Confissões do Papa Francisco. (1)

Anselmo Borges – 30.06.2019

Padre e professor de Filosofia

  • “O que está em crise são estruturas que formam a Igreja, que têm de cair. Sejamos conscientes.

O Estado da Cidade do Vaticano como forma de governo, a Cúria, seja o que for, é a última corte europeia de uma monarquia absoluta. A última.

As outras já são monarquias constitucionais, a corte dilui-se, mas aqui há estruturas de corte que são o que tem de cair.” “A reforma não é minha. Foram os cardeais que a pediram”, quando se debatia a sucessão de Bento XVI.

 

Quem disse isto foi o Papa Francisco numa extensa entrevista à jornalista Valentina Alazraki, de Noticieros Televisa, México. Os temas debatidos, num imenso à-vontade, mesmo quando difíceis e até escaldantes, foram muitos.

  1. O que aí fica quer ser um brevíssimo resumo desse longo diálogo leal, onde não faltou o bom humor.

2.1. Um tema constante nas preocupações de Francisco: os migrantes e refugiados. Não se pode pretender resolver os problemas erguendo muros, como se

“essa fosse a defesa. A defesa é o diálogo, o crescimento, o acolhimento e a educação, a integração ou o limite saudável do ‘não é possível acolher mais’, saudável e humano.” Referindo-se a Trump, disse:

“Pode-se defender o território com uma ponte, não com um muro.”

2.2. Algo não funciona em relação à economia, que se tornou sobretudo economia da especulação financeira: “Já saímos do mundo da economia, estamos no mundo das finanças. Onde as finanças são gasosas. O concreto da riqueza num mundo de finanças é mínimo.”

Então, o mal-estar provém desta constatação:

“Cada vez há menos ricos, menos ricos com a maior parte da riqueza do mundo. E cada vez há mais pobres com menos do mínimo para viver.”

Francisco pronuncia-se contra uma economia neoliberal de mercado. É favorável a “uma economia social de mercado”.

Aqui, eu acrescentaria: economia social e ecológica de mercado e chamaria a atenção para as tremendas, se não insuperáveis, dificuldades para impô-la, apesar da sua urgência em ordem à sobrevivência. Porquê? Num mundo globalizado, os mercados são globais, mas a política é nacional ou regional. Nesta situação, onde estão as instâncias de regulação dos mercados? Francisco sabe disso e, por isso, acrescenta que é necessário

“procurar saídas políticas, eu não as sei dizer, porque não sou político. Não tenho esse ofício. Mas a política é criativa. Não nos esqueçamos que é uma das formas mais altas da caridade, do amor, do amor social.”

Em conexão e interdependência com este mal-estar global da economia está “o maltrato do ambiente”. Francisco tem sido incansável no apelo a uma nova política para a salvaguarda do ambiente, se quisermos ter futuro. E até pergunta: será que ainda vamos a tempo de salvar “a nossa casa comum”?

Sobre a ameaça do colapso ecológico, escreveu uma encíclica, Laudato Sí,  que fica para a História como decisiva, propugnando o que chamou justamente “uma ecologia integral”. Neste sentido, o Vaticano acaba de avançar com uma iniciativa ecuménica global de oração e de acção precisamente em ordem à protecção desta nossa casa comum: durante um mês, de 1 de Setembro a 4 de Outubro, chamado o mês do “Tempo da Criação”, os cristãos de todo o mundo são convocados para pôr em prática a Laudato Sí.

2.3 Sobre o narcotráfico:

“É como se eu, para ajudar a evangelização de um país, fizesse um pacto com o diabo…, ou seja, há pactos que não se podem fazer.”

2.4. Os jovens?

“Os jovens não estão corrompidos. Estão debilitados.” “A juventude corre o risco de, se é que o não fez já, perder as raízes.”

E cita Zygmund Bauman, num livro escrito em italiano com um seu assistente italiano, com o título: Nati liquidi, nascidos líquidos, isto é, sem consistência. No alemão apareceu com o título: Die Entwurzelten, os desenraizados, os sem raízes.

“Os alemães perceberam a mensagem do livro. Isso é muito importante hoje: ir às raízes”,o que nada tem a ver com “ideologia conservadora.”“

Assumir as raízes normais, as raízes da tua casa, as raízes da tua pátria, da tua cidade, da tua história, do teu povo…, de … mil coisas.”

Por isso, acrescenta:

“Eu aconselho sempre os jovens a falar com os velhos e os velhos a falar com os jovens, porque… uma árvore não pode crescer, se lhe cortarmos as raízes, como também não cresce, se ficarem só as raízes.”

