
Em mais um pré-Carnaval agitado, a Mangueira vem sendo alvo de ataques na internet por conta do enredo de 2020, sobre Jesus Cristo – “A verdade vos fará livre” (Clique e veja a letra), ideia, saída da cabeça do carnavalesco Leandro Vieira, da volta de Jesus pelo Morro da Mangueira, próximo dos pobres e de minorias perseguidas, representado de diferentes formas – mulher, negro, índio e outros – incomodou segmentos cristãos mais conservadores. Até ameaça de ação na Justiça a escola já sofreu.
Para comentar o enredo, e toda repercussão,
- o Setor 1 ouviu o teólogo Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação,
- que compartilha com a Mangueira de 2020 a visão de um Jesus Cristo mais humano
- – menos o Jesus Glorioso, mais o amigo e defensor dos pobres.
“Essa dimensão de Jesus foi especialmente enfatizada pela Teologia da Libertação, que tem nos oprimidos e nos crucificados na história seu ponto de partida e de ação.
- Ela quer, como Jesus, libertar toda esta gente.
- Essa é a mensagem clara do enredo da Mangueira”,
declara o teólogo, que critica a reação mais extremista ao trabalho de Vieira: “os ultra-conservadores de hoje representam os que tramaram a liquidação de Jesus”.
“A Mangueira, com seu enredo e sua arte, fez uma pregação melhor do que qualquer uma, de padre, de bispo ou de cardeal”, afirma.
Veja a entrevista na íntegra:
O carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, escreveu um enredo em que imagina a volta de Jesus Cristo ao mundo atual, mas renascendo na Mangueira, filho de pais pobres e vítima das mesmas mazelas que os favelados sofrem atualmente, mas sendo apresentado ao Carnaval como algo libertador em relação ao sofrimento. O que acha dessa forma de ver a figura de Jesus Cristo? Pela sinopse, é possível ver quais pontos de conexão com a Teologia da Libertação?
R: Uma vez que o Filho de Deus se fez homem e se encarnou, nunca mais abandonou a humanidade.
- Ele continua sempre vindo e fazendo-se presente na história,
- principalmente no pobre, no negro, no índio, na mulher marginalizada, nos homoafetivos, no menino e menina de rua.
- Sua paixão dolorosa continua até o fim dos tempos.
Enquanto houver irmãos e irmãs dele sendo oprimidos e novamente crucificados,
- lá está ele sofrendo
- e sendo crucificado junto com eles.
- Isso é doutrina tradicional da Igreja.
Não há erro nenhum naquilo que a Mangueira afirma.
- A questão é que a maioria dos cristãos esquece essa verdade.
- Vive uma fé só cultural e não de convicção.
Então o samba da Mangueira expressa concreta e belamente esta venerável tradição. A Estação Primeira é a Nazaré de hoje. Jesus foi pobre bem concretizado hoje pelo
- “rosto negro, pelo sangue índio, pelo corpo de mulher marginalizada,
- “pelo moleque pelintra do Buraco Quente… é o Jesus da Gente”.
Maria foi uma mulher simples do povo e assistiu com profunda dor de mãe à crucificação do Filho.
- Por isso ela encarna bem a “Mãe das Dores-Brasil”,
- pois milhões de brasileiros e de brasileiras estão sendo crucificados pela expulsão de suas casas, de suas terras, pela fome e pelas doenças.
Essa dimensão de Jesus foi especialmente enfatizada pela Teologia da Libertação que tem nos oprimidos e nos crucificados na história seu ponto de partida e de ação. Ela quer como Jesus libertar toda esta gente. Essa é a mensagem clara do enredo da Mangueira. Quem não entender isso, perdeu a atualidade da mensagem da Mangueira.
A Mangueira tem sido alvo de ataques da extrema-direita e de certos segmentos cristãos depois do anúncio do enredo sobre Jesus Cristo. O instituto conservador Plinio Corrêa de Oliveira organizou um abaixo-assinado e estuda um ação na Justiça contra a escola de samba. O que acha dessa postura? Como se defender de ataques como esse?
R: Não devemos esquecer que Jesus
- não morreu porque caiu um caibro grosso na cabeça dele, já que era como o pai também carpinteiro,
- nem foi atropelado e morto por um camelo pesadão.
- Ele foi perseguido, caluniado e condenado à morte de cruz pelos religiosos da época, os sacerdotes, os doutores da lei, pelos piedosos como os fariseus.
Os seguidores ultra-conservadores do citado por você, Plínio Corrêa de Oliveira representam hoje todos estes que tramaram a liquidação de Jesus.
- Condenando o enredo da Mangueira eles repetem a condenação de Jesus.
- A Mangueira está do lado de Jesus.
- Os ultra-conservadores de hoje estão do lado de Caifás, de Anás, de Judas e daqueles que gritavam:”Crucifica-o, crucifica-o”.
Se houver algum processo,
- que seja feito contra estes ultra-conservadores
- que desconhecem a real fé cristã
- e por ofenderem a Jesus nos humilhados e ofendidos de nossa história atual.
Mangueira 2020
Tanto a sinopse quanto o samba da Mangueira dizem que Jesus são muitos. A sinopse tem o seguinte trecho:
“Na cruz, ele é homem e é também mulher. Ele é o corpo indígena nu que a igreja viu tanto pecado e nenhuma humanidade. Ele é a ialorixá que professa a fé apedrejada e vilipendiada. Ele é corpo franzino e sujo do menor que você teme no momento em que ele lhe estende a mão nas calçadas. Na cruz, ele é também a pele preta de cabelo crespo. Queiram ou não queiram, o corpo andrógino que te causa estranheza, também é a extensão de seu corpo”.
