Entre a Casa Branca e a casa arrasada, a diplomacia do tiro no pé

 

SERGIO LEO – 30 ABR 2020 O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. EVARISTO SA / AFP

O ministro Ernesto Araújo, que fez analogia entre isolamento social e campos de concentração, planta obstáculos sérios ao trabalho de seus sucessores.

Para alguns temas, a ordem de Brasília é consultar o Departamento de Estado americano, e acompanhar Washington

 

Impassível, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, postou-se ao lado do Presidente da República no pronunciamento que se seguiu à queda do ministro Sérgio Moro, um dos aliados que deram corpo à vitória eleitoral de Jair Bolsonaro.

Os desencontros sobre os rumos da economia também ameaçam a imagem ― e a permanência ― de outro avalista eleitoral, Paulo Guedes, da Economia; mas Araújo continua com carta branca para destroçar as tradições diplomáticas brasileiras. E não só isso.

Alguns especialistas chegam a duvidar que Governo Bolsonaro tenha uma política externa clara.

Mas Araújo tem:

  • seu objetivo, manifestado publicamente, é destruir condições que permitiram ao Brasil ter uma diplomacia para chamar de sua,
  • na defesa do interesse nacional.
  • Araújo protagoniza uma suicida diplomacia da “arminha”, de gangue, quase inteiramente voltada a agradar um público interno radicalizado que se deleita em imitar o gesto belicista de Jair Bolsonaro.

Como guia, essa política

  • defende uma aliança acrítica com o líder do mundo cristão ocidental, os Estados Unidos,
  • e, contraditoriamente, com governos nacionalistas radicais pelo mundo.

É a política externa do tiro no pé:

  • ela procura minimizar, obstruir ou simplesmente eliminar canais que permitem a um país como o Brasil
  • exercer influência própria sobre a região sul-americana e no mundo.

 

O chanceler Ernesto Araújo e o presidente Bolsonaro.

O chanceler Ernesto Araújo e Bolsonaro – Foto: Daqui

 

Além de acordos de livre-comércio, que o ministério da Economia hoje comanda, deixando o Itamaraty em segundo plano, a única concessão à ação multilateral do Brasil já feita por Bolsonaro foi o elogio à atuação das forças armadas brasileiras nas missões de paz na ONU, das quais participaram alguns dos generais de seu Governo.

 

Em seu último ato histriônico, um artigo no qual acusou o esforço contra o novo coronavírus de abrir espaço a um suposto “comunavírus”,

  • Araújo, a pretexto de analisar um artigo do filósofo Slavoj Zizek,
  • argumentou que submeter políticas nacionais às orientações da OMS
  •  seria “apenas o primeiro passo na construção da solidariedade comunista planetária”.

Na visão do chanceler brasileiro,

  • “globalismo é o novo caminho do comunismo”,
  • e a batalha mundial contra a covid-19 seria uma oportunidade “para acelerar o “projeto globalista”
  • contra o qual ele dirige os esforços da diplomacia nacional.

No artigo, que provocou espanto nos meios diplomáticos,

  • Araújo descreve como agiria esse “projeto globalista”
  • incompatível com a política externa do Brasil:

“por meio do climatismo ou alarmismo climático, da ideologia de gênero, do racialismo ou reorganização da sociedade pelo princípio de raça [referencia às políticas de ação afirmativa, como cotas para negros], do antinacionalismo, do cientificismo (sic)”.

A falta de cuidado com as palavras, ao arrepio da prática diplomática, levaram até a uma censura pública do Comitê Judeu Americano, que exigiu do chanceler um pedido de desculpas por uma analogia, feita por ele no polêmico artigo, entre medidas de isolamento social e campos de concentração nazistas.

  • Araújo não se desculpou; acusou as críticas de “injustas e equivocadas” e, enjeitando sua própria analogia,
  • culpou Zizek por trazer à baila o tema dos campos de concentração.

Mais que folclórico,

  • o projeto diplomático de Araújo rompe e contraria uma tradição de posicionar o Brasil
  • como protagonista global, qualificado e interessado em reforçar a cooperação e negociação internacional.
  • Ele contraria, por exemplo, manifestações como o comunicado do G-7 em favor de “coordenação global” para o combate à pandemia da covid-19;
  • e, pior, provoca constrangimentos reais na diplomacia internacional.

O Brasil impôs veto, nos órgãos das Nações Unidas a referencias a expressões como “gênero”, nos documentos oficiais, e votou contra referências a promoção de educação sexual.

Em uma dessas votações, segundo um membro da delegação brasileira em Genebra,

  • um diplomata brasileiro foi abordado por um colega africano,
  • com a queixa de que a posição do Brasil aumentava suas dificuldades em convencer políticos e membros do governo conservador em seu país
  • da necessidade de apoiar na ONU políticas modernas de proteção às mulheres e à infância em matéria sexual.

Um dos mais ativos fundadores da Organização das Nações Unidas, que lhe dá o privilégio de ser o primeiro a discursar nas assembleias anuais da ONU,

A diplomacia bolsonarista boicota iniciativas da ONU, abertamente, para reforçar suas posições em política interna, desde sua guerra contra uma suposta “ideologia de gênero” até o desdém pelas políticas globais de direitos humanos.

Quando deixar a cadeira que ganhou graças à filiação às ideias paranoicas do ideólogo Olavo de Carvalho e à proximidade com Eduardo, o filho 03 do presidente, Araújo terá plantado obstáculos sérios ao trabalho de seus sucessores;

  • seja ao ajudar a esvaziar instâncias internacionais de política externa como a ONU, a OMS ou o Mercosul,
  • seja ao criar precedentes desmoralizadores para o Itamaraty em temas caros à tradição do país
  • ― como o apego a soluções diplomáticas para conflitos,
  • a oposição a ações unilaterais,
  • o reforço de órgãos multilaterais para decisões que afetam a todos,
  • ou a imagem do Brasil como um mediador confiável, capaz de propostas técnicas de qualidade.

