Leonardo Boff – 06/02/2019 – Foto: elo7.com.br
Eis o artigo.
Há uma constatação inegável no Brasil: em muitos setores se nota a irrupção
- do ódio,
- da ofensa,
- dos palavrões de todo tipo,
- da distorção,
- do preconceito
- e de milhares e milhares de fake news
- que, em grande parte, deram a vitória ao atual presidente.
Há ainda youtubers que falseiam a realidade, misturando palavrões com zombarias e reles moralismo, sujeitos a um processo judicial.
Comunista e socialista viraram palavras de acusação. Sequer se define o seu real significado, como se estivéssemos ainda na Guerra Fria de há trinta anos.
Quantos,
- inclusive um dos ministros de parcas luzes,
- enviam seus críticos para Cuba, Coreia do Norte ou Venezuela.
- A maioria sequer leu alguma página da Teologia da Libertação, tida por marxista.
Ignoram seu propósito básico:
- a opção pelos pobres e por sua libertação,
- isto é, em favor da maioria da humanidade que é pobre.
Enfim, respiramos ares tóxicos.
- Muitos mostram completa falta de educação e degradação das mentes.
- Na campanha eleitoral esta raiva enrustida saiu do armário.
Foi reforçada a violência pré-existente,
- dando legitimação a uma verdadeira
- cultura da violência contra indígenas,
- quilombolas,
- negros e negras,
- especialmente os LGBTI e opositores.
Precisamos compreender o porquê deste despropósito tresloucado. Iluminam-nos dois intérpretes do Brasil, aqui pertinentes:
- Paulo Prado, Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira (1928)
- e Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1936) no seu capítulo V. “O homem cordial”.

O barqueiro Caronte, nas portas do inferno / Wikipedia
Ambos têm algo em comum, no dizer de Ronaldo Vainfas, pois “tentam decifrar o caráter brasileiro a partir de suas emoções” (Intérpretes do Brasil, vol.II, 2002 p.16). Mas em sentido contrário.
Paulo Prado é profundamente pessimista caracterizando o brasileiro pela luxúria, a cobiça e a tristeza.
Buarque de Holanda faz diferenciações quanto à cordialidade.
”A contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade- daremos ao mundo o ‘homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro” (p.106).
Mas logo observa: ”Seria engano supor que estas virtudes possam significar “boas maneiras, civilidade” (107).
E continua: ”A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(107 nota 157).
Sabemos que do coração emergem tanto o amor quanto o ódio. A tradição psicanalítica nos confirma que aí impera o reino dos sentimentos. Estimo que
- definiríamos melhor o caráter do brasileiro
- se sustentássemos que o seu design básico não é a razão mas o sentimento. Este é contraditório: pode se expressar como amor e também como ódio virulento.
Pois esse lado dual da “cordialidade”, melhor dito, “do sentimento” ambíguo do brasileiro
- ganhou hoje asas e ocupou mentes e corações.
- Dominou a “falta de boas maneiras e de civilidade”.
Basta abrir os sites, os twitters, facebooks e youtubes para constatar que janelas do inferno se abriram de par em par.
Daí saíram demônios,
- separando pessoas,
- ofendendo figuras tão beneméritas como Dráuzio Varela
- e como a mundialmente apreciada de Paulo Freire.
A palavra de um incivilizado ocupa o mesmo espaço como aquela do Papa Francisco ou do Dalai Lama.
Mas este
- é apenas o lado de sombra do sentimento brasileiro,
- há o lado de luz, enfatizado acima por Buarque de Holanda e também por Cassiano Ricardo.
- Temos que resgatá-lo
- para que não tenhamos que viver numa sociedade de bárbaros na qual ninguém mais consegue conviver humana e civilizadamente.
Não há por que se desesperar. A condição do próprio universo é feita de ordem e desordem (caos e cosmos), as culturas possuem seu lado
- sim-bólico
- e dia-bólico
- e cada pessoa humana é habitada pela pulsão de vida (eros) e pela pulsão de morte (thánatos).
Tal fato não é um defeito da criação. É a condição natural das coisas.
As religiões, as éticas e as civilizações nasceram
- para conferir hegemonia à luz sobre as sombras
- a fim de impedir que nos devorássemos uns aos outros.
Terminava o pessimista Paulo Prado: ”a confiança no futuro não pode ser pior do que o passado”(p.98). Concordamos.
Inspira-nos um verso de Agostinho Neto, líder da libertação de Angola: “Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós” (Poemas de Angola, 1976, 50).
Leonardo Boff
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/586452-no-brasil-abriram-se-janelas-do-inferno
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