Essa forma de retratar Jesus tem causado reações mais irritadas e causado polêmica. Por que isso acontece? E o que acha dessa visão de Jesus, mais humano?
R: A sinopse é verdadeira, pois Jesus são de fato muitos, isto é, todos os que tiveram e estão tendo o mesmo destino de Jesus:
- os oprimidos pelos latifundiários,
- os explorados pelos patrões,
- as mulheres violentadas,
- as crianças estupradas,
- os LGBT discriminados.
Todos estes atualizam a paixão de Jesus. Tem mais.
- Jesus como homem representa toda a humanidade, masculina e feminina.
- A Igreja ensina que Jesus assumiu tudo o que é humano.
- Se não tivesse assumido todo o humano, não teria sido o salvador e libertador de todos.
Em outras palavras:
- se não tivesse assumido o lado feminino
- não teria redimido as mulheres que são mais da metade da humanidade.
Sabemos hoje que em cada pessoa há a dimensão masculina (o animus) e simultaneamente a dimensão feminina (a anima). Todos sem exceção possuem estes dois lados. Por que estas duas dimensões, masculina e feminina, não estariam presentes também em Jesus? Lógico que estão, pois caso contrário, não seria plenamente humano.
Historicamente, o cristianismo e o Carnaval das escolas de samba sempre tiveram uma relação turbulenta. Há casos famosos, como o Cristo mendigo da Beija-Flor, em 1989, que desfilou coberto por força de ordem judicial. No entanto, nos últimos anos, houve alguma aproximação da igreja católica, que prefere acompanhar o desenvolvimento de enredos do que partir para o confronto. Como vê essa mudança? Acha que o samba pode servir para aproximar Jesus das pessoas?
R: Há uma parte da Igreja que prefere
- ver apenas o Jesus glorioso, o Rei do Universo,
- Jesus Deus que toca o mundo pecador apenas com a fímbria de seu manto.
- Essa visão é reducionista.
Ele
- é Rei sim mas com coroa de espinhos e não de ouro e de joias,
- é Deus sim, mas um Deus encarnado em nossa miséria,
- que tem fome e sede, que se alegra e que chora pela morte de seu amigo Lázaro.
A primeira visão é adulcorada e contrária à história narrada pelos evangelhos.
Estes mostram um Jesus homem como nós
- que abraça as crianças,
- que se compadece dos doentes,
- que multiplica pães e peixes para atender um povo faminto,
- um Jesus que é amigo de duas mulheres queridas, Marta e Maria,
- que se irrita porque se fazem negócios dentro do lugar sagrado,
- derruba as mesas com as moedas e toma o chicote e escorraça esses vendilhões.
Ele é plenamente humano em cada uma destas situações. Mas principalmente foi aquele que a Mangueira bem canta que
“enxuga o suor de quem desce e sobre a ladeira, que vive um amor sem fronteiras, que se coloca na fileira contra a opressão”.
Esse é o Jesus verdadeiro, aquele
- que é solidário,
- que suscita esperança,
- “que brilha mais que a escuridão”.
A Mangueira deixa uma mensagem importantíssima que vale para o mundo atual, tirada do projeto de Jesus:
“Não tem futuro sem partilha”.
A humanidade inteira está mal
- porque os ricos não partilham.
- 1% possui a riqueza dos 99% seguintes.
- Só os pobres partilham o pouco que têm.
E dá uma indireta clara e bem merecida ao atual governante:
” Não há Messias de arma na mão”.
O enredo termina com o que é mais importante na fé cristã: O domingo da ressurreição. Diz isso poeticamente:
“Num domingo verde-e-rosa ressurgi pro cordão da liberdade”.
- Liberdade e amor são os bens mais preciosos que temos.
- Para confirmar isso, Cristo ressuscitou.
A Mangueira, com seu enredo e sua arte, fez uma pregação melhor do que qualquer uma, de padre, de bispo ou de cardeal. A Mangueira está na linha do Papa Francisco que repete: Jesus veio para nos ensinar a viver, o amor, a solidariedade, a esperança e o gesto de ternura.
fez uma pregação melhor do que qualquer uma, de padre, de bispo ou de cardeal. A Mangueira está na linha do Papa Francisco que repete: Jesus veio para nos ensinar a viver, o amor, a solidariedade, a esperança e o gesto de ternura.
Como o senhor pretende acompanhar a Mangueira?
R: Dizem por ai que gostariam que eu desfilasse na Escola da Mangueira. Seria uma espécie também de homenagem à Teologia da Libertação, subjacente no enredo. Eu penso assim: cada um deve conhecer o seu lugar.
- Acho que o lugar do teólogo, por mais que apoie os pobres, o povo e reconheça o alto valor do enredo da Mangueira,
- não é no desfile da escola mas, no máximo, na plateia no meio do povo, desfrutando da beleza e aplaudindo.
Assisti da plateia a muitos carnavais. Agora no tramontar da vida e com alguns achaques,
- meu lugar é apoiar a Mangueira e felicitá-la por esse belo, profundo e verdadeiro enredo,
- dentro do melhor da fé cristã, fé radicalmente humana, fé libertadora.

Romulo Tesi
“Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.”
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