignacio González Faus / Foto: Agustinos Recoletos
A fé cristã se fundamenta em uma afirmação paradoxal:
- Deus, que ninguém jamais viu (Jo 1,18),
- humanizou-se na história, na vida e nas ações daquele judeu que era Jesus de Nazaré,
- verdadeiro Deus e verdadeiro Homem,
cuja existência na Palestina do primeiro século pode ser afirmada com certeza graças aos dados abundantes e seguros que possuímos e que se referem àquilo que ele fez e ensinou.
No entanto,
- é difundida a visão que concebe apenas a divindade de Jesus
- às custas da sua humanidade, que carrega os sinais do sofrimento, dos limites e da morte,
- com o consequente despojamento – como atesta a Carta aos Filipenses 2,7 – da sua condição divina (p. 26).
É uma concepção que pode assumir a forma de um monofisismo latente (p. 18):
- em Jesus, a natureza humana é absorvida na natureza divina
- até desaparecer nela, como uma gota de vinho que cai na imensidão do oceano (p. 18, nota 3).
Mas essa visão também poderia assumir a forma de um apolanarismo latente:
- Jesus foi, sim, uma pessoa de carne e osso, como qualquer outro ser humano,
- mas não tinha uma estrutura psicológica humana como a nossa,
- sujeita, portanto, à fragilidade, à angústia, ao medo ou ao senso de fracasso (p. 19).
Ignorar os pobres
Como Inácio de Antioquia recordava aos cristãos da Igreja de Esmirna no século II,
- quem não crê que Jesus veio na carne e foi condenado à morte
- “não se importa com a caridade, nem com a viúva, nem com o órfão, nem com o oprimido, nem com que está preso ou livre, nem com quem tem fome ou sede”.
“A heresia anterior – escreve José Ignacio González Faus–
- nos leva, portanto, quase automaticamente, a esta outra”:
- negar a eminente dignidade dos pobres na Igreja (pp. 33-34).
A Igreja é fiel a Cristo na medida em que é fiel aos pobres (p. 34).
- De fato, os pobres, como disse Paulo VI aos camponeses colombianos no dia 23 de agosto de 1968 (p. 41),
- são um sinal, uma imagem, um mistério da presença de Cristo.
Neles a tradição da Igreja – ainda nas palavras de Paulo VI –
- reconhece o sacramento de Cristo
- em perfeita correspondência analógica e mística com o sacramento da eucaristia.
Mas tem mais.
- O título clássico de “vigário de Cristo”, que Inocêncio III reservou ao papa no século XII,
- era atribuído anteriormente aos pobres.
Testemunha disso é uma carta dirigida a Ralph de Warneville, bispo de Liseux, por Pierre de Blois, estadista e teólogo, que foi chanceler do bispo de Canterbury e viveu no século XII entre a França e a Inglaterra:
- “O pobre é o vigário de Cristo.
- E assim como o Senhor se condói de ver-se rejeitado e desprezado no pobre,
- assim também o alegra o fato de ser acolhido no pobre” (p. 41, nota 7).
É uma mensagem tão clara, eloquente e exigente que nenhuma hermenêutica eclesial pode redimensionar o seu porte.
A falsificação da cruz de Cristo
- Pensar que é Deus quem manda o sofrimento e a morte porque nos quer bem é uma blasfêmia.
- A ideia de que a cruz de Cristo é a satisfação infinita oferecida a Deus
- para aplacar a sua cólera causada pelo pecado dos humanos
- é algo monstruoso (p. 53).
Devemos
- ser gratos à investigação crítica neotestamentária
- por ter esclarecido que a morte de Jesus não é uma necessidade metafísica da justiça de Deus,
- mas sim a consequência das suas escolhas de vida (p. 69).
Jesus
- eliminou a face numinosa tremenda e violenta de Deus
- e trouxe à tona plenamente a exclusiva face de amor, de benevolência e de misericórdia (p. 53).
A justiça do Deus revelado por Jesus de Nazaré é a justiça do amor, não a justiça do deus impiedoso. Deus não quer a morte do iníquo; ele quer que ele viva em plenitude e se converta (p. 57).
