
Frei Bento Domingues, O.P.
Foto: Diversidade religiosa marca a chegada do Ano Novo / Imirante
“A cooperação entre ciência, ética, religião e estética pode criar um clima espiritual que nos defende de todos os simplismos, irmãos de todos os fundamentalismos.
O fundamental na atitude religiosa é o espírito de atenção, de releitura constante do mistério do mundo. Isto nada tem a ver com o irracionalismo, pai da violência, seja em que domínio for. A própria religião, sem a vigilância ética, pode tornar-se uma abominação.”
- O ser humano é um animal indeciso. No animal, os instintos e o mundo ao qual estão adaptados, ou são adaptados, formam um todo. Como escreveu Roger Garaudy[i], o
- animal é um feixe de respostas.
- O ser humano é um feixe de perguntas.
- Não se adapta apenas ao meio, transforma-o. Umas vezes para bem outras para mal.
Nunca está em equilíbrio perfeito com a natureza. A lógica interna do seu mundo em crescimento, construído e governado pela ciência e pela técnica, leva-nos a pensar e agir como se todos os nossos problemas pudessem ser resolvidos pela ciência e pela técnica.
- Não é verdade.
- Mas só a estupidez pode dizer mal da investigação científica e das transformações tecnológicas.
A sabedoria mais elementar descobre as suas espantosas vantagens e os seus quotidianos limites. É miopia esquecer que nenhuma actividade clarividente pode dispensar
- a interrogação filosófica,
- as linguagens da beleza
- e as exigências da ética.
Não é impossível descobrir, por outro lado, que não estamos apenas em face de problemas e enigmas que mais cedo ou mais tarde poderão encontrar soluções. Em todos os tempos e lugares há testemunhos de pessoas que
- despertaram para o mistério sem nome que resiste a todas definições e classificações,
- um não sei quê,
- uma noite luminosa que tudo envolve e sem a qual tudo se banaliza ou enlouquece.
O fundamental na atitude religiosa é o espírito de atenção, de releitura constante do mistério do mundo. Isto nada tem a ver com o irracionalismo, pai da violência, seja em que domínio for. A própria religião, sem a vigilância ética, pode tornar-se uma abominação.
Dada a complexidade de tudo o que ficou dito, parece-me que
- a cooperação entre ciência, ética, religião e estética
- pode criar um clima espiritual que nos defende de todos os simplismos,
- irmãos de todos os fundamentalismos.
Como diz o físico Antonio Rañada os fundamentalistas religiosos e os ateus militantes têm algo em comum:
- acreditam que a geografia do mundo cabe toda num só mapa,
- seja na interpretação intransigente de um livro sagrado
- ou nos dados de uma ciência exclusivista e totalizadora.
2. Na organização do calendário litúrgico, este Domingo celebra o Baptismo de Jesus, banhado num clima de enigmas. Há razões para julgar que
- lhe assiste alguma base histórica,
- apresentada numa interpretação de continuidade e ruptura com o profetismo do Antigo Testamento.
Não convinha nada que Jesus fosse baptizado por João que tinha discípulos que sobreviveram ao seu assassinato e ao de Jesus. Estes poderiam sempre dizer aos seguidores de Cristo: foi o nosso mestre que baptizou o vosso e não o contrário. De facto, nos diferentes Evangelhos existe uma vontade de mostrar que
- Jesus exaltou a figura de João Baptista
- e este a de mostrar que não era ele o messias.
- Apenas lhe preparava o caminho.
A narrativa de S. Lucas é comovente. Por um lado, faz de Jesus um discípulo de João, por outro, mostra a ruptura com o seu antigo mestre[ii].
O que terá acontecido?
- João era o símbolo da necessidade de reformar a religião de Israel, mas ainda na linha austera dos profetas.
- A sua pregação não se afastava de um rigor moralista carregado de ameaças.
- Jesus teve uma experiência espiritual que o obrigou a romper com esse mundo.
Diz o texto que Jesus baptizado entrou em oração. O resultado exprime a própria personalidade do Nazareno:
- Ele é a terra aberta ao céu
- e o céu aberto à terra,
- aberto a todos os mundos.
O Espírito de Deus, ao banhar o seu espírito, declara que Ele é um filho muito amado. Jesus sai dessa experiência com uma missão: mostrar que toda a gente, a começar pela mais desclassificada, sob o ponto de vista religioso, moral e material, é amada por Deus e chamada a viver do mesmo Espírito:
- Espírito de Deus,
- Espírito de Cristo,
- Espírito de renovação da Igreja,
- Espírito de transformação do mundo,
- numa imensa pluralidade de carismas e de caminhos.
É um Espírito que solicita a nossa inteligência e a nossa vontade, mas que nunca se impõe à nossa liberdade.
3. Com este novo ano surgiu um novo jornal online. Chama-se 7Margens. Pretende preencher uma lacuna. António Marujo e Jorge Wemans explicam o projecto: A partir de hoje tem à sua disposição
- informação,
- notícias,
- alertas,
- opinião e comentário sobre as mais diversas buscas espirituais que marcam o nosso tempo,
- desde as acolhidas e promovidas pelas religiões estabelecidas,
- até àquelas sem nome protagonizadas por pessoas de todas as formações.
Em setemargens.com encontrará tudo isto, editado e orientado por critérios jornalísticos. Independente de qualquer instituição, religiosa ou outra, setemargens.com
- rege-se por princípios profissionais
- e tem como objetivo tratar informação relativa ao fenómeno religioso,
- entendido na maior abrangência possível do conceito. Deste ponto de vista, é um projeto inédito no mundo que fala português.
A entrevista a Pedro Abrunhosa a propósito do seu novo disco, Espiritual, foi uma boa escolha.
Recorto uma passagem que tem a ver com o Espírito deste Domingo e desta crónica:
“ Vivem-se momentos de ausência de mistério, momentos de pura fisicalidade, de aparência, muita aparência, de “eu sou o que tenho”, “eu sou o que mostro que tenho”.
Às vezes, nem é o que tenho, se eu mostrar as pessoas vão deduzir que tenho. Logo, sou aquilo que mostro. E isso faz com que se viva numa feira de vaidade, que me faz lembrar muito os vendilhões do templo, faz-me lembrar muito este abastardamento dos valores humanos, que é uma das falências da decadência. Os impérios começam a decair exactamente por isso, por uma certa febre da vaidade da aparência”.
Não posso esconder a alegria que este acontecimento me provocou.
- Sem pretender constituir uma alternativa ao que existe na Igreja,
- vai certamente viajar por paisagens que ela ou ignora ou faz que ignora.
- Serão novos olhos a ver o que a cegueira dos grandes meios de comunicação insiste em ignorar.
Outra carência do nosso catolicismo
- é a falta de espírito de interrogação filosófica,
- sem a qual a teologia adormece.
Em Coimbra, lembrando José Dias da Silva, o Instituto Universitário Justiça e Paz vai revisitar, a várias vozes, a Doutrina Social da Igreja e as suas incidências na intervenção política.
Em Lisboa, na Capela do Rato, vários nomes conhecidos da cultura portuguesa vão interrogar a Filosofia, a Literatura, a Espiritualidade.
Não sou jornalista, mas desejo que este novo ano nos traga muitas e boas surpresas.
[i] Cf Palavra de Homem, D Quixote, Lisboa, 1975
[ii] Lc 3, 15-22
Frei Bento Domingues
in Público 13. 01. 2019
www.publico.pt/2019/01/13/sociedade/opiniao/ano-novo-religiao-1857443
