Em plena crise, acontece uma queda de braço para entender o futuro e influenciá-lo. Alguns especialistas duvidam de uma mudança radical
Foto: Dois ciclistas no sábado em Piccadilly Circus, em Londres /Aaron Chowun / AP
A corrida das previsões já começou. Há semanas, Governos, instituições internacionais, economistas, laboratórios de ideias e gurus embarcaram em uma competição para explicar o mais rápido possível o mundo de amanhã.
Ainda não se sabe como terminará esta fase da crise da covid-19, a doença causada pelo vírus SARS-Cov-2 que em quatro meses se espalhou da China para o resto do planeta, matou mais de 155.000 pessoas e confinou metade da humanidade.
Não está claro como será a saída do confinamento nem quando uma vacina garantirá o retorno à normalidade. Ninguém sabe ao certo qual será a normalidade dentro de alguns meses. Mas o instinto humano de ir um passo à frente —e a necessidade prática de se preparar para o novo mundo e de influenciá-lo— é o motor que leva a uma superprodução de documentos para esclarecer durante a tempestade.
“É precisamente quando as coisas são complicadas e estão em movimento que é útil fazer previsões para enxergar com mais clareza”,
diz Bruno Tertrais, diretor-adjunto da Fundação para a Pesquisa Estratégica, think tank sediado em Paris, autor de O Ano do Rato – Consequências Estratégicas da Crise do Coronavírus, um relatório claro e conciso sobre o que está por vir.
Existem dois grupos na febre prospectiva.
Primeiro, o daqueles que acreditam que
- “nada será igual”, “habitaremos um mundo diferente”, “é o fim do capitalismo e da globalização”. “É uma comoção antropológica profunda.
- Paramos meio planeta para salvar vidas: não há precedentes em nossa história”,
disse o presidente francês, Emmanuel Macron.
O segundo grupo é o dos cautelosos.
- São aqueles que, olhando a história, desconfiam das datas que transformam tudo.
- E aqueles que argumentam que o coronavírus, mais do que marcar um corte na história, acentuará tendências em andamento.
- Ou aqueles que inclusive alertam para a possibilidade de um retorno ao de sempre, ao business as usual, “à vida normal”, como diz Donald Trump.
Tertrais esboça várias tendências:
- um retrocesso da globalização;
- um declínio dos líderes populistas acompanhado pelo sucesso paradoxal das ideias de soberania e defesa das fronteiras;
- o retorno do Estado protetor;
- o auge das sociedades de vigilância;
- o risco de ações oportunistas por parte de Estados e organizações: a tentação de pescar em rio revolto.
A última tendência, na contracorrente de uma previsão muito difundida, é que nenhuma potência –tampouco a China– sairá fortalecida.
Tertrais descreve o coronavírus como uma “surpresa estratégica”
- comparável à queda do Muro de Berlim em 1989
- ou à crise financeira de 2008.
Nem todas as “surpresas estratégicas” provocam as consequências esperadas:
- em 2001, depois dos atentados às Torres Gêmeas e ao Pentágono, um colunista do The New York Times, previu a Terceira Guerra Mundial.
- Em 2008, o presidente francês Nicolas Sarkozy acreditou que havia chegado o momento da “refundação do capitalismo”.
- A hora atual talvez se assemelhe à queda do Muro: um acontecimento que se enquadrava no espectro do possível, embora ninguém o tenha previsto então; e um mundo às cegas durante meses
Tudo poderia sair muito bem ou muito mal. “Ninguém sabia o que ia acontecer”, recordou o historiador Pierre Grosser alguns meses atrás. “Pensávamos que a União Soviética iria implodir, mas não sabíamos se seria muito perigoso.”
Nathalie Tocci, diretora do Istituto Affari Internazionali em Roma,
- fala de um possível “momento Suez” para os Estados Unidos,
- em alusão à crise do canal de Suez em 1956 que precipitou o fim do Reino Unido como potência mundial.
“Não é que a China será o novo império, mas é um momento em que o poder global da China se consolida. Terá um poder de atração, um soft power, ou poder brando, que não é exercido de maneira coercitiva”, afirma.