- “A dor que vale é aquela que é fruto de um amor tão grande
- que não se deixa intimidar, nem recua diante das consequências da sua escolha de amar de maneira radical”,
como fez Jesus (p. 66).
A “ceia do Senhor” sem comunhão e sem alegria
Uma das distorções mais frequentes da eucaristia
- consiste em separar completamente a matéria (pão e vinho) do gesto (partilha).
- Partir e distribuir o pão significa compartilhar as necessidades dos homens e das mulheres (das quais o pão é um símbolo primário).
- Passar a taça entre irmãos e irmãs na mesma fé
- é comungar reciprocamente a alegria (da qual o vinho é outro símbolo humano ancestral) de ser filhos e filhas do Pai celeste.
União juntos, partilha das necessidades e comunhão da alegria são os gestos da solidariedade suprema.
“E, ao realizar esses gestos, nos é dada a garantia de uma presença real do Ressuscitado na nossa história obscura” (p. 78).
“A função da eucaristia é eucaristizar a Igreja, para que esta, por sua vez, seja capaz de eucaristizar do mundo” (p. 82),
levando todo fiel a se fazer pão partido e partilhado para os outros e, portanto, também a se comprometer com um mundo mais justo e fraterno (p. 79).
A separação entre fé e vida
- “A fé cristã é deturpada quando é transformada em uma doutrina teórica ou em uma religião ritual” (p. 93)
- e degenera em uma gnose (p. 95).
O seu alimento mais seguro
- é o modo como vivemos a nossa vida
- para contribuir para transformar o mundo de acordo com as coordenadas do Reino de Deus (p. 99 e 101).
A dissociação, que se constata em muitos cristãos,
- entre a fé que professam e a sua vida cotidiana,
- deve ser contada entre os erros mais graves do nosso tempo (p. 94).
A fé nunca pode ser uma questão apenas mental: ela requer ser transformada em testemunho de vida.
“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor! Senhor!’, entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).
Como nos recorda o número 19 da Gaudium et spes,
- até mesmo na gênese do ateísmo os fiéis podem contribuir muito,
- na medida em que apresentam falsas imagens de Deus
- por causa dos defeitos e das incoerências da sua vida religiosa, moral e social (pp. 94-95).
Pode-se servir a Deus e ao dinheiro?
É impossível servir a Deus e aos dinheiro: é preciso escolher entre um ou outro (Lc 16,13).
- A ganância do dinheiro é idolatria (Col 3,5) e a raiz de todos os males (1Tm 6,10).
- Segue-se daí que o dinheiro, adversário de Deus, é um ídolo ao qual, com muita frequência, se presta um culto sacrílego (p. 122).
A distância entre o Evangelho e o catolicismo de hoje
- em tudo o que se refere ao tema dos ricos e dos pobres
- não evidencia apenas um escândalo (como aquele monstruoso da pedofilia),
- mas denota também “uma visão teológica que pode deturpar nada menos do que a identidade do Deus bíblico”.
Deus é o Deus dos pobres,
- ele é conhecido não em nível especulativo,
- mas praticando a justiça e a solidariedade.
Como se lê no livro de Judite 9,11,
- ele é o Deus dos humildes, o socorro dos pequenos, o defensor dos fracos,
- o protetor dos rejeitados, o salvador dos desesperados (p. 119).
Crer na Igreja esquecendo que só em Deus é possível crer
- A Igreja não é uma realidade na qual o cristão crê,
- assim como crê “em” Deus, “em”Jesus Cristo e “no”Espírito Santo.
A Igreja não é Deus, nem Jesus Cristo, nem o Espírito Santo: ela é uma realidade que o cristão crê, isto é, uma realidade da qual aceita a existência (p. 141).
De fato, na Igreja, como acontece em uma grande família,
- somos acolhidos e aprendemos a viver como fiéis e discípulos do Senhor Jesus,
- que, graças ao Espírito, nos revelou o rosto de Deus.
A Igreja não é um ídolo a ser adorado, mas sim uma realidade pela qual o cristão reza, para que seja sempre testemunho vivo da verdade e da liberdade (p. 144).
