“Católicos e budistas juntos para curar as feridas do povo da Birmânia”

 Andrea Tornielli-Yangon (Myanmar)29/11/20

Foto: O Papa Francisco com os monges do Comitê do Estado Sangha no Kaba Aye Center de Yangon –  AFP

O encontro de Francisco com o Comitê Central dos Monges Budistas de Yangon designados pelo Estado: “Devemos superar todas as formas de incompreensão, de intolerância, de preconceito e de ódio”.  O Papa cita Buda e são Francisco.

Tradução: Orlando Almeida

O papa Francisco está cercado por monges vestidos de vermelho escuro no Kaba Aye Center em Yangon e, no seu terceiro dia em Myanmar, quer enviar um sinal forte em um país onde os budistas são a maioria e quem sofre a discriminação são as minorias étnico-religiosas muçulmanas e cristãs.

Possam budistas e católicos caminhar juntos por esta senda de cura e trabalhar lado a lado para o bem de cada habitante desta terra – diz Bergoglio –pedindo que sejam superadas “todas as formas de incompreensão, de intolerância, de preconceito e de ódio”.

O encontro acontece à tarde, no lugar símbolo do Budismo Therevada: o Kaba Aye Center é dominado pelo homônimo “Pagode da Paz Mundial” que é um dos mais venerados templos budistas do Sudeste Asiático. O edifício, construído em 1952, é coroado por uma impressionante cúpula de ouro com seis pilares, um símbolo dos seis Conselhos do budismo, o último dos quais foi realizado exatamente aqui de 1954 a 1956.

Francisco é acolhido e saudado pelo venerável Bhaddanta Kumarabhivamsa, presidente do Comitê de Estado Sangha Maha Nayaka. Também está presente Thura Aung Ko, Ministro dos Assuntos Religiosos e da cultura de Mianmar. Na entrada Bergoglio tira os sapatos, como todos, antes de entrar no pagode e fica apenas de meias pretas nos pés. Os monges estão sentados em cadeiras de madeira marchetada num dos lados da sala, no outro está sentado o Papa com a sua comitiva.

O presidente dos monges no seu discurso afirma:

“No nosso mundo atual é deplorável ver ‘terrorismo e extremismo’ mobilizados em nome de credos religiosos. Uma vez que todas as doutrinas religiosas ensinam apenas o bem da humanidade, não podemos aceitar que terrorismo e extremismo possam nascer de uma certa fé religiosa”.  

“Nós acreditamos firmemente – acrescenta – que terrorismo e extremismo nascem de interpretações errôneas dos ensinamentos originais das respectivas religiões, porque alguns seguidores introduzem emendas aos ensinamentos originais sob o impulso dos seus próprios desejos, instintos, medos e desilusões – os quatro obstáculos ao pensamento correto”.

O encontro – explica o Papa tomando palavra – é

uma oportunidade para afirmar

  • nosso compromisso com a paz,
  • com o respeito pela dignidade humana
  • e com a justiça para todos os homens e mulheres.

Não só em Myanmar, mas em todo o mundo as pessoas precisam deste testemunho comum dos líderes religiosos. Porque quando nós falamos com uma só voz afirmando os valores perenes da justiça, da paz e da dignidade fundamental de todo ser humano – acrescenta Bergoglio – oferecemos uma palavra de esperança. Ajudamos budistas, católicos e todas as pessoas a lutar por uma maior harmonia em suas comunidades”.

O Papa lembra as injustiças e os conflitos que “no nosso tempo parecem ser particularmente sérios” e pede para não desanimar, mas continuar no

caminho que leva à cura, à compreensão mútua e ao respeito. Um caminho baseado na compaixão e no amor”. Francisco expressa “estima por todos aqueles que em Mianmar vivem de acordo com as tradições religiosas do Budismo. Através dos ensinamentos do Buda e do testemunho zeloso de tantos monges e monjas, o povo desta terra foi formado nos valores da paciência, da tolerância e do respeito pela vida, bem como numa espiritualidade zelosa e profundamente respeitosa do nosso ambiente natural. Como sabemos, estes valores são essenciais para o desenvolvimento integral da sociedade”.

 

“Sarar as feridas, construindo o futuro do pas”

 

Francisco é acolhido e saudado pelo venerável Bhaddanta Kumarabhivamsa, presidente do Comitê de Estado Sangha Maha Nayaka – Foto: La Stampa

 

O grande desafio do nosso tempo – continua o Papa –  “é o de ajudar as pessoas a se abrirem ao transcendente”, reconhecendo que “não podemos permanecer isolados uns dos outros”.

Bergoglio cita Buda e são Francisco:

“Se somos chamados a ser unidos, como é nosso propósito, devemos superar todas as formas de incompreensão, de intolerância, de preconceito e de ódio.

Como podemos fazer isso? As palavras do Buda oferecem  a cada um de nós uma orientação:

  • Derrota a raiva com a não-raiva,
  • derrota o mavado com a bondade,
  • derrota o avarento com a generosidade,
  • derrota o mentiroso com a verdade”.

Sentimentos semelhantes exprime a oração atribuída a são Francisco de Assis: “Senhor, faz-me instrumento da tua paz. Onde há ódio que eu leve amor, onde há ofensa que eu leve o perdão… onde há trevas que eu leve a luz, onde há tristeza que eu leve alegria”.

O Papa Francisco espera que “esta sabedoria” possa “continuar a inspirar todos os esforços para promover a paciência e a compreensão, para sarar as feridas dos conflitos que ao longo dos anos dividiram pessoas de diferentes culturas, etnias e convicções religiosas. Tais esforços nunca são apenas prerrogativas dos líderes religiosos, nem de exclusiva competência do Estado. Pelo contrário, é toda a sociedade, todos os que estão presentes no seio da comunidade, que devem compartilhar o trabalho de superação do conflito e da injustiça. No entanto, é responsabilidade particular dos líderes civis e religiosos garantir que todas as vozes sejam escutadas”.

Para fazer isso, é necessária uma “maior cooperação entre líderes religiosos“. E o Papa assegura: “Quero que saibais que a Igreja Católica é um parceiro disponível”. “Possam os budistas e os católicos caminhar juntos por essa senda de cura – é o augúrio final – e trabalhar lado a lado pelo bem de cada habitante desta terra”.

 

Andrea Torniellli

Fonte: http://www.lastampa.it/2017/11/29/vaticaninsider/ita/vaticano/cattolici-e-buddisti-insieme-per-sanare-le-ferite-del-popolo-birmano-Ad02Aw164F10eN2mn6Z1UI/pagina.html

 

 

 

 

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