Frei Bento Domingues – 12 de Novembro de 2017
Imagem – Capa do livro: Descer da Cruz os Pobres – EP
João XXIII …não escreveu nenhuma linha da teologia da libertação, mas começou, nesse momento, a libertação da Igreja e a libertação da teologia no mundo actual.
Lembro isto porque estamos confrontados com vários movimentos organizados para que a orientação da Igreja católica regresse aos tempos anteriores ao prodigioso Vaticano II.
Não toleram que o Papa Francisco, depois de um longo inverno, retome a primavera de João XXIII.
1. O séc. XX, quando se observam as persistentes lutas da teologia católica que o percorreram, mostrou que não conseguiu conviver com a herança autoritária do séc. XIX, traçada por
- Pio IX,
- pelo Vaticano I
- e pela enigmática infalibilidade pontifícia.
Não vingou a ideia dos que julgavam que, a partir daquele momento, as expressões da fé ficavam adequadamente formuladas para enfrentar os tempos modernos. Os concílios eclesiásticos deixavam de ter razão de ser e os teólogos podiam ir para férias.
Não se deve esquecer que a primeira metade do séc. XX foi constituída por um dos tempos mais inovadores sob o ponto de vista teológico. Essa inovação foi o fruto
- das novas formas de exegese bíblica,
- de redescobertas dos Padres da Igreja,
- da análise da história dos concílios ecuménicos,
- das formas desconhecidas da liturgia,
em suma, do encontro com os testemunhos das fontes mais genuínas e muito ignoradas dos diversos percursos da fé cristã. Não eram visitas guiadas a um museu de antiguidades mortas. A descoberta da pluralidade viva e turbulenta do passado abria o caminho a novas experiências e movimentos.
As experiências ecuménicas, missionárias, pastorais e as do encontro com um mundo no qual as Igrejas já não mandavam, obrigaram a inteligência da fé a tornar-se mais interrogativa, mais inquieta, mais agitada pelas convulsões de duas grandes guerras mundiais. A teologia
- tinha de abandonar o mundo das abstracções
- e descer ao concreto, às realidades terrestres, humanas.
- As terras de missão já não ficavam longe.
Mas a cegueira ideológica dos grandes senhores das instituições da Igreja, salvo fantásticas excepções, preferia condenar a dialogar.

2. Depois de tantas condenações romanas que atingiram
- os movimentos,
- as experiências inovadoras
- e os teólogos mais criativos
- e, quando muitos católicos pensavam que já não havia esperança na renovação da Igreja,
- foi eleito Papa, a 28 de Outubro de 1959, um homem nascido em 1881.
Chamava-se Angello Roncalli. Depois da surpresa geral, julgou-se que era uma saída de emergência até se encontrar um guia seguro para tempos difíceis e complexos.
De facto, João XXIII conhecia
- muitos mundos,
- as peripécias internas da Igreja dos séculos XIX e XX
- e as suas dificuldades de relacionamento com o mundo contemporâneo.
Não se apresentou com nenhum programa salvador. Ao fazer a barba, lembrou-se de convocar um concílio ecuménico, como gostava de dizer para ocultar a sua divina clarividência.
Não escreveu nenhuma linha da teologia da libertação, mas começou, nesse momento, a libertação da Igreja e a libertação da teologia no mundo actual. Lembro isto porque estamos confrontados com vários movimentos organizados para que a orientação da Igreja católica regresse aos tempos anteriores ao prodigioso Vaticano II.
Também são activos em Portugal e, nomeadamente, em Fátima. Não toleram que o Papa Francisco, depois de um longo inverno, retome a primavera de João XXIII.
Imagem: http://slideplayer.com.br
3. Estão a ser celebrados os 50 anos da Universidade Católica e da sua Faculdade de Teologia. Os meus parabéns!
Uma qualificada representação deslocou-se à Sé de Pedro.
O Papa respondeu (veja o discurso integral) à saudação do Grão-Chanceler, cardeal Manuel Clemente, com uma incisiva interpelação e um apelo que nascem de uma interrogação que deve obrigar, professores e alunos, a um exame sério acerca da orientação que estão a seguir.
- Que procuram?
- Uma carreira
- ou uma maior capacidade de servir os mais pobres? [1]
“É justo que nos interroguemos: Como ajudamos os nossos alunos a não olhar um grau universitário como sinónimo de maior posição, sinónimo de mais dinheiro ou maior prestígio social? Não são sinónimos. Ajudamos a ver esta preparação como sinal de maior responsabilidade perante os problemas de hoje, perante o cuidado do mais pobre, perante o cuidado do meio ambiente? Não basta realizar análises, descrições da realidade; é necessário gerar espaços de verdadeira pesquisa, debates que gerem alternativas para os problemas de hoje. Como é necessário descer ao concreto!”
O Papa, na sua intervenção, parece que tem a obsessão de voltar sempre ao concreto:
“Queria aqui lembrar o princípio da encarnação na pele do nosso povo. As suas perguntas ajudam-nos a questionar-nos; as suas batalhas, sonhos e preocupações possuem um valor hermenêutico que não podemos ignorar, se quisermos deveras levar a cabo o princípio da encarnação. O nosso Deus escolheu este caminho: encarnou-Se neste mundo, atravessado por conflitos, injustiças e violências, atravessado por esperanças e sonhos. Por conseguinte
- não temos outro lugar onde O procurar
- a não ser no nosso mundo concreto,
- no vosso Portugal concreto,
- nas vossas cidades e aldeias,
- no vosso povo”.
É aí que Ele está a salvar.
Bergoglio não se esqueceu de uma interrogação ainda mais global:
- para que existe a Universidade Católica?
- Que interesses serve?
“Por natureza e missão, sois universidade, isto é, abraçais o universo do saber no seu significado humano e divino, para garantir aquele olhar de universalidade sem o qual a razão, resignada com modelos parciais, renuncia à sua aspiração mais alta: a de buscar a verdade. À vista da grandeza do seu saber e do seu poder, a razão cede perante
- a pressão dos interesses
- e a atracção da utilidade,
- acabando por a reconhecer como seu último critério.
Mas, quando o ser humano se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, então a sua liberdade adoece. ‘Neste sentido, ele está nu e exposto frente ao seu próprio poder que continua a crescer, sem ter os instrumentos para o controlar. Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro dum lúcido domínio de si [2]’”.
A teologia académica, em Portugal, não teve os problemas que enunciei no começo desta crónica. Esteve em jejum desde 1911 até 1968. Mas não é tudo. Voltarei a esta questão
[1] Discurso do Papa Francisco à comunidade da Universidade Católica Portuguesa por ocasião do 50º aniversário da sua instituição.
[2] Francisco, Laudato si’, 105

