
Erasmus Zu Ermgassen – Tiago Reis – 01/11/2018 – Foto: Getty Images/AFP/Y Chiba
O artigo é de Erasmus Zu Ermgassen, pesquisador de pós-doutorado em cadeias de fornecimento sustentáveis na Université catholique de Louvain, Bélgica e de Tiago Reis, doutorando em ciências do uso do solo na Université catholique de Louvain, Bélgica, e trabalhou por quase quatro anos em uma ONG brasileira de ciência e conservação ambiental, o IPAM. O artigo é publicado por El País, 31-10-2018
Eis o artigo.
Ainda candidato, Jair Bolsonaro prometeu desconstruir a política de combate ao desmatamento no Brasil. Durante a campanha, titubeou diante da oposição de algumas lideranças da agricultura. Por outro lado, a proposta atraiu o apoio de grupos poderosos, como a bancada ruralista no Congresso e de grandes proprietários de terras.
O que os apoiadores parecem não ter percebido, ainda, é que essa e outras propostas, como
- retirar ou condicionar participação do Brasil no Acordo do Clima de Paris,
- afrouxar a política ambiental,
- reduzir as áreas de unidades de conservação
- e a demarcação de terras indígenas,
na verdade prejudicam os próprios fazendeiros e produtores rurais brasileiros.
Isso porque, desde os anos 1970, o Brasil tem passado por um rápido desenvolvimento agropecuário.
- Vastas áreas de florestas e Cerrado foram derrubadas
- para abrir espaço a pastagens e monoculturas como cana-de-açúcar, soja, milho e algodão.
Trata-se de uma área maior que duas Alemanhas. Enquanto esse processo
- beneficiou milhões de famílias, gerando renda e desenvolvimento,
- também deixou um legado de ineficiência agropecuária e no uso do solo.
Praticamente
- dois terços de toda essa área são ocupados por pastagens de baixa produtividade,
- erando apenas ganhos marginais.
Apesar desse padrão nefasto, a partir dos anos 2000, a agricultura brasileira começou a mudar para um modelo mais produtivo e eficiente. Em paralelo, políticas de combate ao desmatamento, elaboradas pelo Ministério do Meio Ambiente, reduziram pela metade o desmatamento.
As ações de fiscalização do IBAMA foram fundamentais para promover essa transição, aumentando a produtividade e a competitividade da agricultura brasileira.
- Os fazendeiros passaram a pensar duas vezes antes de abrir novas áreas.
- Em vez de aumentar a produção desmatando, começaram a intensificar.
Passaram a adotar sistemas agrícolas mais eficientes e sustentáveis,
- como duas ou mais safras,
- integração lavoura-pasto-floresta e plantio direto.
Esse modelo mais eficiente pode gerar benefícios duradouros ao Brasil, se disseminado a todo o mundo rural.
- Se o Brasil implementar o Código Florestal, inclusive,
- podemos ter um aumento de mais de 50% na produtividade da pecuária nas próximas décadas.
Isso mostra que produção de alimentos e conservação podem e devem caminhar juntos.
Entretanto, sem um sinal claro e forte de que as florestas e o Cerrado estão protegidos, a tendência é que
- o Brasil persista em práticas agrícolas arcaicas, extensivas e ineficientes
- associadas ao desmatamento desordenado.
Em outras palavras, proteger nossas florestas e Cerrado impulsiona a modernização da agricultura brasileira.
Manter nossa vegetação nativa não apenas fomenta a produtividade da agricultura, mas também tem se tornado um requisito para que o Brasil se consolide como líder na produção de commodities agropecuárias. A sustentabilidade ambiental abre mercados.
- O Brasil ultrapassou os Estados Unidos como o maior exportador de soja,
- e já é o segundo maior exportador de carne bovina.
As normas desses mercados têm mudado dramaticamente.
Antes tudo era aceito.
Hoje, compromissos de desmatamento zero, assinados por
- governos,
- grandes marcas de alimentos
- e empresas agrícolas,
proliferam-se pelo mundo.
- Muitos dos principais mercados para produtos brasileiros,
- incluindo a indústria de carne da China,
- têm se comprometido publicamente a eliminar o desmatamento de suas cadeias de fornecimento.
Por esses motivos,
- dissolver o Ministério do Meio Ambiente seria visto, internacionalmente, como um passo atrás.
- Segundo Eumar Novacki, secretário executivo do Ministério da Agricultura até 31 de dezembro,
- isso macularia a percepção de consumidores mundiais sobre a indústria brasileira de alimentos.
É muito importante que, agora como presidente, Bolsonaro entenda esses riscos.
- O escrutínio público e mundial sobre a produção de alimentos só vai aumentar de agora em diante.
- Novas ferramentas de monitoramento de cadeias produtivas e uso do solo,
- como a Trase, o Global Forest Watch e o Mapbiomas,
- têm trazido um nível sem precedentes de informação sobre o desmatamento causado pela produção de commodities agropecuárias.
Elas permitem a empresas e governos do mundo todo quantificar o desmatamento associado a seus suprimentos e importações. Ou seja, se antigamente o comércio internacional de alimentos era obscuro, o desmatamento e os crimes ambientais eram escondidos, hoje a situação já é diferente. Os mercados já são capazes de
- discernir se os produtos agrícolas vindos do Brasil os ajudam a cumprir seus compromissos e objetivos ambientais,
- ou se estão associados a crimes e à degradação ambiental.
Com esses acontecimentos, torna-se mais imperativo
“diferenciar
- quem é grileiro
- de quem é fazendeiro
- de quem é agricultor”.
Setores importantes do agronegócio brasileiro
- já expressaram seu compromisso com o combate ao desmatamento como forma de modernizar a agropecuária brasileira,
- e são contra a fusão dos ministérios.
A dissolução do Ministério do Meio Ambiente legitimaria o desmatamento ilegal e seria aclamado por segmentos poderosos do lobby ruralista.
No entanto,
- a vítima não seria apenas o meio ambiente brasileiro,
- mas também a produção de alimentos que abastece nossas mesas e os próprios produtores rurais.


Erasmus Zu Ermgassen – Tiago Reis
Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/584324-fusao-do-ministerio-do-meio-ambiente-ameaca-agricultura-brasileira
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