Por Monica Gugliano | Eu & Fim de Semana / Valor Econômico – 23/02/2019 – Foto: Daqui
Para José Sarney, que consolidou a transição do governo militar para os civis, hoje os Três Poderes têm fendas que desestabilizam o país.
“Estamos matando nossa democracia”. “Ao falar em morte da democracia, me refiro ao fato de que os Poderes têm fendas em suas estruturas que estão desestabilizando o país”.
“O Parlamento não legisla. O Poder Executivo legisla no lugar do Parlamento, e o Judiciário não exerce o poder moderador que deveria ter”
BRASÍLIA – De todos os cargos e títulos recebidos e de todas as funções exercidas ao longo de quase 70 anos de vida pública, o ex-presidente da República José Sarney se orgulha especialmente de duas atividades.
- Desde 1980, ele ocupa uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
- Na mesma década, foi o político que consolidou a delicada transição da ditadura militar para a democracia.
Sobre a carreira de escritor e poeta, há controvérsias. A respeito do segundo motivo de orgulho, há unanimidade e não paira nem entre seus mais ferozes adversários dúvidas sobre o papel que ele desempenhou. Sarney assumiu o mais alto cargo do país, substituindo Tancredo Neves (1910-1985), presidente eleito indiretamente, que ficara doente e morreria antes de tomar posse.
Entre aqueles dramáticos dias do mês de março de 1985 e hoje já se passaram 34 anos. Não sem certo pesar, Sarney adverte que o Brasil novamente vive um momento muito difícil: “Estamos matando nossa democracia. Ela está agonizando”.
No dia deste “À Mesa com o Valor”, em que recebeu a reportagem para um café, a acirrada disputa para a eleição do presidente do Senado (cargo que Sarney ocupou por quatro vezes) ainda repercute nos noticiários, alimentando uma hipotética crise das instituições.
“Ao falar em morte da democracia, me refiro ao fato de que os Poderes têm fendas em suas estruturas que estão desestabilizando o país”, afirma.
- “O Parlamento não legisla.
- O Poder Executivo legisla no lugar do Parlamento,
- e o Judiciário não exerce o poder moderador que deveria ter”,
acrescenta ele, citando o ex-deputado e relator da Constituinte, Nelson Jobim.
“Como disse há dez anos Jobim, é a judicialização da política e a politização da Justiça.”
- o Poder Judiciário, na opinião do ex-presidente, ter perdido o poder moderador que lhe cabe nas democracias,
- fez com que o país passasse a viver em um regime de insegurança jurídica
- em que ninguém sabe qual pode ser o destino de sua reivindicação.
“A interferência, a nítida divisão entre os ministros, é o sinal mais evidente dessa crise. São tantas as questões submetidas ao tribunal – tudo, na verdade – que isso cria uma insegurança jurídica muito grande.”
- Sarney fala com vagar,
- cultiva mais do que nunca as longas pausas na conversa, quando não o silêncio,
- e resiste a opinar sobre o comportamento sem nenhum decoro dos senadores na eleição do novato Alcolumbre.
“Não me agradaria fazer críticas ou análises sobre comportamentos ou fatos. Observei tudo a distância.”
- Não veste marrom,
- joga fora peças de roupa que acredita não lhe trazerem sorte,
- entra e sai sempre pela mesma porta
- e não gosta de falar em morte.
- que inclui passagens pelo PSD, Arena, PDS e PMDB (hoje MDB),
- Sarney é considerado um político que quase sempre esteve ao lado do poder,
crítica que costuma refutar com veemência.
- “Fui contra o Getúlio Vargas,
- fui contra o Juscelino Kubitschek.
- Fui vice-líder da UDN e era da ‘Banda de Música’ da UDN. Não toquei trombone, mas toquei reco-reco.
- Os militares nunca me trataram como se eu fosse uma pessoa muito ligada a eles.
- Pelo contrário, muitos deles me chamavam de uma coisa inacreditável: comunista.”
- Getúlio Vargas (1951-1954),
- Juscelino Kubitschek (1956-1961)
- e João Goulart (1961-1964).
Entre seus integrantes estavam
- Carlos Lacerda (1914-1977)
- e Afonso Arinos (1905-1990).
“Lacerda foi o maior parlamentar, dono da maior oratória que o Brasil já teve e viu.”
- vive uma fase de muito ódio,
- apesar de o sentimento ser um fenômeno mundial
- e estar muito ligado, em sua opinião, ao impacto da comunicação em tempo real na sociedade.
“A internet nos trouxe
- a perda dos direitos individuais, da privacidade.
- Criou tantas versões sobre o mesmo fato que já não sabemos qual é a verdadeira.
- É o que chamamos de a morte da verdade”,
diz, citando o livro“A Morte da Verdade – Notas Sobre a Mentira na Era Trump” (Intrínseca), de Michiko Kakutani, vencedora do Prêmio Pulitzer.
