Eric Jozsef, correspondente em Roma
14 de dezembro de 2019
Foto: Manifestação das ‘sardinhas’ no sábado em Roma /Stephanie Gengotti
Tradução: Orlando Almeida
Após manifestações em numerosas cidades do país, os italianos reuniram-se na Praça de São João de Latrão para contestar os discursos de ódio propagados pelo ex-ministro do Interior Matteo Salvini.
Durante uma tarde, a loba de Roma transformou-se em ‘sardinha’. Na tarde de sábado, várias dezenas de milhares de pessoas convergiram com o emblema deste peixinho para a Praça de São João de Latrão, espaço tradicional das grandes reuniões da esquerda italiana, ocupada dois meses atrás pelo líder da Liga Matteo Salvini.
Desta vez, pelo contrário, trata-se de dizer não
- à extrema direita,
- à política do insulto
- e à propaganda do ódio.
Ao ritmo de Bella Ciao, a canção dos partigiani1, e do hino nacional italiano,
- para lembrar que este não pertence apenas aos soberanistas,
- os oradores deste movimento cívico leram trechos da Constituição italiana nascida do anti-fascismo.

Em Roma, sábado. Foto: Stephanie Gengotti para o jornal Libération
“Está na hora de nos mobilizarmos, não podemos mais subestimar o perigo da extrema direita – diz indignada, no meio da multidão de ‘sardinhas’, Emanuela, mãe de família desempregada e eleitora decepcionada do Partido Democrata. –
A esquerda não dá respostas à crise social, então obviamente os populistas aproveitam-se disso. Mas é muito fácil põr a culpa nos imigrantes como o fez Salvini“.
Flash mob em Bolonha
Foi a presença deste último em Bolonha, no dia 14 de novembro, que provocou esta reação dos cidadãos. Tendo em vistas as eleições regionais da região da Emilia-Romagna, que devem ocorrer em 26 de janeiro, o ex-ministro do Interior havia convocado para esse dia uma grande reunião pública diante de 5.000 pessoas.
- Quatro trintenários da cidade propuseram então aos seus concidadãos que saíssem às ruas para protestar contra a mobilização soberanista.
- O simples convite para um flash mob na praça central de Bolonha, publicado e transmitido por meio das redes sociais
- transformou-se numa maré cheia.
Nesse dia ,
- quase 15.000 pessoas reuniram-se, apertadas “como sardinhas”, os peixinhos que se tornaram símbolo dessa mobilização cidadã,
- sem bandeiras e sem qualquer distintivo partidário.
Embora nós “acreditemos na política com letra P maiúscula”, explica o jovem economista Mattia Santori, um dos quatro trintenários que iniciaram o movimento e que atua como seu porta-voz.
Depois de 14 de novembro, a mobilização espalhou-se pela península,
- enquanto a extrema direita italiana, que reúne a Liga de Matteo Salvini e os neo-fascistas de Fratelli [d’Italia],
- vem contando, de forma constante e durante vários meses, com mais de 40 % das intenções de voto, nas pesquisas.
Convocadas por pequenos grupos espontâneos de jovens nas redes sociais,
- foram organizadas, em apenas um mês,
- manifestações em 80 cidades de todo o país (Nápoles, Milão, Turim, Palermo, Florença, etc.),
- em que mais de 300.000 pessoas já participaram.
“Foi quase por brincadeira que decidimos formar um grupo Facebook sobre ” Sardinhas em Latina” e não esperávamos esse resultado, ou seja, que em menos de vinte e quatro horas mais de 2.000 pessoas aderissem à iniciativa” ,
diz Anna Claudia Petrilio, 30 anos, participante da organização, no último sábado, de uma mobilização nesta pequena cidade ao sul de Roma, tradicionalmente muito à direita, por ter sido fundada em 1932 por Benito Mussolini.
“Um formidável passo à frente”, segundo Prodi
“Havia um grande entusiasmo, como se tivéssemos conseguido interceptar uma necessidade. Acredito que a nossa geração estava precisando de um alerta”,
declara a ativista LGBT, com medo de um retorno à ordem moral defendida pela extrema direita (sobre o aborto e sobre os direitos das mulheres e dos homossexuais).

