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Cuidar da Terra ou arriscar a nossa destruição?

  • 05/12/2019
  • 21:03
Resultado de imagem para Cuidar da Terra ou arriscar a nossa destruição?
Marcus Eduardo de Oliveira – 05/12/2019 -/ Wix.com
 
“Há muito tempo a comunidade humana abusa das condições dos ecossistemas planetários, comprometendo assim, de maneira integral, os sistemas geradores de vida da Terra.
Não é de hoje, apontam os mais diversos indicadores de insustentabilidade, que se afetam os fatores e se inviabilizam as condições que tornam possível a vida no planeta”,
escreve Marcus Eduardo de Oliveira, economista, ativista ambiental, mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “Civilização em desajuste com os limites planetários”.

Eis o artigo.

“Estamos fumando (emitindo gases que contribuem para o efeito estufa) há 250 anos, e agora temos câncer de pulmão (aquecimento global)” – Robert Strom  –  Tweet

Na medida do possível, é preciso estar devidamente atento para o que poderá acontecer nesse vasto mundo onde os indivíduos escolhem se refugiar.

Sob essa perspectiva, e indo direto ao assunto, vejamos alguns poucos exemplos:

i) se os biólogos estiverem certos, o desenho do futuro é assombroso, uma vez que nos próximos cem anos, dizem alguns deles, os humanos poderão eliminar de 20% a 50% de todas as espécies da Terra;

ii) mais de 1 milhão de espécies de animais e vegetais estão ameaçados de extinção, conclui relatório da Organização das Nações Unidas (ONU);

iii) a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) informa que até 2048 os oceanos atingirão um ápice em que não mais será permitido a retirada de recursos alimentares, uma vez que a excessiva atividade de pesca não respeita o tempo de reposição dos cardumes;

iv) relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) aponta que a emissão de gases causadores do efeito estufa (20 países mais desenvolvidos do mundo respondem por 78% de todas as emissões) precisa diminuir mais de 7% ao ano no período entre 2020 e 2030 para que o aumento na temperatura média global seja de apenas 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Caso as emissões não sejam reduzidas nesse ritmo, o mundo caminha para um aumento de temperatura de 3,2ºC;

v) com as temperaturas mais quentes, a população mundial estará cada vez mais exposta a enfermidades. Isso é tão sério e comprometedor que diversos especialistas em saúde pública apontam que as transformações ambientais provocadas pelo homem ameaçam minar os progressos realizados pela medicina nos últimos 50 anos.

Observando de perto o que já aconteceu:

i) apenas nos últimos quarenta anos, segundo o World Wildlife Fund (WWF), mais da metade dos vertebrados do mundo morreu;

ii) o número de espécies nativas dos principais habitats terrestres caiu em pelo menos 20%, principalmente desde 1900;

iii) Relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) destaca, entre outros, que 75% da superfície terrestre já foi modificada por atividades humanas;

iv) a Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra que 9 em cada 10 pessoas de diferentes lugares do mundo respiram ar contendo altos níveis de poluentes; no mundo, todos os anos, são 7 milhões de óbitos (mais de 19 mil mortes por dia) decorrentes da poluição do ar;

v) números atualizados pela Universidade de Maryland (USA) e divulgados pelo Global Forest Watch mostram que os trópicos perderam 12 milhões de hectares de cobertura florestal somente em 2018, a quarta maior perda anual desde que registros começaram a ser feitos em 2001.

E mais: quando se olha para o que é calculado pela Global Footprint Network, considerando quatro fatores principais,

  • quanto os ecossistemas são capazes de produzir;
  • quantas pessoas existem no planeta; quanto essas pessoas consomem;
  • e, com que eficiência os produtos são feitos,

se percebe com alguma clareza que, em 2019, o planeta Terra entrou no “cheque especial” no exato dia 29 de julho.

