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A arma letal da verdade

  • 09/04/2018
  • 21:05
Artigo de Massimo Recalcati

Massimo Recalcati – 07 Abril 2018 

Foto: http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/banco/abstrato/abstrato_azulpixabay.jpg

“Nada é mais aterrorizante do que a violência que brota da pretensão de possuir integralmente a Verdade. A violência que se situa do lado da Verdade está na origem de todas as formas de barbárie. Q

uanto mais firme é a convicção de estar do lado da Verdade, mais a ação violenta encontra sua plena justificação. Assim, a Verdade se torna – como Nietzsche mostrou – um ídolo a se servir fanaticamente.”

A opinião é do psicanalista italiano Massimo Recalcati,  professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Repubblica, 06-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A violência se assemelha a uma alucinação, porque

  • oferece a ilusão de realizar o próprio desejo sem qualquer mediação,
  • em uma instantaneidade psicótica;
  • ela gostaria de alcançar seu objetivo sem passar pelo amplo e tortuoso circuito do diálogo.

Onde há violência, de fato, toda forma de diálogo se torna impossível.

A palavra

  • não circula,
  • mas é aniquilada, humilhada, suprimida.

A violência gostaria de mostrar toda a inconsistência e a aleatoriedade da palavra. Gostaria de ser o ferro contra o vento. O que não exclui que possa existir uma violência própria da palavra: as palavras podem ser duras e impiedosas como balas. Mas, mesmo nesse caso – assim como para o estatuto alucinado da violência –, elas gostariam de

  • atingir seu alvo imediatamente,
  • sem debate,
  • sem interlocução.

Um insulto ou um slogan raivoso não pode ser discutido, mas apenas empunhado como uma arma. Não encontramos, talvez, aqui, o terreno psiquicamente mais elementar do qual a violência se origina?

  • Morte da Lei da palavra,
  • morte do diálogo,
  • morte da relação com o Outro.

Quando se chega à passagem para o ato da violência é porque a Lei da palavra foi subvertida. É um fato que o discurso educacional deveria levar a sério.

Ensinar aos nossos filhos o respeito pela Lei da palavra deveria ser a primeira tarefa de todo percurso de formação. O que não significa que não possam existir – como a história ensinou – expressões diferentes da violência:

  • a violência dos opressores
  • ou da desigualdade social
  • não pode ser assimilada à daqueles que reagem a ela.

No entanto, o recurso à violência sempre

  • rompe traumaticamente a Lei da palavra
  • que é a única Lei que torna a vida humana.

Mesmo quando – como aconteceu, por exemplo, com a guerra partigiana – o recurso à violência visava a restaurar a dignidade ao direito revogado da palavra.

A Lei da palavra exclui que haja uma representação totalizante da verdade.

A pluralidade das línguas

  • não é apenas um dado cultural,
  • mas também descreve a existência de Verdades diferentes
  • ou, se se preferir, a inexistência de uma única Verdade.

Nada é mais aterrorizante do que a violência que brota da pretensão de possuir integralmente a Verdade. A violência que se situa do lado da Verdade está na origem de todas as formas de barbárie. Quanto mais firme é a convicção de estar do lado da Verdade, mais a ação violenta encontra sua plena justificação. Assim, a Verdade se torna – como Nietzsche mostrou – um ídolo a se servir fanaticamente.

O grito de guerra (santa) “Deus o quer!” que armava a mão dos cruzados ou o ditado maoísta – retomado pelo extremismo italiano nos anos 1970 – de que

  • é suficiente atingir um
  • para educar cem caminham

paradoxalmente na mesma e idêntica direção.

Qual? Em uma direção fundamentalista, não laica, se por cultura laica se entende – como Freud entendia, definindo a própria psicanálise como “laica” – uma atitude intelectual e ética que ignora as verdades absolutas e imperecíveis.

  • Se, de fato, a Verdade se escreve com V maiúscula,
  • se ela se dá aos nossos olhos como totalmente revelada,
  • se ela não for acompanhada por qualquer senso do mistério,
  • não existe mais limite algum à afirmação brutal e violenta da nossa Verdade.

Nesses casos, a violência

  • perde seu caráter impulsivo, irracional, intermitente,
  • para se identificar com uma verdadeira concepção de mundo.

É o ponto de passagem que transfigura a violência em uma verdadeira missão redentora.

Os terroristas que assassinaram Aldo Moro impiedosamente fizeram isso para desferir um golpe político-militar no coração do Estado. Mas só puderam fazer isso a partir da convicção

  • de deter a Verdade sobre o que era útil à Itália para resistir às “forças da reação”
  • e levar a bom termo um percurso autenticamente revolucionário.

É a paixão ideológica e fanática pela Verdade que armou a mão deles.

A Verdade da Causa, de fato,

  • não entra no debate democrático,
  • não revela seu fundo incerto,
  • não tolera a pluralidade das línguas,
  • mas se identifica loucamente com uma única bandeira.

Enquanto o conflito político não apaga a dignidade humana do próprio antagonista, o espírito de todo fundamentalismo, estando desprovido de espírito laico, continua convencido

  • da própria superioridade ética,
  • de encarnar a expressão de outro gênero de humanidade,
  • de possuir uma Verdade que coincide perfeitamente com a militância pela própria Causa.

O terrorismo manifesta, nesse sentido, a essência mais própria da violência fundamentalista: na era do terror,

  • todos nos tornamos alvos dos fanáticos da Verdade,
  • porque não somos nada diante da Verdade absoluta da sua Causa.

Por isso, não é raro encontrar terroristas desprovidos de qualquer sentimento de culpa. Sua mão foi guiada diretamente por Deus ou pela Causa que eles serviram de modo sacrificial.

Nunca se deveria esquecer o núcleo sadomasoquista da mentalidade terrorista:

  • eu sacrifico a minha vida à Causa (masoquismo),
  • mas esse sacrifício me dá o direito de fazer da vida dos outros aquilo que eu quero (sadismo).

O terrorista

  • age na mais total transparência da Verdade,
  • porque quer escapar da vertigem da dúvida em relação à Verdade.

Diferentemente, o espírito laico da psicanálise mostra que

  • somos todos estrangeiros a nós mesmos,
  • sem uma casa própria,
  • sem relações com uma Verdade universal,
  • divididos, cindidos, sempre distante de nós mesmos.

Por isso, ela é um grande antídoto para as guerras religiosas de todas as espécies.

 

Resultado de imagem para Massimo Recalcati

 

Massimo Recalcati

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/577731-a-arma-letal-da-verdade-artigo-de-massimo-recalcati

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