Foto Stephanie Gengotti para o Libération
A esquerda italiana,
- desorganizada após as últimas derrotas eleitorais, pelo avanço de Matteo Salvini e por suas divisões internas,
- observa com simpatia o renascimento cívico impulsionado pelas ‘sardinhas’.
“Gosto muito da maneira como elas se expressam e raciocinam sobre os problemas, sem ataques violentos. Elas representam um formidável passo à frente. Mas devemos deixá-las agir, elas não devem ser colonizadas por ninguém”,
declarou o ex-presidente do Conselho, Romano Prodi.
Embora elogiando a iniciativa, o secretário dos Democratas, Nicola Zingaretti, preferiu no entanto não participar da manifestação em São João de Latrão. Ainda mais porque, no sábado, muitos participantes da manifestação denunciaram uma esquerda que “abandonou o povo”.
“Dia do Vaffanculo2“
Anti-soberanista e a favor de uma outra forma de fazer política, longe dos anátemas e dos bodes expiatórios,
- a corrente das ‘sardinhas’ conseguiu até ser transversal.
- Ao roubar, em parte, o protagonismo midiático e político de Matteo Salvini,
- ela ganhou os apoios de uma parte do centro católico e da direita moderada.
Até a jovem companheira de Silvio Berlusconi, Francesca Pascale, expressou o seu apoio às ‘sardinhas’ que vêem afluir para as suas fileiras gente decepcionada com o Movimento Cinco Estrelas de Beppe Grillo, que também decolou, há dez anos em Bolonha, por ocasião do primeiro “dia do Vaffanculo”: «Vaffanculo Day».
“No passado, eu acreditei e depositei, como muitas pessoas, as minhas esperanças no Movimento Cinco Estrelas“, diz Andrea Minccinelli, um dos organizadores da mobilizaçãode Latina, de 25 anos.
“Mas a partir do momento em que eles estiveram no governo junto com a Liga, eles decepcionaram muito. Na base do Cinco Estrelas, as pessoas estavam muito atentas às questões sociais. Digamos que estavam inclinadas para a esquerda.
O seu eleitorado, decepcionado, está saindo hoje às ruas com as ‘sardinhas’ para demonstrar essa insatisfação, esperando que, a curto prazo, alguém consiga perceber essa insatisfação e representá-la”, continua este jovem graduado em Direito.
Rumo a uma lista de ‘sardinhas’?
Segundo um estudo, mais de uma em cada cinco ‘sardinhas’ seria ex-eleitor do M5S. Giuseppe Conte, o chefe de governo levado ao poder pelo Cinco Estrelas, declarou na sexta-feira o seu interesse pelo movimento:
- “As ‘sardinhas’ despertam muita simpatia. Se assim o desejarem, encontrarão um Presidente do Conselho muito disponível a encontrar-se com elas”.
- “Sim, mas não agora” –respondeu o expoente das ‘sardinhas’ Mattia Santori. – “Ainda estamos trabalhando na organização das mobilizações de rua”.
Por enquanto,
- ele também descartou a possibilidade de se transformar num partido político,
- embora, de acordo com uma pesquisa recente, uma lista de ‘sardinhas’ tenha condições de conquistar até 20% do eleitorado.
Uma reunião de todos os promotores locais está prevista num neste domingo em Roma, para definir os passos seguintes do movimento.

Manifestação de ‘sardinhas’ em Roma, no sábado. Foto Stephanie Gengotti para Libération
“Queremos fazer brotar uma nova energia
- através de uma forma bem mais livre e espontânea” do que um partido,
- através de uma organização que se limitará a fixar “grandes orientações”,
limitou-se a dizer muito vagamente Mattia Santori que no entanto solicita ao governo (esquerda-M5S) a revogação da lei sobre a segurança e a imigração adotada no ano passado por Matteo Salvini.
Entre as ‘sardinhas’ presentes em São João de Latrão no sábado, ninguém realmente tinha idéia do rumo a dar a este renascimento cívico.
“Uma coisa é certa, observou Lorenzo, um estudante de arquitetura,
- se Matteo Salvini voltar ao poder,
- a mobilização das ‘sardinhas’ mostra que ele terá que fazer as contas conosco e com nossa feroz determinação”.
NOTAS:
1 Partigiani – designação dos italianos que participaram da resistência armada contra os alemães que ocupavam a Itália, durante a 2ª. Guerra Mundial.
2 Vaffunculo – termo vulgar equivalente à expressão chula “vai tomar no c…”.
Eric Jozsef,
correspondente em Roma, fotos de Stephanie Gengotti para o jornal Libération
