Onde estarei, quando deixar de existir?

Anselmo Borges 20/10/2017

Imagem: da internet

“Vive-se numa sociedade da produção e do consumo, do êxito, do hedonismo, uma sociedade tecnocrática, poderosíssima nos meios mas paupérrima nas finalidades humanas, posta em causa precisamente pela morte.

 A morte não deixou, portanto, de ser problema; pelo contrário, de tal modo é problema, o único problema para o qual este tipo de sociedade não tem solução, que a única solução é ignorá-la, como se não existisse.”

 

1  A pergunta do título é feita, textualmente, por Ivan Ilitch, nas vésperas de morrer. Uma pergunta de abismo e de calafrio, que abala até à raiz do ser, terrível e lancinante.

Há muitos anos, tinha lido A Morte de Ivan Ilitch, uma das obras-primas de Tolstoi, pequena em volume, mas imensa em humanidade: vai até aos abismos da nossa condição. Recentemente, o livrinho vinha acoplado, gratuitamente, a uma revista. E reli.

E lá está a pergunta, que retomo, para algumas reflexões, em vésperas do Dia de Todos os Santos e do Dia dos Finados (1 e 2 de Novembro), os dias em que as nossas sociedades, que fizeram da morte tabu – disso não se fala – permitem alguma abertura à pergunta que está na raiz de todas as perguntas: onde é que eu estarei, quando já cá não estiver?

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Ivan Ilitch, o conselheiro do Supremo Tribunal, sabia que ia morrer e estava apavorado, desesperado.

“No fundo da sua alma,

  • estava bem certo de que ia morrer
  • mas não só era incapaz de se afazer a essa ideia,
  • não a compreendia sequer, era incapaz de a compreender.”

Ele também tinha estudado lógica e lá estava um exemplo de silogismo: todos os homens são mortais, Caio é homem, logo Caio é mortal. Isso era evidente. Mas Caio era um homem em geral e, claro, tinha de morrer, era natural que morresse. Ivan Ilitch, porém, não era Caio, era ele mesmo, único, irrepetível.

E estava perante o abismo sem fundo do incompreensível. Como compreender que morresse? Era simplesmente horrível, apavorante, paralisante, incompreensível. Impossível. Tentava, pois, escorraçar aquela ideia, “como coisa falsa, anormal, doentia, tentando substituí-la por outras ideias, normais e sãs”. E, contudo, era assim mesmo: ia morrer. Essa realidade bruta erguia-se, impenetrável e certa, diante dele.

Ivan Ilitch tinha um tormento maior, que consistia na mentira, admitida por todos:

  • afinal, ele apenas estava doente
  • e não era um moribundo.
  • Mas ele sabia bem que o esperavam sofrimentos terríveis e a morte.

Essa mentira atormentava-o e sofria por não quererem admitir a realidade bruta, tendo ele próprio de participar naquela intrujice.

“A mentira que cometiam para com ele nas vésperas da sua morte, essa mentira que rebaixava o acto formidável e solene da sua morte até ao nível das suas visitas, dos seus jantares, era atrozmente penosa a Ivan Ilitch. E, coisa estranha! Esteve muitas vezes quase a gritar-lhes, quando eles exibiam à volta deles as suas histórias da carochinha:

“Basta de mentiras! Bem sabeis e eu bem sei que vou morrer! Acabem ao menos com essas mentiras!”

Mas nunca teve coragem de agir assim. O acto atroz da sua agonia era rebaixado pelos que o rodeavam, bem o via, ao nível de um simples dissabor.” Aliás, outros pensamentos ocupavam agora alguns colegas: o aborrecimento de terem de ir ao funeral, mas, com a morte dele, também poderia estar mais próxima a sua promoção e a dos amigos, tinham sobretudo um sentimento de alegria: era ele que estava a morrer e não eles.

Ivan Ilitch, esse, gemia de angústia, porque os dias e sobretudo as noites eram intermináveis:

“Se isto pudesse acabar mais depressa. Mais depressa? O quê? A morte, as trevas!… Não, não! Tudo é melhor do que a morte!”

E chorava e gritava por causa da sua situação, “pela horrível solidão, pela crueldade dos homens, pela crueldade de Deus, que o tinha abandonado”

Imagem: Xaluan

 

Philippe Ariès chamou a atenção para o facto de esta obra de Tolstoi ser dos primeiros avisos de que estava a caminho a “mentira” sobre o morrer e a morte. Na atitude tradicional,

  • a morte era natural e quase familiar,
  • mas, entretanto, ela tornou-se tabu, o último tabu.
  • Não é de bom tom referir-se-lhe. Disso pura e simplesmente não se fala.
  • O próprio luto é ocultado.

O que se passou? Evidentemente,

  • a “morte” de Deus
  • e a desafeição pela religião
  • deixaram as pessoas no desamparo.

Vive-se numa sociedade da produção e do consumo, do êxito, do hedonismo, uma sociedade tecnocrática, poderosíssima nos meios mas paupérrima nas finalidades humanas, posta em causa precisamente pela morte.

A morte não deixou, portanto, de ser problema; pelo contrário,

  • de tal modo é problema, o único problema para o qual este tipo de sociedade não tem solução,
  • que a única solução é ignorá-la, como se não existisse.

Vive-se então

  • na banalidade rasante,
  • na superfície de uma existência agitada e fragmentada,
  • na vertigem do tsunami (des)informativo
  • e na busca do êxito a qualquer preço
  • e no espectáculo indecoroso de um poder interesseiro,

sem atenção ao essencial e decisivo, ignorando os outros, numa solidão atroz.

Não sou de modo nenhum partidário do pensamento mórbido sobre a morte, que foi muitas vezes utilizada, também pela Igreja, para dominar e tolher a vida. Mas estou convicto de que, sem o pensamento são da morte, se perde o essencial. Porque é ele que obriga a distinguir, como sublinhou M. Heidegger, entre

  • a existência autêntica e a existência inautêntica,
  • entre o justo e o injusto,
  • entre o que verdadeiramente vale e o que realmente não vale,
  • e a abater tanta vaidade ridícula e a pouca-vergonha.

Esse pensamento não envenena a vida, pelo contrário, leva a viver digna e intensamente cada momento e a abrir-se aos outros. Já perto da morte, o filósofo H. Marcuse voltou-se para o amigo, também filósofo, J. Habermas:

“Sabes, Jürgen? Agora sei onde se baseiam os nossos sentimentos morais: na compaixão.”

A curto, a médio, a longo prazo, todos iremos estando mortos. Com a morte, acaba tudo? É tão próprio do ser humano saber da sua morte como esperar para lá dela. Para a eternidade vamos:

  • a eternidade do nada
  • ou a eternidade da vida plena em Deus.

É razoável esperar e confiar em Deus, e a razão está em que, no próprio acto de confiar, se mostra a razoabilidade desse acto, porque então, contra o absurdo, o mundo e a existência encontram sentido, sentido último, a salvação.

 

 

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Anselmo Borges

Padre e Professor de Filosofia

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/onde-estarei-quando-deixar-de-existir-8875673.html

 

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