- Nada de divinização ou idolatria da Igreja (p. 150).
- Nada de tentar colocá-la acima da Palavra de Deus (p. 151),
- a cujo serviço ela deve se colocar com humildade e coragem.
Monofisismo eclesiológico e divinização do papa
No Evangelho de Mateus, lemos:
“Quanto a vós,
- não vos façais chamar de ‘rabi’, pois um só é vosso Mestre e todos vós sóis irmãos.
- Não chameis a ninguém na terra de ‘pai’, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus.
- Não deixeis que vos chamem de ‘guia’, pois um só é o vosso Guia, o Cristo.
- Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve” (Mt 23,8-11).
Apesar da clareza dessa página do Evangelho,
- acostumamo-nos tranquilamente a chamar o papa de “santo padre” ou de “santidade”.
- E o único título, digno do sucessor de Pedro, que é o de “servo dos servos de Deus”,
- embora relatado no Anuário Pontifício, nunca é usado (p. 165).
É possível que, amanhã, em muitas mentalidades, domine uma espécie de “monofisismo eclesiológico”(p. 170), que gostaria de atribuir à figura do papa uma sacralidade que o torne estranho à dimensão humana (p. 173).

As ridículas e imensas capas de que alguns cardais tanto gostam – Clero acima do Povo de Deus –Transformados em príncipes por Constantino, os bispos gostaram e nunca mais desceram do pedestal da arrogância e da vaidade. Os cardeais são uma criação posterior, não bíblica. Que já deveria ter acabado (NdR) – Foto: Daqui:
Clericalismo
O Novo Testamento e a tradição eclesial primitiva absolutamente não eram clericais. Por que nós deveríamos sê-lo? (p. 191)
Para contribuir para não ser assim, o autor cita alguns parágrafos do decreto Presbyterorum ordinis sobre o ministério e a vida dos presbíteros. E evidencia algumas das tarefas extremamente importantes que lhes são confiadas, que, se traduzidas em estilos de vida e escolhas pastorais, poderiam constituir um verdadeiro antídoto ao clericalismo.
Aqui estão eles listados:
- reunir a família de Deus como família viva e unida, e conduzi-la ao Pai por meio de Cristo no Espírito Santo;
- ter com todos relações marcadas na bondade mais delicada;
- colocar-se a serviço de todos, mas de modo especial dos pobres e dos mais fracos;
- cuidar da formação da comunidade cristã;
- estar cientes da pouca utilidade até das mais belas cerimônias, se estas não estiverem voltadas a educar homens e mulheres para a maturidade cristã;
- ouvir a opinião dos leigos, aproveitando a sua experiência e competência nos vários campos da atividade humana;
- cuidar da própria preparação teológica e da própria cultura, de modo a estar em condições de sustentar com bons resultados o diálogo com os homens e as mulheres do seu tempo (pp. 205-206).
Esquecimento do Espírito Santo
A última “heresia” que, de alguma forma, resume todas as outras,
- é constituída pelo esquecimento do Espírito Santo,
- que caracterizou a tradição teológica ocidental (p. 30),
mas que afeta – observa o teólogo espanhol –
- “muitíssimos cristãos para os quais seria muito válida a frase dos Atos dos Apóstolos (19,2):
- ‘Nem sequer ouvimos dizer que existe Espírito Santo’” (p. 207).
O Espírito é o estilo de Deus:
- unidade na pluralidade,
- liberdade na obediência,
- leveza na gravidade,
- presença na ausência,
- profundidade na interioridade (pp. 209-210).
Ele sopra não apenas onde quer, mas também como quer.
- “Talvez seja por isso que uma grande parte do catolicismo de hoje prefira a calmaria com a qual não se avança ou as portas fechadas pelo medo, como fizeram os apóstolos” (p. 208).
- “O Espírito ensina a viver teologicamente no seguimento criativo de Jesus”
para tornar presente e fazer crescer o Reino de Deus no mundo (p. 214).
* José Ignacio González Faus. Eresie attuali del cattolicesimo. Coleção “Lapislazzuli”. Bolonha: EDB, 2019, 244 páginas.