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O dia em que o governo perdeu as ruas

  • 18/05/2019
  • 21:06

Foto: Marcelo Camargo / Ag. Brasil
Antonio Martins – 16 Maio 2019
Menos de seis meses após a posse, centenas de milhares protestam contra Bolsonaro. Atos sugerem caminho para enfrentar ultra-capitalismo e ignorância, mas expõem lacuna: falta saída alternativa.

O artigo é de Antonio Martins, jornalista, publicado por OutrasPalavras, 15-05-2019.

Eis o artigo.

Saiu melhor que a encomenda. Os sinais de que a oposição aos cortes de verbas na Educação e Ciência era potente, visíveis há dias em centenas de assembleias, desaguaram caudalosos nas ruas. Mais de cem mil pessoas no Rio, Recife e em São Paulo.

Dezenas de milhares em Salvador, Fortaleza, Belém, Brasília, Belo Horizonte, Florianópolis, São Luís e Porto Alegre. Centenas de cidades com protestos numerosos. Mais uma vez, ficou claro que a hipótese de “onda de apatia” é falsa.

  • A tentativa de submeter o Brasil à tirania dupla do ultracapitalismo e do obscurantismo cultural e comportamental
  • tem brechas e contradições.
  • Elas vão se manifestar com mais frequência, daqui em diante.
  • Quando houver sabedoria política – como nas últimas semanas – irão se traduzir em novas derrotas, e provocar divisões no bloco conservador.

Foto: Outras Palavras

 

No caso da Educação, a grande fissura foi cavada pelo próprio ministro. Ele chegou ao posto porque a ala lunática da coalizão governamental, responsável por dar ao presidente algum verniz antiestablishment o exigiu. Mas foi o caráter provocador de Weintraubque o levou

  • a “politizar” os cortes de verbas;
  • a transformar o que o neoliberalismo atribui a puro cálculo matemático em punição por “balbúrdia”;
  • a despertar a indignação dos estudantes e encher as ruas.

As entidades estudantis foram sagazes. UNE e UBES compreenderam que

  • seriam tanto mais fortes
  • quanto mais respeitassem a autonomia,  iniciativa e criatividade das escolas e universidades.

Nas manifestações, não houve dirigismo relevante – e, na maior parte dos casos, nem carros de som. Esta abertura é de enorme importância, porque até o momento parece faltar, por exemplo, às centrais sindicais, na luta contra o desmonte da Previdência pública.

A massividade e a popularidade dos protestos provocaram um curioso efeito na velha mídia.

  • Até ontem, este outro ator essencial para a vitória de Bolsonaro ignorava os preparativos para a grande mobilização.
  • Certamente, preferiria que esta não ocorresse.
  • Mas quando se tornou incontornável, as TVs e os jornais adotaram um estratagema ambíguo – e engenhoso, do ponto de vista de seus interesses.

A manifestação era legítima porque Weintraub – e também o presidente – foram grosseiros e arrogantes, o que não condiz com as boas maneiras da política institucional… Mas os cortes seriam necessários – afinal, a economia está em declínio e o governo não tem como produzir riquezas, segundo a lógica hegemônica.

Portanto,

  • os estudantes e professores têm razão,
  • desde que ousem criticar apenas o personagem caricato, nunca o sistema que o ampara.

Um comportamento ambíguo foi adotado, no mundo parlamentar, pela maioria do Congresso – cuja expressão maior é o Centrão.

  • Uma vasta maioria de parlamentares do grupo impôs uma derrota humilhante ao governo ontem,
  • quando o ministro Weintraub foi convocado, a contragosto, a explicar-se no Congresso.

Mas hoje, quando ele compareceu ao Parlamento e fingiu alguma civilidade, mesclando o fundamentalismo com a defesa da ortodoxia econômica (além de se amparar na simploriedade de uma fala francamente pueril), a valentia do “Centrão” se desfez e o governo evitou que a fissura se transformasse em abismo inconsertável.

A postura de Bolsonaro foi mais áspera.

  • De Dallas, ele atacou, grosseiro, os manifestantes (“massa de manobra”, “idiotas úteis”, que “não sabem quanto é sete vezes oito, nem a fórmula da água”).
  • Talvez seja sua empáfia ignorante: a crença de que, por ter vencido as eleições com postura ultrabeligerante, poderá mantê-la agora, quando se espera que governe).
  • Talvez, seja um cálculo político esperto, visando a própria sobrevivência: que restará de Bolsonaro, se até sua imagem se reduzir à de um político tradicional, agora que sua presidência mostra-se tão desencantadora, tão incapaz de resolver os problemas do país?

Mas esta atitude beligerante terá um preço. À medida em que o governo naufraga, e em que o presidente insiste em fazer o papel de outsider, irá se converter em candidato a bode expiatório fácil de ser sacrificado – inclusive pelos neoliberais “clássicos”. É o que mostram, por exemplo, as manchetes cada vez mais críticas da Folha.

Ou, muito mais importante,

  • o espaço que todos os jornais dão às investigações do Ministério Público
  • sobre a íntima relação entre a famiglia Bolsonaro e as milícias cariocas.

Em meio a tantos êxitos, o tsunami da Educação voltou a evidenciar uma imensa lacuna política. 

  • Não há, na esquerda institucional brasileira, crítica ao núcleo do projeto neoliberal – apenas a suas bordas.
  • Esta ausência ficou clara nas reações, no fundo tímidas, à fala de Weintraub no Congresso.
  • Fez-se a contestação fácil a seu fundamentalismo, a seus ataques gratuitos.
  • Debateu-se a amplitude de seus cortes. Seriam maiores ou menores que os de Dilma, na reviravolta pós-eleitoral de 2015?

Mas não houve oposição a uma lógica:

  • a de que o Estado deve funcionar como se fosse uma empresa, buscando o lucro;
  • ou ao menos examinando, com olhar de contador, as planilhas de receita e despesa do Fisco.

Estar em sintonia com o tsunami de hoje exigiria outra coragem. Dizer (como fazem Alejandra Ocasio nos EUA, Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha ou mesmo Pedro Sánchez, na Espanha) que o Estado precisa – e tem elementos para – perseguir outras éticas.

  • Bem-estar para todos.
  • Redução das desigualdades.
  • Proteção do meio ambiente.
  • Geração de ocupações.

Ou ainda mais concretamente, nas condições brasileiras:

  • esboço de um novo programa.
  • Garantia de que as periferias deixarão de ser as senzalas pós-modernas.
  • Cidades sem cercas – e livres da ditadura do automóvel e do cimento.
  • Agricultura sem ruralismo e sem venenos.
  • Enfrentamento da crise laboral, com Renda da Cidadania e serviços públicos de excelência.
  • Oferta, pelo Estado, de um posto de trabalho — com direitos — a quem queira participar do novo projeto de país.

Parece muito difícil, porque a esquerda institucional

  • foi poder, por treze anos,
  • e não rompeu com as velhas lógicas.

Mas será cada vez mais necessário se quisermos, ao invés de nos voltar para o passado, construir as condições para superar o neoliberalismoagora.

 

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Antonio Martins

Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/589195-o-dia-em-que-o-governo-perdeu-as-ruas

https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/o-dia-em-que-o-governo-perdeu-as-ruas/

 

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