A Igreja não é um supermercado

Missa em Santa Marta – Homilia de Francisco

 «Ambas as leituras da liturgia de hoje – explicou o Pontífice – falam-nos do templo, aliás, da purificação do templo». Inspirando-se no excerto do primeiro livro dos Macabeus (4, 36-37.52-59) o Papa observou que «depois da derrota das pessoas que Antíoco Epífanes enviara para paganizar o povo, Judas Macabeu e os seus irmãos quiseram purificar o templo onde se realizavam sacrifícios pagãos e restabelecer a beleza espiritual do templo, o sagrado do templo».
Por isso «o povo sentia-se alegre». De facto, lê-se no texto bíblico que «grandíssima foi a alegria do povo, porque se cancelou a vergonha dos pagãos». Por conseguinte, acrescentou o Papa, «o povo encontra de novo a própria lei, o próprio ser; o templo torna-se outra vez o lugar do encontro com Deus».

«O mesmo faz Jesus quando expulsa aqueles que comerciavam no templo: purifica o templo» afirmou Francisco, evocando o trecho evangélico de Lucas (19, 45-48). Assim fazendo o Senhor torna o templo «como deve ser: puro, só para Deus e para o povo que vai rezar». Mas, por nossa vez, «como podemos purificar o templo de Deus?». A resposta, disse o Papa, está em «três palavras que podem ajudar-nos a compreender. Primeira: vigilância; segunda: serviço; terceira: gratuitidade».

«Portanto, vigilância é a primeira palavra sugerida pelo Pontífice: «Não só o templo físico, os edifícios, os templos, são os templos de Deus: o mais importante templo de Deus é o nosso coração, a nossa alma». A ponto que, observou o Papa, São Paulo diz-nos: «Sois templo do Espírito Santo». Portanto, afirmou Francisco, «o Espírito Santo habita em nós».

 

Francisco celebra em S. Marta – Rad Vat

E precisamente «por isso a primeira palavra» proposta por Francisco é «vigilância».

Eis algumas perguntas para um exame de consciência:

  • «O que acontece no meu coração? Dentro de mim?
  • Como me comporto com o Espírito Santo?
  • O Espírito Santo é um dos muitos ídolo que conservo dentro de mim ou cuido do Espírito Santo?
  • Aprendi a vigiar dentro de mim, a fim de que o templo no meu coração seja só para o Espírito Santo?».

Eis então, a importância de «purificar o templo interior e vigiar», afirmou o Papa.

 

Com uma exortação explícita:

  • «Está atento, está atenta: o que acontece no teu coração?
  • Quem vem quem vai… quais são os teus sentimentos, as tuas ideias?
  • Falas com o Espírito Santo?
  • Ouves o Espírito Santo?».

Trata-se contudo de «vigiar: estar atento ao que acontece no nosso templo, dentro de nós».

 

A segunda palavra é «serviço» prosseguiu o Pontífice.

«Jesus – recordou – faz-nos compreender que ele está presente de um modo especial no templo daqueles que têm necessidade». E «diz claramente: está presente

  • nos doentes,
  • nos que sofrem,
  • nos famintos,
  • nos presos,

está presente neles». Também para a palavra «serviço» Francisco sugeriu algumas perguntas para serem formuladas a nós mesmos:

  • «Sei conservar aquele templo?
  • Cuido do templo com o meu serviço?
  • Aproximo-me para ajudar, vestir, consolar os que precisam?».

«São João Crisóstomo – observou Francisco – repreendia os que faziam muitas ofertas para ornar, embelezar o templo físico e não cuidavam dos necessitados, dizendo:

“Não, isto não está bem, primeiro o serviço depois as ornamentações”». Resumindo, somos chamados a «purificar o templo que são os outros». E para o fazer bem é preciso que nos perguntemos: «De que modo ajudo a purificar aquele templo?». A resposta é simples: «Com o serviço aos necessitados. O próprio Jesus diz que ele está presente neles». E «está presente neles – explicou o Papa – e quando nos aproximamos para prestar um serviço, ajudar, assemelhamo-nos a Jesus que está ali dentro».

A tal propósito, Francisco confidenciou que viu «um ícone tão bonito do Cireneu que ajudava Jesus a carregar a cruz: olhando bem para aquele ícone, o Cireneu tinha o mesmo rosto que Jesus». Portanto «se tu acudires o templo que está doente, o preso, o necessitado e o faminto, também o teu coração será mais parecido com o de Jesus». Precisamente «por isto conservar o templo significa serviço».

  • «A primeira palavra, vigilância» resumiu o Pontífice, exprime algo que «acontece dentro de nós».
  • Enquanto «a segunda palavra» indica-nos o «serviço aos necessitados: isso significa purificar o templo».
  • E «a terceira palavra que me vem à mente lendo o Evangelho – prosseguiu – é gratuitidade».

No trecho do Evangelho, Jesus diz: «A minha casa será casa de oração. Vós, ao contrário, fizestes dela um covil de ladrões».

Precisamente tendo em mente aquelas palavras do Senhor, afirmou o Papa, «quantas vezes com tristeza entramos num templo – pensemos numa paróquia, numa diocese – e não sabemos se estamos na casa de Deus ou num supermercado: há ali os mercadores, até com uma lista dos preços para os sacramentos» e «falta a gratuitidade».

Contudo, «Deus salvou-nos gratuitamente, nada nos cobrou » insistiu o Pontífice, convidando a ajudar «para que as nossas igrejas, paróquias não sejam supermercados: mas casa de oração, que não sejam covil de ladrões, mas serviço gratuito».

Certamente, acrescentou o Papa, alguém poderia objetar que «devemos ter dinheiro para manter a estrutura e também para dar de comer aos sacerdotes, aos catequistas». A resposta do Pontífice foi clara: «Tu dá gratuitamente e Deus providenciará o resto, Deus providenciará o que falta».

«Conservar o templo – afirmou Francisco – significa: vigilância, serviço e gratuitidade».

  • Antes de tudo «vigilância no templo do nosso coração: devemos prestar atenção ao que acontece lá, estar atentos porque é o templo do Espírito Santo».
  • Depois «serviço aos necessitados», repetiu, sugerindo que se leia o capítulo 25 do Evangelho de Mateus. Serviço inclusive «aos famintos, aos doentes, aos presos, aos que têm necessidade porque ali está Cristo», sempre com a certeza de que «o necessitado é o templo de Cristo».
  • Por fim, concluiu o Papa, o «terceiro» ponto é a «gratuitidade no serviço que se oferece nas nossas igrejas: igrejas de serviço, gratuitas. Como foi gratuita a salvação, e não “igrejas-supermercado”».

 

Fonte: http://www.osservatoreromano.va/pt/news/igreja-nao-e-um-supermercado

 

 

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