A ideia de Moro sobre a violência machista, segundo a qual se deveria ao fato de que a mulher adquiriu maior poder na sociedade moderna e ameaça o homem, não parece aprendida na ilustre Universidade de Harvard, onde se formou, mas na nova escola de seu chefe, o presidente Bolsonaro
Por ocasião, dias atrás, do décimo aniversário da lei María da Penha, de combate à violência machista, Moro afirmou: “Talvez nós, homens, nos sintamos intimidados pelo crescente papel da mulher em nossa sociedade. Por conta disso, parte de nós recorre, infelizmente, à violência física ou moral para afirmar uma pretensa superioridade que não mais existe”.
Nas redes, pouco depois, escreveu: “O mundo mudou. Temos muito a aprender. Diz isso não o ministro, mas o filho, marido e pai de mulheres fortes”.
Em seguida, a antropóloga Debora Diniz, que se mudou para os Estados Unidos depois de ter recebido ameaças de morte por seu protagonismo na defesa da mulher e de seu direito a decidir sobre seu corpo e sua sexualidade, escreveu:
“Ministro Moro, por favor, apague essa mensagem. É uma questão de dignidade. Os homens que ameaçam a mulher são apenas covardes”.
Há quem tenha ironizado que
- a ideia de Moro sobre a violência machista, segundo a qual se deveria ao fato de que a mulher adquiriu maior poder na sociedade moderna e ameaça o homem, não parece aprendida na ilustre Universidade de Harvard, onde se formou,
- mas na nova escola de seu chefe, o presidente Bolsonaro.
Foi ele, conhecido misógino, que disse à deputada Maria do Rosário
- que só não a estupraria porque ela era feia e não o merecia,
- e que ofendeu sua filha pequena ao confessar que “deu uma fraquejada”, já que ele teria preferido mais um filho homem. Teria sido o quarto.
Parece que Moro, de repente, se esqueceu de que vive no país que aparece em quinto lugar entre os 84 países com maior taxa de feminicídios. Que de acordo com a BBC, todos os dias há uma média de 13 assassinatos de mulheres no país. Talvez Moro ignore que
- três quartos dos crimes cometidos por machismo
- são contra mulheres negras e de baixa renda.
- Será que também elas intimidam os homens pela consciência que de repente adquiriram sobre seu poder na sociedade?
Será que a experiência que Moro teve como filho, marido e pai o levou a ter medo das mulheres fortes como ele as qualifica? Sim, a grande maioria das mulheres que hoje são sacrificadas no altar do machismo mais primitivo são mulheres fortes, é verdade, mas com a fortaleza da dura experiência da pobreza e de serem condenadas pela cor da pele como escória da sociedade.
Elas são conscientes
- não de seu poder,
- mas de terem nascido, como recitavam os velhos códigos patriarcais ainda hoje vigentes no Brasil,
- só para dar ao homem prazer e filhos. Essa força interior da mulher negra e pobre não é a que segundo Moro intimida hoje os homens que matam suas companheiras. Eles as matam porque, no fundo, se sentem mais fortes do que elas e protegidos pelo manto da impunidade.
Não apenas personagens de primeira ordem da Igreja, como Santo Tomás de Aquino, chegaram a duvidar de que a mulher tivesse alma e, portanto, era apenas um objeto nas mãos dos homens.
Desde os tempos de Adão e Eva, no mito da criação, há mais de três mil anos, aparece claro que a culpada de todos os males sempre foi e continua sendo a mulher. No paraíso, interrogado por Deus sobre o pecado de ter comido o fruto proibido, Adão imediatamente culpou Eva:
“A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto, e eu comi” (Gênesis 3,11 e seguintes).
Teria sido melhor que Moro, o juiz mito, que não tremeu a mão na hora de levar à cadeia centenas de personagens do mundo político e empresarial, começando pelo carismático, amado e popular ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva,
- tivesse aterrissado no Governo extremista de Bolsonaro
- para trazer novos ventos de democracia e modernidade
- em vez de aparecer também ele hoje como discípulo aplicado
- na escola do obscurantismo, do machismo e do desprezo à mulher e seus melhores valores.
Se for verdade que Moro vislumbra horizontes políticos que se resolveriam nas urnas, não deveria se esquecer de que a maioria dos milhões que votam no Brasil é composta por mulheres.
- E não acredito que as mulheres, das menos cultas às mais modernas,
- tenham gostado do deslize antifeminista do ministro
- que minimizou a tragédia e a dor de milhares de mulheres que no Brasil são condenadas à morte por seus maridos ou ex-maridos.
Não porque elas já se sintam liberadas e empoderadas e imponham intimidação e medo aos homens, mas porque continuam sendo carne de canhão fácil do poder que o homem ainda exerce sobre elas.
É muito triste.
Juan Arías
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/09/opinion/1565308455_887945.html