
Especialistas apontam que pandemia entra em segunda onda com focos de disseminação para além das metrópoles. Doria fala em prender quem infringir regras a partir de segunda.
Foto: Movimento no Viaduto do Chá durante a quarentena, em São Paulo.ROVENA ROSA / AGÊNCIA BRASIL
No momento em que enfrenta ainda a fase inicial da epidemia de coronavírus ―com 941 mortos e 17.857 infecções―, o Brasil se prepara para atravessar dois feriadões nos próximos dias em um contexto em que os brasileiros começam a relaxar o isolamento social e a aumentar a circulação nas ruas em todos os Estados do país.
O afrouxamento individual se soma à escassez, até o momento, de medidas mais duras dos governantes para reduzir o fluxo de viagens. E começa a ser observado em um momento em que o país sequer entrou na fase mais aguda da crise, quando há transmissão descontrolada da doença, mas cujo sistema de saúde já sofre a pressão da pandemia.
Em meio a uma alta demanda reprimida de testagem, com longas filas de espera para a notificação dos casos positivos da Covid-19, o número brasileiros infectados conhecido ainda está distante do real.

“Esses municípios podem se tornar novas São Paulos, com o crescimento da epidemia”, afirma.
É nesse contexto que o pesquisador chama atenção para a estrutura hospitalar dessas cidades, diferente da capital. No caso de Ribeirão Preto, é uma cidade de referência que historicamente recebe pacientes de municípios menores pela sua estrutura hospitalar.
- “Mas há municípios no entorno que eventualmente não terão essa estrutura. Ribeirão Preto recebe pacientes de várias cidades vizinhas e até do sul de Minas.
- Se essas cidades pequenas relaxarem a quarentena porque têm 50% dos leitos hospitalares livres, pode inflacionar rapidamente Ribeirão, que é onde tem UTI”, explica.
O caso de São Paulo é emblemático para explicar a importância do isolamento social, mas a mesma lógica pode se estender por outros Estados, que têm estruturas hospitalares até mais precárias.
- Na última semana, o Amazonas entrou no grupo de Estados brasileiros que estão na iminência de entrar para a fase de transmissão descontrolada da doença.
- A capital Manaus, que é referência para o atendimento hospitalar dos municípios do interior e das comunidades indígenas e ribeirinhas,
- já disse que atua no limite de sua capacidade de UTIs, onde são tratados os casos mais graves da Covid-19.
No Ceará, outro Estado que pode estar na transição para a espiral de casos de coronavírus, a situação também está difícil.
O governador Camilo Santana já começou a solicitar leitos de unidades privadas e tem feito um apelo em suas redes sociais para que a população se abstenha de viajar no feriado.
“O isolamento social é para evitar o colapso do sistema. Se em alguns lugares chegar a 100% da capacidade, a pessoa que adoecer e tiver comprometimento grande, vai recorrer a qual serviço? O que acontece sempre, em todos esses municípios menores, é transferi-los para as regionais, que já estão com suas capacidades comprometidas”, explica Domingos Alves.
O pesquisador evita projetar quanto tempo pode durar a quarentena, mas teme que, caso as medidas sejam relaxadas agora, o brasileiro precise considerar a possibilidade de chegar ao final do ano com medidas restritivas, já que os Governos poderão adotar ações até mais duras para conter a disseminação e dar tempo para que o sistema de saúde se recupere.
“Tem gente que acha que o isolamento não está funcionando porque a epidemia continua subindo. E ela vai subir mais, só que numa velocidade menor. É como uma mãe que diz ao filho que não faça algo porque pode ser pior. Daí o filho diz: mas nem aconteceu. Não aconteceu porque você ficou em casa”, afirma.
Domingos Alves defende que, no mundo inteiro há evidências de que o isolamento funciona e que nenhum sistema de saúde está preparado para o coronavírus. Ele pondera que o distanciamento social é um momento sensível não só para os brasileiros, mas para a humanidade. Mas, enquanto não houver um retrato mais real e atual da situação, é difícil prever quando as regras de isolamento deverão ser relaxadas.
“A população tem que entender que, se a gente tomar essas medidas restritivas para ontem, a gente consegue entrever para os próximos meses um dia que as autoridades vão falar que a gente pode relaxar. Se não fizermos isso ―ainda mais com o inverno chegando, e o retorno de outras viroses sazonais― em novembro ou dezembro podemos ainda ter que estar discutindo a mesma quarentena”, finaliza.

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