Ele

e colaborado, em papel secundário,

Com seus ataques aos acordos ambientais internacionais,

― acordo que diplomatas experientes afirmam estar moribundo,

  • não só pelo crescimento das pressões protecionistas no continente europeu, após a pandemia,
  • como pelos atritos criados por Bolsonaro e Araújo com dois dos principais Governos do bloco, Alemanha e França.

Iniciativas multilaterais, como o projeto de integração de infraestrutura das Américas (IIRSA), impulsionada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento perderam destaque na pauta do Itamaraty “antiglobalista”.

A obra mais significativa apoiada pelo Itamaraty, o corredor bioceânico que passará pelo Mato Grosso, está hoje abrigada sob a ProSul, uma iniciativa de articulação governamental entre governos à direita no espectro político, inaugurada pelos presidentes do Chile e da Colômbia e comunicada depois ao Governo brasileiro.

No que diz respeito ao BID, nos últimos meses, esteve mais empenhado em secundar os Estados Unidos na ação para substituir o representante da Venezuela no banco, demitindo o indicado por Nicolás Maduro e nomeando um escolhido pelo autoproclamado presidente Juan Guaidó.

Funcionários graduados do Itamaraty ― falando anonimamente, por temor de represálias ― revelam que,

  • em questões relativas ao Oriente Médio nas quais não se tem uma posição clara do Brasil,
  • a ordem de Brasília é consultar o Departamento de Estado americano, e acompanhar Washington.

Nos Governos que assumiram após o fracasso do regime militar (regime, este, que deixou o país com hiperinflação, crise fiscal, dívida externa impagável, corrupção e ineficiência no setor público e miséria com violências nas grandes cidades), a política externa teve mudanças de foco ou de ênfase, mas não de substância. E a ação diplomática nas instâncias internacionais foi usada para resolver problemas e apontar soluções, muitas vezes buscando protagonismo.

* Com José Sarney,

  • o projeto que resultou no Mercosul desarmou desconfianças entre os militares de Brasil e Argentina,
  • e, no governo seguinte, permitiu uma imprevista cooperação em matéria nuclear.

* Com Collor, a concretização do mercado comum permitiu

  • superar resistências dos setores industriais nos dois países
  • e derrubar barreiras ao comércio que alimentavam ineficiência dos parque produtivos da região.

* No Governo Fernando Henrique Cardoso,

  • o ministro da Saúde José Serra obteve vitórias na OMC e na OMS
  • que facilitaram a produção e comercialização de medicamentos genéricos.

* No Governo Lula, apesar das críticas de opositores e veteranos diplomatas,

Enquanto o Governo FHC argumentava que

  • o Brasil, pela falta de recursos de poder (força militar e econômica, especialmente),
  • deveria escolher iniciativas internacionais de seu interesse, já existentes, para aliar-se a elas,

o Governo Lula, em sua “diplomacia ativa e altiva” avaliou que poderia influir na própria agenda global,

  • o que gerou iniciativas criticadas como o esforço por um acordo nuclear com o Irã,
  • mais forte influência nos debates globais e relativo êxito em alguns momentos,
  • como na formação do G-20 da OMC, dedicado a defender interesses dos países emergentes,
  • além do convite para participar de outro G-20, o político, que reúne chefes de Estados ricos e emergentes para discutir saídas conjuntas para temas globais.

Há um consenso, entre os analistas, de que o Governo Bolsonaro,

  • ao hostilizar a China, França e outras potências,
  • atacar os organismos multilaterais
  • e orientar declarações de autoridades para objetivos de mobilização de sua base mais radical,
  • comprometeu um esforço de décadas para dotar o Brasil do chamado poder brando, ou “soft power”,

que permite a um país alcançar resultados usando recursos de persuasão e convencimento pelo exemplo.

O criador do conceito de soft powerJoseph Nye Jr., diz que o poder brando

“pode parecer menos arriscado que o poder econômico ou o poder militar, mas, em geral, é mais difícil de usar, fácil de perder e difícil de restabelecer”.

É fácil imaginar a influência da política “antiglobalista”, subordinada a iniciativas de parceiros ideológicos, especialmente os Estados Unidos de Donald Trump.

É urgente a necessidade de tirar o chanceler paranoico do comando da diplomacia.

  • pandemia levanta o risco de aumento do protecionismo e de decisões unilaterais por parte das grandes potências,
  • e o crescimento da influência da China, primeiro país a levantar-se após o choque da quarentena,
  • provocará respostas ainda imprevisíveis por parte dos outros grandes atores globais.

Nos próximos anos, teremos um debate em torno das estratégias para lidar

  • com novas ameaças à saúde mundial,
  • com a recuperação da economia
  • e com a reorganização das cadeias globais de comércio e serviços,
  • em meio ao aquecimento global e o aumento da influência da Ásia nos arranjos globais.

O Brasil já teve papel importante dessas discussões, e, hoje, é mero espectador. Com a permanência de Ernesto Araújo ou algum equivalente genérico, corre risco pior, o de assistir a tudo como o inconveniente no fundo da sala, cujas manifestações só perturbam quem está levando a sério as negociações para enfrentar problemas que afetam a todos.

 

 

Sergio Leo 

é um jornalista e escritor brasileiro, especialista em relações internacionais

https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-04-30/entre-a-casa-branca-e-a-casa-arrasada-a-diplomacia-do-tiro-no-pe.html?event_log=oklogin&o=cerrbr&prod=REGCRARTBR

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