Isso significa dizer que os 7,6 bilhões de habitantes do planeta

  • consumiram todos os recursos naturais que o planeta consegue regenerar em um período de um ano
  • em apenas 210 dias.

Por isso a velocidade de consumo, nesse caso, é 74% maior do que a capacidade de a Terra se regenerar.

Ora, todas essas ocorrências, como é fácil presumir,

  • configuram um drama que altera todo o sistema de funcionamento da Terra,
  • enfraquecem biologicamente o planeta
  • e afetam a ordem da vida, o imperativo maior, isto é, princípio máximo que a inteligência humana conhece.

Quando se pensa, pois, na necessidade de mitigar esse conjunto de situações adversas ao equilíbrio planetário, para que se busque construir um destino sustentável para todos,

  • é a escala da vida (humana e não humana),
  • bem como o ambiente que acolhe o sistema vida,
  • que devem ser bem assistidos pela espécie pensante;

afinal de contas, ninguém em são consciência pode colocar em dúvida que a Natureza é a responsável direta por sustentar o modo de vida conhecido.

Logo, se o desejo da comunidade terrena for mesmo o de obter segurança social, a preservação da Natureza é sim a resposta imediata e definitiva.

Colocado dessa forma, e voltado ao interesse de se construir uma almejada ordem social e ambiental,

  • a conquista da sustentabilidade, isto é, a ação que procura devolver o equilíbrio à Terra e aos ecossistemas para que o meio ambiente possa continuar sendo habitável e para que as formas de vida prosperem sem desequilíbrios,
  • se impõe como condição irrevogável entre nós.

Daí, pergunta o senso comum: o que temos que fazer?

Independentemente das capacidades e aquisições de cada um, devemos, de imediato, procurar corrigir nossas mais gritantes falhas, dentre as quais:

i) mudar nosso comportamento, a partir do reconhecimento de que não estamos cuidando dos ecossistemas e do planeta Terra como um todo; na verdade, temos sido grosseiramente incapazes de bem gerenciar os recursos do planeta;

ii) deixar de acreditar na promessa de progresso oferecida pelo crescimento econômico, como se o aumento material, pelas mãos do consumismo, fosse mesmo a condição responsável por completar todas nossas carências.

Repare que em relação a esse último ponto tudo continua como sempre foi:

  • é esperado uma maior pressão sobre o meio ambiente, principalmente
  • se os economistas do crescimento, quer seja aqui, ali ou acolá, insistirem com suas políticas de expansão industrial,
  • aumentando a produção material, o consumo, e o uso dos principais serviços ecossistêmicos.

E detalhe: ainda que o século 21 não repita o desempenho econômico verificado no século 20, a partir do exemplo dos “trinta gloriosos anos”, tampouco nunca mais se alcance no tempo futuro o explosivo crescimento econômico do século 19, propulsionado pela chegada da Revolução Industrial, ao que tudo indica

  • a comunidade humana está mesmo com uma bomba-relógio no colo,
  • uma vez que a capacidade de reserva natural desse mundo fisicamente limitado
  • se encontra em rota de colisão com os desejos e as necessidades ilimitadas de consumo material e a própria perspectiva do crescimento, ponto medular da macroeconomia convencional.

Dito isso, a questão definidora, assim atrevo-me a sinalizar, parece ser essa: se o crescimento econômico e a atividade humana dependem de recursos ecológicos limitados e finitos, o próprio crescimento, por dedução óbvia, necessariamente tem de ser limitado. De tal modo que, se os governos modernos, seja lá do Sul ou do Norte global, acelerarem o crescimento, contrariando essa premissa, fatalmente irão colher severos colapsos ecológicos, comprometendo a civilização moderna.

Quero crer, uma vez exposto isso, que a advertência feita outrora por A. Toynbee (Um Estudo da História) continua bastante válida: grandes civilizações não são exterminadas, mas acabam com a própria existência.

