A presença de Moro no Governo Bolsonaro nestes momentos críticos se torna duplamente importante, enigmática e até perigosa
Foto: Jair Bolsonaro, e Sergio Moro, durante a final da Copa América 2019. / CAROLINA ANTUNES/PR.
As notícias dadas por todos os meios de comunicação com ênfase nas denúncias de suposta corrupção da família do presidente Jair Bolsonaro o colocam, assim como a seu ministro da Justiça, Sergio Moro, diante de um abismo.
Principalmente porque foi o próprio Bolsonaro quem alertou que podem ressuscitar novas notícias sobre o nunca resolvido “caso Marielle”, esse fantasma que se recusa a morrer e que, segundo ele, seus inimigos políticos tentam ressuscitar.
A presença de Moro no Governo Bolsonaro nestes momentos críticos se torna duplamente importante, enigmática e até perigosa. Há apenas alguns dias confessou que o presidente Bolsonaro é uma pessoa “muito digna” com quem tem uma boa relação de trabalho.
A impressão que se tinha é de que
- Moro, que já não excluía que poderia se candidatar a vice-presidente nas próximas eleições,
- seguindo suas ambições políticas cada vez menos negadas,
- aparecia cada dia mais próximo do bolsonarismo mais duro.
E agora?
É verdade que pode dizer que
- não é mais o temido juiz da Lava Jato
- e apenas ministro da Justiça. Isso em teoria.
Na prática, sua figura e sua imagem de intransigência contra a corrupção o colocam agora em uma situação que poderia significar seu teste definitivo. Terá de escolher.
- Continuará apostando em Bolsonaro e sua família diante dos novos acontecimentos?
- Continuará brincando de avestruz como se isso já não lhe dissesse respeito?
Outra pergunta que se impõe é
- até que ponto agora Bolsonaro continuará confiando em seu superministro
- ou temerá que possa ser traído, apoiado no consenso popular que apresenta, maior que o do presidente.
Talvez tenha sido uma simples casualidade, mas, justamente neste momento
- surgiu a notícia de que o presidente está pensando em desdobrar o Ministério da Justiça
- para criar o Ministério da Segurança Pública, cuja missão é um dos êxitos de Moro no Governo, com a diminuição da criminalidade —
embora os especialistas digam que não há elementos confiáveis para atribuir a queda de mortes violentas às políticas implementadas neste ano.
- Será que Bolsonaro está começando a duvidar da lealdade de seu ministro que também lhe servia de escudo e teme uma dessas traições das facas longas?
- Estaria considerando sangrar os poderes de seu ministro que de escudo pode se tornar seu inferno?
Se é difícil decifrar o que a esfinge Moro pensa hoje sobre as nuvens cinzentas que pairam sobre a família do presidente Bolsonaro, da qual está sendo rasgada uma das bandeiras fortes de seu programa, como era a luta contra a corrupção a qualquer preço, não é menos enigmático o que Bolsonaro começa a pensar sobre ele e seus escândalos que já parecem ter rompido suas margens. O presidente poderá temer uma traição de Moro, com sua fama internacional de juiz duro, que não tremeu a mão ao colocar na cadeia o mítico ex-presidente Lula e que sabe ter muitos anos pela frente em sua ainda indecifrável vocação de poder?
O mais seguro é que as próximas semanas e meses, ou talvez apenas dias,
- sejam definitivos nessa relação de amor e ódio que hoje une os dois personagens com maior poder no país e que, ao mesmo tempo,
- são seguidos perigosamente em seus passos pelo governador do Rio, o ex-juiz Wilson Witzel, não menos duro e ambicioso do que os dois,
- que não têm escrúpulos em anunciar desde já que poderá enfrentar Bolsonaro nas urnas.
Só Bolsonaro? E se o acaso fizesse que seu oponente na disputa pela presidência fosse Moro? Ambos foram juízes. Ambos ainda são jovens e têm fome de política. Dois duros que anunciaram ser a favor de mão forte contra o crime, o que lhes rende o aplauso das hostes bolsonaristas.
Talvez seja necessário, para tentar analisar o complexo panorama político aberto pelas investigações cada vez mais importantes e sombrias sobre a família do presidente,
- desenterrar o mito da esfinge grega, que era um demônio destrutivo com asas manchadas de sangue e que Sófocles chamava de “cruel cantora”.
- Esfinge e enigma, filha do rei Laio, cujo enigma, conhecido apenas pelos monarcas de Tebas, fora desvendado.
Para uma política correta e não destrutiva,
- mais do que enigmas e segredos,
- seriam necessários, como se dizia no jornalismo clássico, “luz e taquígrafos”,
- transparência e respeito pela verdade.
Bolsonaro usa as palavras da Bíblia em seu lema de governo: “a verdade os libertará”. Essa verdade que desintoxica a política é o que o Brasil está precisamente necessitando nestas horas em que parece estar vivendo os fantasmas das pitonisas antigas.
Juan Arías
Fonte: https://brasil.elpais.com/opiniao/2019-12-19/moro-e-bolsonaro-diante-do-abismo.html
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