No Brasil, afirma o ex-presidente, o impacto dessas novas mídias alimentou a crise da democracia, somando-se aos problemas oriundos da Constituição de 1988.A Carta promulgada durante o governo de Sarney é vista por ele como
- um documento que, por ter sido feito logo depois de um regime autoritário,
- olha pelo espelho retrovisor e só enxerga o passado, em vez de mirar o futuro.
“São regras que foram desmontando o país até chegarmos às crises que vivemos hoje.”Sarney diz não acreditar em uma solução para os problemas nacionais que dispense revisão constitucional, ainda que continuem sendo feitas reformas como a da Previdência, que considera fundamental neste momento.
- Quem representa o povo?
- Somos nós ou são esses políticos que estão no Congresso?
- E isso virou um confronto diário entre a mídia e a classe política.”
- a prioridade que se deu ao combate à corrupção e que trouxe tantas “inacreditáveis” revelações
- está sendo uma inflexão de conduta importante.
- Mesmo que, no processo, alguns excessos tenham sido cometidos – e serão corrigidos com o tempo, diz.
- não esconde ressentimento das consequências que o envolveram em uma investigação da Lava-Jato
- e culminaram com pedido de prisão contra ele, feito ao Supremo Tribunal Federal (STF)
- pelo então procurador-geral da República Rodrigo Janot.
O pedido não foi aceito, e algum tempo depois Sarney foi inocentado. E a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva? “Lamento muito o que aconteceu e está acontecendo com Lula”, responde.
- a importância que se deu para debelar a corrupção
- deveria ser dada ao combate contra a violência.
“As estatísticas anuais de homicídios correspondem ao número de soldados mortos no mesmo período na Guerra do Vietnã”. É insustentável conviver com essa situação”, argumenta.
- Diz esperar que o presidente Jair Bolsonaro faça bom governo
- e que dê o exemplo da conciliação, harmonizando os conflitos da sociedade.
“Uma sociedade democrática é uma sociedade de conflitos. Cabe ao Estado, através da intermediação política, harmonizar esses conflitos.” Para ele, o presidente da República é um ser sempre aprisionado no tempo em que governa. Recorre ao filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) para dizer que “o presidente é ele e suas circunstâncias”.
- muitos políticos ainda não têm a visão do que significam as instituições.
- Atribui essa deficiência à falta de cultura, de leitura dos grandes clássicos como Tocqueville, Lincoln, Joaquim Nabuco.
- a quem Sarney se refere como um grande estadista
- e um dos maiores articuladores políticos que já conheceu.
Pouco antes das eleições indiretas, ele deixou o PDS (partido que substituiu a Arena) por divergências com o presidente militar João Figueiredo (1918-1999) no processo de abertura democrática. Era praticamente um estranho que o PMDB fora obrigado a “engolir”.
- a condição de um presidente que “ninguém queria”
- e que, segundo ele mesmo, tinha tudo para engrossar a lista dos mandatários que, mais dia menos dia, acabariam depostos.
- à capacidade de dialogar,
- ao temperamento pacífico
- e, principalmente, por ter mantido o Brasil na trajetória democrática.
- que dê sua opinião sobre um governo com tantos generais da ativa e da reserva em cargos estratégicos,
- Sarney pondera que os militares e os civis são iguais dentro da sociedade,
- de maneira que não haveria razão para exclui-los de participar da vida pública.
Além disso
- os militares, observa, são muito bem preparados,
- e o Brasil afastou os riscos oriundos do militarismo, ainda em seu governo
- e graças à atuação de ministros como o do Exército, Leônidas Pires Gonçalves (1921-2015).
- O Brasil atravessou esse gargalo do militarismo, que foi uma marca na América Latina,
- com muito mais tranquilidade do que outros países.
- Fizemos a transição com os militares, e não à revelia deles”, diz.
- Saiu do Planalto com baixa popularidade (56% dos entrevistados consideraram seu governo ruim/péssimo, segundo o Datafolha)
- e com a economia arrasada pela hiperinflação que já se anunciava desde a sua posse, quando o índice anual superava 200% ao ano.
- o crescimento médio do PIB em seu governo foi de 5% ao ano
- e o desemprego estava na casa de 2,69%.
Reconhece que de todas as decisões que tomou, se pudesse voltar atrás, não assinaria o Plano Cruzado II. “Foi a decisão mais errada que tomei. A pior. Muitas vezes eu fui um bom presidente e muitas vezes não fui. E essa foi uma das vezes em que eu não fui um bom presidente. Porque eu paguei pelo equívoco e acho que fui quem mais pagou. Mas o povo brasileiro pagou pela decisão e eu guardo isso na alma.”
- conta histórias dos personagens da vida pública recente do país,
- relata “causos” de família, da infância em Pinheiro, no interior do Maranhão, e da juventude em São Luís.
- E contempla histórias das viagens do então presidente. Todas com um viés anedótico.

