Maria de Magdala

Marinella Perroni – 02/10/2017 – Foto:reprodução

Tradução: Orlando Almeida

Na ponta dos pés e com pequenos passos: nestes anos Maria de Magdala recuperou um pouco de terreno também na Igreja do Ocidente. Foi João Paulo II que, na homilia de um domingo de Páscoa, proclamou ao mundo que foi ela a primeira testemunha do ressuscitado.

E, por fim, esta proclamação foi ecoada pela imprensa, tornou-se notícia, parecia a descoberta do século. Poucos se perguntaram por que razão foram necessários séculos e séculos, para que o que foi narrado no Evangelho de João há quase dois mil anos fosse recebido como tinha sido escrito.

 

Mas não importa, agora a brecha tinha sido aberta. Depois o papa Francisco decretou que a celebração de Maria de Magdala fosse elevada de memória obrigatória para festa litúrgica, e desde há dois anos, na missa de 22 de julho, usa-se o próprio dos apóstolos. Testemunha, apóstola.

Parecem finalmente arquivados todos aqueles instantâneos que a impressionante produção iconográfica ocidental, assim como tanta literatura e, recentemente, também tanta cinematografia, contribuíram para fixar no imaginário de gerações de cristãos, fazendo-os fantasiar sobre a sua sensualidade de prostituta, de amante e de mulher.

Depois de tantas lendas, Maria foi finalmente restituída à sobriedade das narrativas evangélicas. Já de há tempos, estudiosas e estudiosos tinham tentado fazê-lo, mas era necessária a autoridade de dois Pontífices para começar a purificar a memória da Igreja latina.

Diferente das Igrejas Orientais que, desde sempre, no terceiro domingo depois da Páscoa, celebram a festa das ‘miróforas’ [lit., portadoras de mirra],  isto é, daquele pequeno grupo de mulheres lideradas por Maria de Magdala que, levando a mirra para ungir o corpo do mestre morto, vão ao sepulcro e são as primeiras a receber o anúncio da ressurreição.

Para a Igreja do Ocidente, ao contrário, era necessário superar um equívoco que, durante mil e quinhentos anos, marcou profundamente a história da espiritualidade, especialmente das mulheres. Um equívoco que vem de muito longe, do sucesso de uma homilia de São Gregório Magno, na qual, de três mulheres evangélicas, se faz uma única “Maria”.

Para o grande Papa,

  • a pecadora anônima do evangelho de Lucas que lava os pés de Jesus com as suas lágrimas (7, 36-50),
  • Maria de Betânia que, de acordo com João, unge profeticamente a cabeça do mestre na noite da traição (Jo 12, 1-8)
  • e aquela Maria de quem o mestre recusa o abraço na manhã de Páscoa (Jo 20, 11-18)

coincidem e criam assim o protótipo a mulher seguidora de Cristo, 

  • da prostituta penitente,
  • da filha de Eva finalmente resgatada do pecado que toda a mulher, pelo simples fato de ser mulher, introduz no mundo e na história.

O binômio Eva-Maddalena, por outro lado, tem raízes antiquíssimas porque já está presente em antigos escritores cristãos como

  • Hipólito,
  • em Padres de tradição grega como Gregório de Nisa
  • ou, mais tarde, de tradição latina como Hilário de Poitiers
  • ou Ambrósio.

Desde os primeiros séculos, todos os grandes Padres se interrogaram sobre esta figura, especialmente porque era muito difícil para eles aceitar que o ressuscitado tivesse querido reservar uma aparição individual exatamente para ela: de fato nenhum evangelista relata uma aparição a Pedro, embora haja um eco disso no final da narrativa dos dois discípulos de Emaús (Lucas 24: 34).

Ao contrário, da sua experiência da ressurreição fala-se amplamente nos quatro evangelhos.

  • No de Marcos, que contém o mais antigo relato da paixão, e nos outros dois sinóticos, Maria está junto à cruz
  • (Marcos 15, 40-41; Mateus 27, 55-56; Lucas 23,49), no sepultamento (Marcos 15, 47;
  • Mateus 27,61, Lucas 23,55-56) e, na manhã de Páscoa, no túmulo vazio onde as discípulas galileias recebem o primeiro anúncio da ressurreição (Marcos 16: 1-8; Mateus 28: 1-10; Lucas 24: 1-11).
  • No mais recente dos Evangelhos, o de João, Maria está junto à cruz (19, 25) e, sobretudo, é a destinatária da única aparição individual do ressuscitado (20, 1-2.11-18).
  • E não se pode esquecer que Lucas a menciona ao lado dos Doze e como líder do pequeno grupo de discípulas que seguem Jesus durante o seu ministério na Galileia (8, 1-3).

Imagem: Reprodução

 

Paulo, ao contrário, embora para ele a história do Galileu se concentre toda nos acontecimentos da Páscoa, parece não saber nada sobre esta testemunha da ressurreição. Aliás, é precisamente Paulo que serve de caixa de ressonância para uma antiga fórmula de fé em que Maria e as outras discípulas da Galileia são eliminadas da lista de testemunhas da ressurreição: na origem do kèrygma pascal haveria apenas um número crescente de discípulos a quem o ressuscitado apareceu, todos rigorosamente homens (1 Coríntios 15: 3-7).

Em suma, a deformação da memória começa muito cedo e, infelizmente, de pouco servirá a recuperação das antigas tradições narrativas dos acontecimentos da Páscoa, por parte dos quatro evangelistas que insistem no protagonismo das discípulas.

