O PAPA QUE QUEREMOS

O silêncio, não sei se obsequioso ou respeitoso dos círculos eclesiásticos e as poucos manifestações da ala dissidente sobre a sucessão papal deve ter um motivo que ainda não descobri.

Os meios de comunicação até que têm veiculado algumas notícias interessantes que, no meu entender, não abordam o fato na vertente certa e em toda a sua profundidade. São mais sensacionalistas. O consenso geral é de que Bento XVI foi obrigado a renunciar por forças de ordem físicas (idade, saúde etc.), e/ou por forças ocultas de ordem moral e política (intrigas, falsidades, traições, corrupções, chantagens etc. dentro do Vaticano) Na hora que o helicóptero do Vaticano, no dia 28/02/2012, decolar levando o Bispo emérito de Roma, ex Bento XVI, o mundo católico deverá começar uma corrente forte de orações a favor do próximo Papa. Qual o perfil do Papa que queremos?

A ocasião é extremamente propícia para se fazer um esclarecimento efetivo, sincero, objetivo e desapaixonado sobre o mistério que, há séculos, paira sobre o Vaticano, e o processo sucessório. Se se perder esta ocasião, dificilmente vai aparecer outra com tanta riqueza de detalhes e que enseje abordagens sob diversos ângulos.

Desde que o Imperador Romano, Constantino I, que convocou o Concílio de Nicéia, em 325 d. C. exigiu que os Bispos excomungassem Ario e decretassem o dogma da SS. Trindade, para que o Império de um único Imperador,  fosse também o de um só Deus, embora sobre o título incompreensível de Trindade, e concedeu regalias extraordinárias ao clero, a cidadela clerical que tem suas raízes no Vaticano se tornou inexpugnável.

Depois da queda do império a adoração ao imperador (poder cível), migrou para o Papa (poder religioso), foi consagrado como representante de Deus e reverenciado sob o título de Santidade . Quando a ortodoxia se viu ameaçada, o caminho foi impor a fé em determinados conceitos pela força, originando-se ai a linha dogmática da Igreja. O Dogma da Infalibilidade do Papa, proclamado pelo Papa Pio IX – em 19/07/1870, é um exemplo. Assim, divulgou-se por toda a Igreja a famosa máxima, válida, inclusive, nas Universidades de Teologia: Roma locuta causa finita.

A sucessão pontifícia coloca, neste momento, o papado numa encruzilhada angustiante por causa de denúncias graves surgidas dentro e fora da Igreja, ultimamente. A falta de transparência e honestidade na gestão das coisas ditas de Deus gerou uma situação caótica que requer uma correção a curtíssimo prazo.  Esta é a hora da verdade, da desmistificação, da  honestidade.

Em absoluto, não é hora de denegrir, mas de esclarecer, repito. Uma pessoa, conheço várias, que depois de ir a Roma tem uma de duas reações:  ou fica fascinada diante da beleza, riqueza e suntuosidade do Vaticano e pergunta: “para que isso”? Ou fica emocionada até às lágrimas diante da visão deslumbrante do Papa, e exclama: “é maravilhoso ver o Papa, o sucessor de Pedro”. Mas poucos vão além disso.

J.D. Vital, jornalista mineiro, em sua coluna no Jornal O Tempo, de 22/02/2012, cita um fato interessante: Dom Helder Câmara, na década de 60, visitando Paulo VI, seu amigo, disse-lhe, com a coragem e franqueza que lhe eram características: “Santo Padre, mude-se do Palácio Apostólico, vá morar em alguma paróquia de Roma. Confie os tesouros do Vaticano aos cuidados da UNESCO, reúna os Núncios Apostólicos, dê-lhes uma grande bênção, dispense-os do serviço diplomático e transfira para as Conferências Episcopais dos países, como a CNBB, a missão de eleger os Bispos”.

É claro que a sugestão de Dom Helder não foi acatada, nem em parte, o que era de se desejar.

