
Foto: Guilherme Boulos (PSOL-SP), ao centro, de camiseta preta, se une a apoiadores do ex-presidente Lula em São Bernardo do Campo (SP) / Peter Leone/O Fotográfico/Estadão Conteúdo
Guilherme Boulos estava com viagem marcada para reuniões no exterior, inclusive com representantes da ONU. Mas cancelou tudo diante da soltura de Luiz Inácio Lula da Silva e decidiu permanecer no Brasil.
Em entrevista à coluna, o líder do PSOL fez uma avaliação do papel da oposição a partir de agora, estratégias de atuação nas eleições municipais e teceu duras críticas contra o ministro da Justiça, Sergio Moro. “A farsa de Moro ruiu. Se tornou um rábula de miliciano, passou a usar a PF como polícia política”, disse.
Sobre a volta de Lula ao palco político, ele insiste que a oposição “se organiza a partir de objetivos, não de pessoas”. Mas Boulos deixou claro que não considera que Lula solto “tira espaço, bloqueia o avanço da esquerda”.
Candidato às eleições presidenciais em 2018, ele admite que “uma esquerda que não tenha o mínimo de humildade em reconhecer que errou e onde errou não terá condições de apontar para o futuro”. Mas faz um alerta: “eu queria ver essa mesma cobrança de autocrítica para mais gente no Brasil”. Entre eles, ele cita o PSDB, a mídia brasileira e setores ditos “democráticos” da sociedade. “Tem muita gente precisando de autocrítica, não só a esquerda”, completou.
Eis os principais trechos da entrevista:
UOL – O que representa a soltura de Lula para a oposição hoje e quais serão os objetivos de curto e longo prazo?
Boulos – A libertação do Lula é o início da reparação de uma injustiça, de uma verdadeira fraude judicial.
- É também o início do fim de Sergio Moro,
- esse xerife que partidarizou o judiciário brasileiro
- para intervir nas eleições presidenciais.
A farsa de Moro ruiu. Se tornou um rábula de miliciano, passou a usar a PF como polícia política.
Embora sua narrativa ainda cole para alguns setores, tem cada vez menos credibilidade. Seguindo assim, é questão de tempo pra ele voltar pro ostracismo em Maringá.
- A saída do Lula é uma derrota deles.
- E, sem dúvida, uma importante vitória do campo popular e democrático no Brasil.
- Uma vitória política e simbólica da esquerda, depois de duras derrotas acumuladas desde 2015. Isso cria condições para fortalecer a oposição a Bolsonaro.
O que eu espero – e vou trabalhar pra isso –
- é que a saída do Lula estimule mais gente a ir às ruas,
- que anime os ativistas e o povo a lutarem contra esse projeto de destruição nacional.
Nós chamamos várias mobilizações durante esse ano, mas a adesão foi aquém do necessário para fazer frente a Bolsonaro. Que essa vitória estimule as pessoas a irem às ruas, colocando a luta num outro patamar. Não vejo outra saída.
Olha o que aconteceu na Bolívia. Um golpe militar, em pleno 2019. A América Latina revivendo isso 50 anos depois. Independente dos erros do Evo na condução do processo, é a prova de que boa parte das elites políticas e econômicas estão dispostas a recorrer a tudo, inclusive ao estímulo de milícias queimando casas, para manter-se no comando.
Eles não funcionam na linguagem do diálogo, do parlamento. Não achem que o quietismo vai inibir a selvageria deles. Evo renunciou e na sequência saquearam sua casa e o estão caçando par prendê-lo.
- Nós temos que aquecer a luta de ruas para mudar a relação de forças.
- É a única forma de não ficar à mercê dessa selvageria.

No dia que Lula foi preso, ele levantou teu braço e indicou como sendo o possível sucessor. Com ele de volta ao palco, qual será teu papel e como você pretende atuar?
Meu papel é de ajudar a construir uma oposição combativa no Brasil. Espero seguir rodando o país, como fiz nesse ano inteiro. Em 2019 fui a 17 estados, conversei
- com a juventude nas universidades e institutos,
- com movimentos sociais nas periferias
- e com lideranças políticas da esquerda em cada local.
- Participei das mobilizações pela educação, por moradia e contra a Reforma da Previdência.
Mas, digamos, o copo ainda não estava cheio. A insatisfação contra Bolsonaro foi se fortalecendo ao longo do ano. Acredito que agora temos um cenário mais favorável pra mobilização. E Lula solto ajuda nisso.
- Eu acho muito engraçada essa ideia de pedir para o Lula ou para a esquerda “pacificar, defender a união de todos”
- porque senão faz o jogo da polarização do Bolsonaro, vira “duas faces da mesma moeda”…
Primeiro, é muito cinismo fazer essa comparação.
