Três filhos e filhas de padres foram recebidos na quinta-feira pelos bispos em Paris. Cinco objetivos foram estabelecidos no final desta reunião sem precedentes e altamente simbólica.

Faustine Vincent – 13 de junho de 2019 – Tradução: Orlando Almeida
Foto: O Irlandês Vincent Doyle, fundador da Associação Internacional COPING. Menino ao colo de seu pai-padre / COLEÇÃO PESSOAL.
“Hoje é um ótimo dia”. Três filhos e filhas de sacerdotes, membros da associação Os filhos do Silêncio (EDS), foram recebidos, quinta-feira 13 de junho, por bispos em Paris. Este encontro sem precedentes e altamente simbólico, realizado a portas fechadas, marca o reconhecimento destes homens e destas mulheres pela Igreja da França após séculos de negação.
“A instituição religiosa finalmente nos abre as portas. Ainda não somos recebidos no Vaticano, mas este é um grande avanço”, regozija-se Anne-Marie Jarzac, de 68 anos, filha de um padre e de uma freira e presidente da EDS, que tem cerca de sessenta membros.
O arcebispo de Bourges, mons. Jérôme Beau, e a sua comissão, encarregada das questões de formação e de vida dos sacerdotes (Comissão Episcopal para os ministros ordenados e os leigos na missão eclesial, Cémoleme) acolheram a delegação na sede da Conferência dos Bispos da França (CEF).
O intercâmbio, com duração de duas horas, permitiu que estes filhos de padres, rejeitados, humilhados, criados na vergonha e no segredo, contassem as suas histórias e os seus sofrimentos.
“O encontro decorreu num clima de confiança, com uma escuta benevolente. Nós sentimos uma vontade de trabalhar juntos para que não se repitam”, confidencia a senhora Jarzac.
“É a primeira vez que conheço filhos de padres, diz mons. Beau. Descobri o que o inconsciente social tinha feito pesar sobre eles. Este encontro é importante porque isto permite que se lhes devolva confiança e que eles se sintam orgulhosos da sua história”.
Aos seus olhos, o encontro marca não só o seu reconhecimento pelo episcopado francês, mas também o lançamento de um “trabalho conjunto” entre as autoridades religiosas e os filhos de padres.
Acesso aos Arquivos
Cinco objetivos foram estabelecidos, anunciou mons. Beau ao jornal Le Monde:
- uma vigília da associação para explicar aos dignitários religiosos as dificuldades enfrentadas por esses filhos;
- o estabelecimento de um interlocutor em cada diocese para se encontrar com eles e ajudá-los;
- o acesso aos arquivos da Igreja para que eles possam conhecer suas origens;
- o acompanhamento “social, humano e psicológico”, para eles mas também para a mãe e o pai de cada um “a fim de permitir a cada um assumir humana, espiritual e psicologicamente esta etapa de sua existência” ;
- e o objetivo de “continuar a trabalhar juntos” .
“É uma decisão de parceria muito importante“, prossegue mons. Beau. Isso vai nos ajudar a avançar com pessoas que conhecem o problema por dentro”.
Como Le Monde tinha revelado, este encontro foi proposto pelas autoridades religiosas quando do primeiro intercâmbio, em 4 de fevereiro, entre um alto dignitário da Igreja de França, mons. Olivier Ribadeau-Dumas, secretário-geral do CEF [Conferência Episcopal Francesa] e representantes da EDS.
Outras reuniões com os bispos estão previstas para desenvolver este trabalho de longo prazo. A próxima terá lugar em 1o de outubro, com uma ordem do dia, neste caso o acesso às origens.
“Este é um tema extremamente importante“, salienta a senhora Jarzac, “porque até agora os filhos dos padres não tinham acesso a esta informação, devolvendo-nos à nossa condição de filhos da transgressão”. Muitos ainda desconhecem quem era o seu pai.
Rumo à elaboração de uma carta
O trabalho desenvolvido com a associação também deve permitir, a seu tempo, a elaboração de uma “carta” na França para saber que atitude adotar quando um padre tiver um filho durante seu sacerdócio, esclareceu mons. Beau.
O Vaticano já tem um documento interno, nunca publicado, que define as regras sobre esta questão delicada, mas o prelado acredita que esta
“cartilha de comportamento “ francesa é necessária, “mesmo que seja uma duplicata, porque ela terá sido elaborada junto com os principais interessados “.
De acordo com o documento interno de Roma, redigido em 2009, a regra consiste em privilegiar “o bem da criança”, com os padres abandonando o sacerdócio e assumindo-a.
O fruto da colaboração entre os filhos de clérigos e as autoridades religiosas também terá um impacto sobre a formação dos padres. A questão será abordada durante seminários a fim de os
“pôr de sobreaviso quando um comportamento não estiver em conformidade com a castidade” . “Isso permitirá melhorar a formação no plano humano e afetivo”, diz mons. Beau.
Durante a entrevista,
- a associação tentou levantar a questão do celibato dos padres,
- mas o assunto “não foi aprofundado”, desconversou o prelado.
A senhora Jarzac também manifestou a sua “surpresa” face ao tempo que foi necessário para que a Igreja finalmente concordasse em ouvir os filhos dos padres. “Disseram-nos que a instituição era como um grande transatlântico e que ela iria avançar devagar, mas com segurança”.
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