O poder centralizador do Vaticano, eleição de Bispos, por exemplo, tem raízes históricas muito profundas que enfatizam, sobretudo, a submissão que os Bispos devem ter ao poder central do Vaticano. Isso, o acima citado J.D. Vital expõe magistralmente em seu livro “Como se faz um Bispo” Ed. Civilização Brasileira – 2012. Chegam a ser inacreditáveis as manobras e as estratégias utilizadas pelas Nunciaturas Apostólicas, sob o comanda do Vaticano, para escolher um Bispo, mesmo que seja para a menor e mais longínqua Diocese, no coração da África, América Latina ou qualquer outro país.  Um padre só chega a ser Bispo se passar pelo crivo de uma seleção rigorosíssima, tudo sob “segredo pontifício” e, se tiver dado provas efetivas de fidelidade incondicional e absoluta ao Papa. Isso é bom? Dizem que é para conservar a unidade e catolicidade da Igreja. Tenho minhas dúvidas porque, numa subserviência cega a Roma, o Bispo, muitas vezes, corre o risco de não tomar as medidas urgentes e necessárias de que seu rebanho precisa.

Na verdade, as Dioceses nunca são iguais, e têm características próprias que o Papa, encastelado em seu Palácio Apostólico não conhece, mas o Bispo deve conhecer e suprir com sabedoria, liberdade e independência. Alguns Bispos, poucos, já fazem isso. O Povo de Deus caminha, ora por desertos, ora por oásis, por vales e montanhas, e, para uma só cabeça, até guiada pelo Espírito Santo, fica difícil atender às necessidades peculiares de cada grupo, de cada pessoa. Uma lei ou norma que se aplica perfeitamente na realidade “xis” pode não se aplicar numa “ypsilon” e vice-versa.

Fátima Oliveira, médica, em brilhante artigo publicado no Jornal “O Tempo”, de 19/02/2012, tem opinião, no mínimo, inquietante: “O catolicismo romano se divorciou do viver do povo, e a opção preferencial pelos pobres, de há muito, virou figura de retórica”. Parece ser verdade, uma vez que a Igreja, hoje, elitizou seu atendimento, e os pobres das periferias dos grandes centros urbanos são o público-alvo das seitas protestantes, cujo “zelo evangélico” deixa as igrejas católicas na lanterna.

Um Bispo me disse recentemente, diante dessa realidade, que não pode fazer nada porque não tem padres. Acredite quem quiser continuar a ser enganado.

O Papa que queremos, ou melhor, que precisamos tem que estar disposto a quebrar barreiras, derrubar padrões há muito solidificados, se quiser ser Chefe de uma Igreja para o século XXI.

A modernização e atualização dos pregadores é para ontem, sob pena e, em breve, as igrejas estarem às moscas. É inócuo, hoje em dia, diante da avalanche de erotismo divulgada pela mídia, falar que é pecado “fazer sexo” antes do casamento. Entenda-se: Ninguém, naturalmente, está defendendo a permissividade e a depravação dos costumes e da moral.

Também, diante da epidemia mundial da AIDS, falar e pregar que o uso de preservativos, indiscriminadamente, é contra a lei de Deus, é um atraso. É urgente livrar-se das peias medievais, e conscientizar-se de que estamos já no terceiro milênio.

Os ritos sacramentais, da missa, sobretudo, continuam atrelados, em termos litúrgicos, a práticas condenadas já no A. T. pela boca dos Profetas.  Uma leitura, no mínimo equivocada, do N. T. passa a ideia superada de que Cristo, o Filho de Deus, teria morrido  na cruz pelos pecados da humanidade inteira. É lamentável que ainda hoje o “Memorial da Nova Aliança” seja ensinado e mistificado como “sacrifício”, não obstante todo mundo saber que, de fato, Cristo foi assassinado na cruz, pela inveja das autoridades religiosas de seu tempo, que serviam o poder romano.

O tsunami da pedofilia que, há décadas, vem enxovalhando parte significativa do clero católico, com escândalos e sofrimento para milhares de pessoas dentro e fora da Igreja só pode ter tolerância ZERO. A manutenção do celibato obrigatório para os padres, mesmo porque boa parte do clero, inclusive Papas e Bispos, nunca foi fiéis a essa disciplina anti-natural, precisa urgentemente ser revista, senão abolida.

Em pleno século XXI, onde, na pratica, todas as instituições políticas evoluíram e dão oportunidades iguais a  homens e mulheres, é inqualificável  e inaceitável a domínio machista  nas fileiras do clero. Por isso tudo e muito mais, o povo deve ser  informado e esclarecido sobre o perfil de um Papa progressista para suceder Bento XVI.

Ah! infelizmente, não é o povo quem vota nesta eleição! Então vamos rezar para que os eleitores tenham juízo!

B.H. 23/02/2012

José Lino

Funcionário Público e Advogado

Fonte: Enviado por e-mail pelo autor:

 

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