Bolsonaro é ligado a milicianos, trata a imprensa igual lixo, defende a tortura, diz que a oposição tem que ir pra cadeia ou pro exílio. Quando a esquerda fez isso? Bolsonaro é um sociopata. A turma dele acredita que a Terra é plana. Que comparação é essa? É um oportunismo retórico de quem quer ter vantagem eleitoral ou de viúvos de um centro político que se decompôs. Estão em busca do centro perdido.
O centro democrático da Nova República, inaugurado pelo Ulisses, foi destruído pelo Eduardo Cunha. E enterrado quando essa turma se aliou ao Bolsonaro, ainda que preservem diferenças. Acho que
- tem que dialogar com todo mundo
- e fazer as alianças que for para defender as liberdades democráticas e barrar o autoritarismo.
Agora, acreditar numa saída ao centro no Brasil de hoje é ilusão. Não há condições pra isso. Essa ideia se traduz na mídia e em certas figuras políticas como “vamos moderar o discurso”, etc.
- O que eles querem?
- Que enquanto Bolsonaro aplica o projeto mais selvagem da história recente,
- a oposição fique dócil e bem comportada?
- Enquanto ameaça abertamente a democracia, a gente fique em colóquios?
Bolsonaro não precisa de pretextos pra avançar.
E se algum dia precisar, sua turma de extremistas tem atrevimento o suficiente pra produzir eles próprios, como tentaram no RioCentro, para não citar casos mais controversos.
- O Brasil não precisa de uma oposição domesticada.
- Precisa de uma oposição combativa,
- que entenda a gravidade do momento e não tenha medo da iniciativa política e das ruas.
Esse é o projeto que vou seguir ajudando a construir.
Poderá haver uma frente única para pensar a eleição?
As eleições municipais vão ser um importante momento para enfrentar o bolsonarismo. Sou um defensor de formar frente única da esquerda onde tiver condições. Defendo isso no PSOL e junto a lideranças de outros partidos. Não é fácil.
- A esquerda brasileira vem de um histórico de divisões
- e, de fato, existem diferenças de visão.
Ainda bem. Pensamento único é coisa da tradição autoritária, não da nossa.
Mas, neste momento,
- temos que ter a responsabilidade de entender que nossas diferenças
- são menores que o que nos une contra Bolsonaro e seu projeto.
Estive esses dias em Florianópolis, participei de conversa com vários partidos e senti que lá teremos uma frente bem ampla da esquerda, um exemplo importante. Tem que acontecer em mais capitais, em mais cidades grandes. Vamos seguir trabalhando pela unidade.
A oposição corre o risco de ficar refém do destino de Lula e “esquecer” sua função de oposição?
A oposição se organiza a partir de objetivos, não de pessoas. E pautas para a oposição não faltam no governo Bolsonaro.
Citaria quatro grandes linhas para nossa iniciativa política:
- a defesa da soberania nacional,
- do meio ambiente,
- das liberdades democráticas
- e dos direitos sociais.
Bolsonaro representa uma ofensiva brutal em todos esses campos.
- A entrega da base de Alcântara,
- a devastação da Amazônia
- e a omissão nas praias do Nordeste,
- as constantes ameaças à democracia.
Mas destacaria hoje o tema dos direitos, com o pacote de Paulo Guedes.
É a destruição do embrião de Estado social que a Constituição de 88 formou. Dentre outros ataques propõe
- a desindexação do BPC do salário mínimo, que já haviam tentado com a Reforma da Previdência;
- a desvinculação dos recursos do pré-sal para educação e saúde;
- um ajuste fiscal obrigatório, por gatilho, para União, estados e municípios, que ataca servidores e os investimentos públicos;
- a destinação dos recursos de fundos públicos para pagamento da dívida ao rentismo financeiro.
É, na prática, ajustar o Estado brasileiro ao teto de gastos recessivo do Temer. É condenar o Brasil ao aumento estrutural e contínuo da desigualdade. Temos que mostrar isso ao povo. Esse é o papel da oposição.
Mas e em relação ao ex-presidente Lula?
Agora, em relação a Lula,
- eu não estou entre os que acham que uma liderança como ele solto tira espaço, bloqueia o avanço da esquerda.
- Tem gente que acha que renovação significa destruir quem hoje tem hegemonia na esquerda.
- É um pensamento tacanho, quase infantil.
Não perceberam que as derrotas impostas ao PT nos últimos anos
- não fortaleceram uma nova esquerda,
- mas sim a extrema-direita.
O antipetismo é um fenômeno de direita, que contaminou alguns do lado de cá. Gente que, sem perceber, acabou virando puxadinho do lavajatismo, do Moro. Eles tem que ler o livro do Walfrido Warde sobre o significado da Lava Jato. E desde Getúlio Vargas, a gente sabe de onde parte e aonde leva o udenismo. Agora, isso não isenta quem esteve no governo – o PT e os partidos aliados – de reconhecer seus erros e de se abrir para a renovação política. Uma esquerda que não tenha o mínimo de humildade em reconhecer que errou e onde errou não terá condições de apontar para o futuro.
