Uma figura histórica do Tygodnik Powszechny, semanário da intelectualidade católica na Polônia, o padre Adam Boniecki é forçado pela hierarquia a um jejum midiático devido às suas posições consideradas demasiado liberais.
“Hoje na Polônia trava-se uma batalha da cultura: de um lado, os pós-modernistas anti-religiosos e, do outro, os defensores de um catolicismo de combate escorado na defesa da vida e dos valores tradicionais. Aos olhos deste grupo, qualquer gesto de misericórdia para com os homossexuais, como o de Boniecki, é suspeito”.
Tradução: Orlando Almeida
A ordem religiosa do padre Adam Boniecki, um dos principais pensadores da ala liberal do catolicismo polonês, anunciou neste fim de semana que agora ele estava proibido de falar com a mídia.
Trata-se na verdade do restabelecimento de uma medida suspensa em julho passado, que já havia sido imposta durante seis anos ao antigo redator-chefe da revista Tygodnik Powszechny de Cracóvia, que foi íntimo do Papa João Paulo II.
O padre Boniecki, de 83 anos, “redator-chefe sênior” de Tygodnik Powszechny, ainda mantém o direito de continuar a escrever no seu semanário, onde ele critica com frequência o atual poder conservador da Polônia.
Segundo um comunicado dos Padres Marianos da Imaculada Conceição, à qual ele pertence, esta interdição foi decidida devido a certas declarações do religioso “que causaram desorientação em muitos fiéis, especialmente no que diz respeito ao ensino da Igreja em relação ao julgamento moral do suicídio“.
O comunicado também faz referência a uma mensagem publicada numa página Facebook da comunidade LGBT “mostrando indubitavelmente o possível apoio do padre Adam Boniecki às organizações das chamadas minorias sexuais, cuja atividade está em total contradição com o ensinamento moral da ‘Igreja’“.
Vítima de uma “manipulação”
Esta última crítica foi imediatamente rejeitada pela redação de Tygodnik Powszechny em um comunicado. “O padre Adam não publicou nenhuma mensagem nem fez nenhum gesto de apoio, ele foi vítima de uma manipulação” – diz a revista.
“Aproveitaram-se da sua benevolência e do fato de que ele se opôs à discriminação dos homossexuais” – acrescenta Tygodnik Powszechny.
Quanto à questão do suicídio, a congregação reprova ao padre Boniecki o seu sermão quando do sepultamento de um homem que se imolou no mês passado em Varsóvia para protestar contra a política do governo. Nessa ocasião o padre tinha mencionado a possibilidade de salvação para os suicidas, citando o catecismo (§ 2283).
“Uma parte da hierarquia católica não gosta do padre Boniecki” – resume Henryk Wozniakowski, diretor de Znak, um grupo editorial independente próximo dos círculos liberais católicos e da linha defendida pelo Tygodnik Powszechny, que está de passagem pela França para as Semanas Sociais. “Hoje na Polônia trava-se uma batalha da cultura: de um lado, os pós-modernistas anti-religiosos e, do outro, os defensores de um catolicismo de combate escorado na defesa da vida e dos valores tradicionais. Aos olhos deste grupo, qualquer gesto de misericórdia para com os homossexuais, como o de Boniecki, é suspeito“.
Neste contexto polarizado, a captação do legado de João Paulo II é uma questão importante. “Dos mais liberais aos mais conservadores, todos pretendem ser herdeiros de João Paulo II!” – continua Henryk Wozniakowski.
Pe. Adam Boniecki – de barba. E o Jornal Tygodnik Powszechny – Foto: Twitter
Um visitante noturno chamado Wojtyla
Fundado em 1945 pelo cardeal Sapieha, arcebispo de Cracóvia, o Tygodnik Powszechny (o “semanário universal” em polonês) tinha recebido desde 1946 contribuições do jovem Karol Wojtyla, padre enviado para uma longa estadia de descoberta através da França e da Bélgica.
Forçado a fechar, o jornal reaparece no final da década de 1950, beneficiado por um acordo tácito entre a Igreja e as autoridades comunistas. É nessa época que o padre Adam Boniecki aí faz sua estreia nele. Entre os visitantes noturnos da redação, está o jovem cardeal Wojtyla, com as mangas arregaçadas, o solidéu enfiado no bolso, que os informa sobre as discussões do Concílio Vaticano II do qual ele participa em Roma e que porá em prática após se tornar Papa.
Aos 83 anos, o padre Adam Boniecki recebe sempre bem os seus visitantes, notadamente jornalistas poloneses e estrangeiros, nas antigas instalações do jornal: piso velho, sofás de couro danificados, fotos em preto e branco de antigos colaboradores… Consciente da batalha que se trava na Igreja e na sociedade polonesa em torno do legado de João Paulo II, ele confidenciava em 2011, pouco antes da sua beatificação: “Estamos vivendo um momento decisivo. Quem será João Paulo II amanhã para os poloneses? Um monumento a mais na grande galeria amanhã história nacional ou uma referência espiritual capaz de mudar as vidas deles?”
Samuel Lieven


