A intervenção do cardeal Bergoglio no pré-conclave

 Durante a homilia que pronunciou na Missa do Crisma, a primeira que celebrou em Cuba após várias semanas em Roma para despedir Bento XVI e participar do conclave que elegeu o Papa Francisco, o cardeal Jaime Ortega revelou as palavras do cardeal Jorge M Bergoglio em sua intervenção na congregação geral de cardeais em preparação ao conclave e que, mais tarde, o hoje Papa Francisco, entregou por escrito, de punho e letra, ao arcebispo de Havana.

A reportagem está publicada pelo sítio Zenit, 26-03-2013. A tradução é do Cepat.
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A revista da Arquidiocese de Havana, Palabra Nueva, dirigida pelo Orlando Márquez, oferece uma transcrição do manuscrito entregue pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio ao cardeal Jaime Ortega, onde se recolhe a intervenção do futuro Papa Francisco em uma congregação geral antes do Conclave em que fora eleito sumo pontífice da Igreja Católica.

Segue-se o texto da intervenção do cardeal Bergoglio.

A doce e confortadora alegria de evangelizar

Fez-se referência à evangelização. É a razão de ser da Igreja. “A doce e confortadora alegria de evangelizar” (Paulo VI). É o próprio Jesus Cristo quem, a partir de dentro, nos impulsiona.

1. Evangelizar supõe zelo apostólico. Evangelizar supõe na Igreja a parresía de sair de si mesma. A Igreja é chamada a sair de si mesma e ir para as periferias, não apenas geográficas, mas também as periferias existenciais: as do mistério do pecado, da dor, das injustiças, das ignorâncias e recusa religiosa, do pensamento, de toda miséria.

2. Quando a Igreja não sai de si mesma para evangelizar torna-se autorreferencial e então adoece (cf. a mulher encurvada sobre si mesma do Evangelho). Os males que, ao longo do tempo, se dão nas instituições eclesiais têm raiz na autorreferencialidade, uma espécie de narcisismo teológico. No Apocalipse Jesus diz que está à porta e bate. Evidentemente, o texto se refere ao fato de que Jesus bate do lado de fora da porta para entrar… Mas penso nas vezes em que Jesus bate do lado de dentro para que o deixemos sair. A Igreja autorreferencial quer Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair.

3. A Igreja, quando é autorreferencial, sem se dar conta, acredita que tem luz própria; deixa de ser omysterium lunae e dá lugar a esse mal tão grave que é a mundanidade espiritual (Segundo De Lubac, o pior mal que pode sobrevir à Igreja). Esse viver para dar-se glória uns aos outros. Simplificando: há duas imagens de Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si – a Dei Verbum religiose audiens et fidenter proclamans, ou a Igreja mundana que vive em si, de si e para si. Isto deve dar luz às possíveis mudanças e reformas que tenha que fazer para a salvação das almas.

4. Pensando no próximo Papa: um homem que, a partir da contemplação de Jesus Cristo e da adoração de Jesus Cristo ajude a Igreja a sair de si para as periferias existenciais, que a ajude a ser a mãe fecunda que vive da “doce e confortadora alegria de evangelizar”.

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