No segundo turno da eleição de 2018, não se conseguiu formar uma frente democrática. Existe alguma chance de isso ocorrer agora?
A unidade agora é nas ruas e nas iniciativas de frentes municipais para o ano que vem. Antecipar o debate de 2022 é uma besteira. Mais que isso, uma miopia. É não entender o tamanho da destruição que Bolsonaro representa. Ele tem que ser derrotado.
As fortes denúncias de fraude eleitoral da CPMI das Fake News, os atentados dele e de seus filhos à democracia e as suspeitas graves de relação com os milicianos que mataram Marielle fazem com que Bolsonaro tenha cada dia menos condições políticas de permanecer no cargo. O Brasil não aguenta 4 anos de Bolsonaro. Crimes de responsabilidade ele já cometeu inúmeros, já listados por vários juristas. Bem mais graves que “pedaladas”, diga-se. Mas não acho que o impeachment é o caminho.
Acredito que a sociedade tem que se mobilizar para que o TSE tire da gaveta a denúncia feita ainda nas eleições sobre os crimes eleitorais do Bolsonaro: dinheiro empresarial, caixa 2 e disparos de Fake News. Três crimes eleitorais passíveis de cassação de chapa. Ou ninguém mais se lembra da investigação jornalística da Patricia Campos Melo?
Durante o segundo turno das eleições de 2018, a Folha de S.Paulo e o UOLpublicaram matérias expondo o esquema de disparos de mensagens via WhatsApp que vão contra a lei eleitoral.
Ou vamos ignorar as confissões de bolsonaristas arrependidos como o Paulo Marinho e o [Alexandre] Frota?
Não é possível que
- o destino do Brasil tenha sido decidido por um lumpesinato empresarial,
- composto pelo “Velho da Havan” [Boulos se refere aqui a Luciano Hang] e seus amigos. Um bando de escroques.
Lembrando que, em caso de cassação da chapa por crime eleitoral, a Constituição prevê novas eleições em 90 dias.
Existem muitas críticas sobre a forma pela qual a esquerda não fez uma autocrítica diante dos escândalos de corrupção. Chegou a hora de fazer isso?
A esquerda tem autocríticas a fazer.
- Uma delas é, quando esteve no governo,
- não ter mudado profundamente o sistema político brasileiro.
Esse sistema é o pai da corrupção, ele é uma captura do Estado pelos interesses privados. Todos sabem como funciona:
- financiamento de campanhas eleitorais
- levam a compromissos nem sempre republicanos com os financiadores.
Essa é a origem da corrupção sistêmica e não apenas no Brasil.
E a chamada porta giratória, onde representantes do setor privado assumem funções públicas do outro lado do balcão: um banqueiro vira Ministro da Economia, um diretor de plano de saúde vira Ministro da Saúde, o cara da Shell se torna diretor da Petrobrás, por aí vai. É a raposa cuidando do galinheiro. A forma de enfrentar isso é com mecanismos de controle social, transparência e uma profunda reforma política que mude as regras do jogo.
Mas essa não foi a única que faltou.
- Faltou enfrentar de fato a roubalheira dos bancos, que cobram o maior spread do mundo, 280% nos juros do cartão e ganham com a farra da dívida pública. Isso não existe em nenhum lugar.
- Faltou uma Reforma Tributária, para os ricos começarem a pagar a conta…
Já conversei isso muitas vezes com o Lula e ele sempre diz:
“Não dava pra aprovar no Congresso, não tinha maioria”, etc.
Eu sei que não é num passe de mágicas, ninguém é ingênuo. Mas acredito que poderia
- ter tido um esforço político maior nesses pontos,
- ter convocado o povo pra pressionar.
- Ao optar por não fazer um enfrentamento mais forte, em nome da governabilidade,
- acabou alimentando certos setores e criando o ovo da serpente, que depois se traduziu no golpe de 2016.
Eu não estive no governo, o PSOL também não,
- mas acho que hoje é possível fazer um balanço mais maduro,
- reconhecendo os acertos e os limites do governo petista.
Mas eu quero dizer também outra coisa: eu queria ver essa mesma cobrança de autocrítica para mais gente no Brasil.
De quem?
- Quando é que o PSDB vai fazer autocrítica por não reconhecer o resultado em 2014 e jogar o país no caos institucional?
- Quando é que a mídia brasileira vai fazer autocrítica pelo apoio incondicional e militante à Lava Jato, depois de escancarados seus abusos?
- Quando é que setores ditos “democráticos” vão fazer autocrítica pelo apoio a Bolsonaro, que colocou o Brasil neste desastre?
Tem muita gente precisando de autocrítica, não só a esquerda.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