No relatório A Ordem Internacional e o Projeto Europeu em Tempos da Covid-19, Tocci desenha dois cenários:
- um de fechamento —nacionalismo, protecionismo, rivalidade entre potências e influência chinesa—
- e outro de abertura que poderia levar a uma maior cooperação global.
“Se você me perguntar qual dessas duas dinâmicas é mais forte, eu não sei”, diz Tocci. “Mas sei que há algo que fará a diferença: a liderança. E hoje a liderança praticamente não existe. Sem liderança, temo que estejamos indo mais na direção da competição do que da cooperação.”
“Não sabemos o que acontecerá, mas vale a pena pensar nisso. Dependerá muito de como sairmos e com quais danos”,
diz Gregory Treverton, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência, a célula prospectiva da inteligência dos Estados Unidos. Seu trabalho consistia em imaginar cenários. E um dos que imaginou foi uma pandemia em 2023.
“Se você observar o que já estava acontecendo antes da crise, havia um aumento do nacionalismo, do protecionismo, da tensão entre os EUA e a China, da desconexão entre as pessoas e os Governos”, reflete.
“A pergunta é como a covid-19 afeta isso. A resposta é que, a curto prazo, o exacerbará.”
Warren Hatch, presidente da empresa de prognósticos Good Judgement, acredita que
- uma previsão geopolítica —sobre a ascensão da China e o declínio dos Estados Unidos—
- deveria ser delimitada e dividida em perguntas concretas e verificáveis:
- sobre a evolução do PIB chinês ou a contribuição deste país às organizações internacionais.
À pergunta sobre se esta crise muda tudo, Hatch responde:
“Muito do que costumávamos fazer e que agora parece inimaginável, como ir a eventos esportivos, acredito que faremos novamente: inventaremos algo.
Por outro lado, há coisas que já estavam mudando e se acelerarão:
- a ideia de trabalhar de casa, por exemplo,
- ou ver o médico desde o domicílio pela Internet”.
Entre todas as previsões que circulam sobre o mundo que emergirá desta crise do coronavírus existe uma que pode ser avançada sem medo de erro:
- será um mundo obcecado pelas pandemias.
- Depois dos ataques de 2001, o terrorismo se tornou o centro de gravidade, o que não permitiu ver outras ameaças.
O mesmo poderia acontecer agora, com as pandemias no lugar do terrorismo. “Existe de fato um risco”, diz Tertrais, “de que nos próximos cinco anos a pandemia seja considerada o risco número um e que os outros sejam menos notados”.
Entre as ameaças, a mudança climática é citada. Ou mais pandemias.
- “Este é um ensaio geral”, diz Treverton.
- “Imagine uma pandemia tão letal quanto o ebola e tão transmissível quanto a covid-19. Não vejo outra ameaça semelhante.”
Uma “competição áspera”, segundo a visão francesa
“O mundo posterior às crises é preparado durante a crise, e não no final”, afirma um relatório do Centro de Análise, Previsão e Estratégia (CAPS) do Quai d’Orsay, uma espécie de think tank interno do Ministério das Relações Exteriores francês.
O relatório, revelado no final de março pelo jornal Le Monde,
- não define a política oficial francesa,
- mas aponta linhas de reflexão estratégica diante da “competição áspera”que se anuncia.
O ponto de partida é que o dia seguinte será conturbado e que os prolegômenos estão em jogo nestes momentos.
As ameaças são múltiplas: da estabilidade política à paz social.
O relatório alerta sobre “a narrativa chinesa”:
- a possível atratividade futura de seu modelo, reforçada pela propaganda.
- Por isso, é necessário “não apenas desenvolver uma contranarrativa, mas poder se apoiar em um equilíbrio eloquente e colocar em evidência as diferenças de método”.
E acrescenta:
“Porque, no fim das contas, a história é escrita pelos vencedores”.
Os vazios de poder e o aproveitamento que possam fazer potências como a China ou a Rússia podem levar a “uma aceleração da redistribuição das cartas”.
Os autores não intervêm no debate sobre
- se estamos diante de uma mudança radical
- ou de um retorno às inércias do passado.
“Uma crise de tal magnitude é sempre a ocasião para reorientações profundas”, diz o documento. “Mas não implica mecanicamente nenhuma dessas reorientações. No final, é a política que as impõe, ou a que não está à altura da ocasião.”
MARC BASSETS – El País
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