 2.5. As mulheres? Reconhece que a mulher

“está ainda em segundo lugar… em segundo lugar.” Mas “sem a mulher, o mundo não funciona. Não por ser ela que gera os filhos, deixemos a procriação de lado… Uma casa sem a mulher não funciona.”

Há uma palavra que está a desaparecer dos dicionários, porque “todos têm medo dela: ternura. É património da mulher. Daí ao feminicídio, à escravidão, vai um passo, não? Qual é o ódio, eu não saberia explicar. Talvez algum antropólogo o possa fazer.”

Aqui, o Papa Francisco que me desculpe, mas vou fazer um reparo. E na Igreja? Ele vai repetindo que “a Igreja é feminina” e já na viagem ao Brasil avisou:

“Se a Igreja perde as mulheres, na sua dimensão total e real, corr

e o risco de se tornar estéril.”

  • Então, porquê tanta hesitação em ordenar as mulheres como diáconos?
  • Esse seria um primeiro passo da abertura que se impõe.

Francisco insiste na Igreja sinodal e essa ordenação deverá, tudo indica, acontecer já na sequência do próximo Sínodo para a Amazónia, em Outub

2.6 Sobre os escândalos da pedofilia na Igreja.

  • Aqui, Francisco reconhece que também se equivoca.
  • Equivocou-se nomeadamente no que à questão da pedofilia no Chile se refere

E foram concretamente perguntas dos jornalistas, “feitas com muita educação” no regresso da viagem ao Chile,

  • que o fizeram perceber que a informação que tinha não era verdadeira.
  • Estava mal informado.
  • E não exclui que tenha havido corrupção na informação prestada:

“Nem sempre é corrupção assim… por vezes é estilo da Cúria — sim, no fundo há uma lei de corrupção —, mas é um estilo que é preciso ajudar a corrigir.”

Concretamente quanto ao cardeal McCarrick, a quem acabou por retirar o cardinalato e reduzir ao estado laical, confessa:

  • “De Mc Carrick eu não sabia nada, obviamente, nada, nada.
  • “O cardeal Pell obviamente que está preso e está condenado, apelou, mas está condenado.
  • O cardeal Errázuriz já não podia continuar, era óbvio”.

Conclusão: o grupo de cardeais consultores começou por ser constituído por nove e agora são seis. Quanto às acusações que o ex-Núncio Viganò lhe fez, respondeu, explicando o seu silêncio na altura:

“Eu confio na honestidade dos jornalistas e disse-vos: ‘Estudai vós a questão e tirai as conclusões.’ E o trabalho que fizestes foi genial, e três ou quatro meses depois um juiz de Milão condenou-o.”

Mas, indo ao cerne dessa chaga que é a pedofilia na Igreja, concluiu que, com as medidas concretas que estão a ser tomadas, a “tolerância zero”

  • é mesmo para implementar,
  • salvaguardando também o princípio da presunção de inocência:

“A tarefa do padre é levar o jovem a Jesus. Com os abusos, sepulta-o. Essa é a grande monstruosidade. Que é mais grave que tudo o resto.”

Mas não se pode ignorar os números aterradores de casos de pedofilia no mundo,

  • a maior parte na família,
  • também entre educadores,
  • no desporto, etc.,

que apresentou no discurso final da Cimeira no Vaticano contra os abusos na Igreja, em Fevereiro passado.

“Evidentemente, a percentagem de sacerdotes que caíram nisto faz parte do todo, uma corrupção mundial na pedofilia, é de terror… E por isso quis que todos tivessem as estatísticas da Unicef, das Nações Unidas, as mais sérias, as estatísticas sérias.”

“Seria importante aqui

  • referir os dados gerais — na minha opinião, sempre parciais — a nível global
  • e a seguir a nível da Europa, da Ásia, das Américas, da África e da Oceânia,
  • para dar um quadro da gravidade e profundidade deste flagelo nas nossas sociedades.

A primeira verdade que resulta dos dados disponíveis é esta: quem comete os abusos, ou seja, as violências (físicas, sexuais ou emocionais) são sobretudo

  • os pais,
  • os parentes,
  • os maridos de esposas-meninas,
  • os treinadores
  • e os educadores.

Além disso, segundo os dados Unicef de 2017, relativos a 28 países no mundo,

  • em cada 10 meninas-adolescentes que tiveram relações sexuais forçadas,
  • 9 revelam que foram vítimas de uma pessoa conhecida ou próxima da família.”

Um número aterrador, a título de exemplo, no nível global: “Em 2017, a OMS estimou em mil milhões os menores com idade entre os 2 e os 17 anos que sofreram violências ou negligências físicas, emocionais ou sexuais.”

(Continua)

 

Anselmo Borges

Padre e Professor de Filosofia

in DN, 30.06.2019

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/confissoes-do-papa-francisco-1-11061377.html 

 

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