Repare com certa atenção que esse grave e preocupante problema antropogênico mostra uma dissociação do ser humano em relação a seu próprio lar planetário. Por sinal, algo que foi devidamente apontado tempos atrás pela iluminada Rachel Carson (1907-1964) ao comentar que

“o homem esquece que é parte da natureza e a sua guerra contra essa é, inevitavelmente, uma guerra contra a si mesmo”.

O mais assustador aqui, tomando como referência as pontuais palavras de Carson, é que

  • o péssimo comportamento do sujeito humano em relação ao mundo vivo, não bastasse os contratempos impostos ao sistema-vida,
  • termina por lhe obscurecer a percepção de que a existência dos seres viventes depende fundamentalmente das funções e dos serviços prestados pela natureza;
  • e sequer há o reconhecimento, pasmem no tamanho de nossa ignorância, de que são essas funções e serviços que tanto ajudam a compor o desempenho da vida como a conhecemos.

Pois bem, alcançado este ponto, e para que bem se compreenda, importa lembrar que

  • desde há muito tempo a comunidade humana abusa das condições dos ecossistemas planetários,
  • comprometendo assim, de maneira integral, os sistemas geradores de vida da Terra.

Não é de hoje, apontam os mais diversos indicadores de insustentabilidade, que se afetam os fatores e se inviabilizam as condições que tornam possível a vida no planeta.

Por diferentes formas tem sido percebido que o limite suportável em termos de respeito à vida alheia já foi estupidamente ultrapassado pelo gênero humano, assim como continuam sendo desrespeitados os “Direitos da Natureza”, promovendo ao mais completo desprezo às condições que procuram assegurar a conservação da biodiversidade e a integridade dos ecossistemas.

Nesse pormenor, tem sido dito que, quando são desrespeitados os Direitos da Natureza,

  • o que passa a ser de fato desrespeitado são os direitos cidadãos a um meio ambiente saudável,
  • conhecidos, em geral, como direitos humanos de terceira geração (direitos transindividuais destinados à proteção do gênero humano).

Desnecessário dizer que a superação de todo esse descompasso

  • levanta a necessidade de se procurar envolver a produção econômica globalem consonância com os limites estabelecidos pela biosfera (a soma global de todos os ecossistemas),
  • uma vez que nenhum subsistema (e a atividade econômica é um deles) pode crescer indefinidamente em termos físicos num planeta fechado e finito.

O que mais precisa ser feito, continua assim rezando o senso comum,

  • é imaginar a criação de novos modelos de viver e conviver,
  • procurando desse modo assentar as bases para uma sociedade diferente,
  • o que requer que se proponha, antes, a plena valorização da convivencialidade.

No uso rigoroso das palavras, precisamos agir. Kate Raworth, sob essa inspiração, chama a atenção dizendo que

  • a nossa geração é a primeira a compreender adequadamente os danos que temos causado ao nosso lar planetário,
  • e provavelmente a última a ter a chance de fazer algo transformador em relação a isso.

Já Riane Eisler, também uma economista inclinada à boa causa ecológica, escreve que fomos bem providos pela natureza com

  • um cérebro incrível,
  • uma enorme capacidade de amar,
  • uma criatividade extraordinária
  • e uma capacidade única de aprender, mudar, crescer e planejar à frente.

Se agirmos agora, poderemos usar essas aptidões para co-criar os sistemas econômicos e sociais que amparam as grandes dádivas que nos foram concedidas pela evolução.

Fato concreto e, por fim, falando estritamente o óbvio:

  • um destino sustentável para todos
  • depende unicamente dos esforços de cada um de nós,
  • a partir do claro entendimento de que somos parte e parcela da natureza.

Como consta no preâmbulo da Carta da Terra: estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro […] A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida […]

 

Resultado de imagem para Marcus Eduardo de Oliveira

 

Marcus Eduardo Oliveira

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/594893-cuidar-da-terra-ou-arriscar-a-nossa-destruicao

 

 

 

 

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