Ao contrário, é precisamente dos relatos evangélicos que devem partir as ações de resgate da memória. Porque Jesus de Nazaré não pode ser reduzido a um dos muitos mitos soteriológicos que acompanharam os últimos tempos

  • de um império que estava caindo aos pedaços,
  • nem de uma poderosa ideologia que permite que esse império se recomponha numa nova unidade.

Jesus é “nascido de mulher”, e como fundamento de toda a reflexão cristológica deve ser colocada a pergunta dos seus compatriotas: “Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua  mãe? “(João 6: 42).

A mesma coisa vale para os seus discípulos e as suas discípulas que

  • não são todos figuras literárias,
  • personagens fictícios que povoam pequenos contos míticos sobre um profeta carismático,
  • mas são homens e mulheres que acreditaram nele quando chamava Israel inteiro a reunir-se – porque o Reino já estava tão perto que já se tornara presente –
  • homens e mulheres que se puseram a  segui-lo
  • e, depois da sua morte, acreditaram que o Pai o ressuscitara dos mortos.

Em suma, os discípulos e as discípulas viveram concretamente

  • a difícil transição que vai do discipulado do nazareno ao seguimento do ressuscitado,
  • e é precisamente aqui, nesta passagem, que Maria Madalena desempenha um papel decisivo.

O testemunho dos evangelistas é, a este respeito, inequívoco. Então, é somente a partir dos textos que se torna possível

  • reconstruir a imagem autêntica,
  • livre de séculos de mal-entendidos e de manipulações,
  • da discípula Maria, testemunha e apóstola.

Se os quatro evangelistas canônicos

  • concordam em reconhecer a Maria um papel de destaque na gênese da fé pascal,
  • também é verdade que os sinóticos e João modulam este dado histórico servindo-se de registros teológicos diferentes.

Como demonstração da criatividade com que foi conservada e transmitida a memória desta discípula e, portanto, do valor fundante que teve para a constituição das várias Igrejas proto-cristãs.

A tradição sinótica, embora com diferentes nuances, atribui à figura de Maria e das outras discípulas galileias um claro caráter querigmático: estas mulheres estão estreitamente ligadas ao anúncio cristão e à sua difusão,

  • primeiro como testemunhas da morte, do sepultamento e da aventura da ressurreição,
  • depois como primeiras destinatárias do anúncio pascal
  • e, depois ainda, por sua vez, como mensageiras da boa nova.

Não pode causar surpresa que, dentro de duas culturas patriarcais como a judaica e a greco-romana, o seu protagonismo tenha sido cautelosamente diluído sob pretexto da descrença por parte dos discípulos (Marcos 16:11, Lucas 24:11).

Na verdade, esse protagonismo foi ao contrário reforçado. Com efeito, se nenhuma preocupação apologética foi capaz de eliminá-lo dos relatos pascais, isso é uma nova prova das suas raízes nas tradições históricas mais antigas: a pouco tempo de distância dos acontecimentos, quem poderia silenciar sobre detalhes que deveriam ser, obviamente, de domínio público?

De fato, se na segunda conclusão do Evangelho de Marcos, acrescentada depois, o motivo da aparição da ressuscitado a Maria de Magdala é retomado, isso não faz senão confirmar como era importante para as igrejas nascentes preservar a memória desta discípula como líder do grupo de mulheres que seguiam e serviam a Jesus.

Mas é sobretudo o evangelho de João que delineia com grande força o perfil  apostólico de Maria de Magdala. Na verdade, dentro da narrativa de João são precisamente as figuras femininas –

  • a mulher de Samaria,
  • Marta,
  • Maria de Betânia
  • e Maria de Magdala,
  • e por duas vezes, a mãe de Jesus –

que desempenham um papel decisivo.

Essa estratégia narrativa, que mostra a intervenção das personagens femininas em momentos cruciais para a revelação de Deus por parte de  Jesus,

  • não pode ser casual
  • e é, portanto, cabível pensar que, nas comunidades fundadas por João, as mulheres crentes  fossem particularmente importantes no que diz respeito à elaboração da fé cristológica.

Absolutamente em conformidade com o resto do evangelho, o protagonismo pascal de Maria de Magdala não pode portanto surpreender.

Deveria ser dado maior destaque

  • à presença de Maria de Magdala junto à cruz,
  • ao lado de Maria de Nazaré e do discípulo amado,
  • como testemunha da cena da “entrega”,
  • a partir da qual tem início a vida comunitária daqueles que acreditam no ressuscitado.

Junto à cruz, a discípula galileia, em silêncio, é testemunha da última vontade de Jesus em relação à nova comunidade discipular:

  • a comunidade do discípulo amado deve acolher consigo Maria,
  • isto é, deve permanecer fiel à encarnação, aceitando que aquele que foi exaltado é aquele que nasceu de mulher (19, 25-27).

Para João, a participação de Madalena na morte de Jesus

  • não tem, portanto, o valor de testemunho ocular, como para os sinóticos,
  • mas é antes propedêutica para a investidura apostólica que ela receberá “no primeiro dia da semana” no jardim onde José de Arimateia e Nicodemos tinham sepultado o corpo de Jesus (19, 38-42).

De fato, pouco depois, nesse jardim da sepultura,

  • será ela a primeira que deverá aceitar não ficar presa à lembrança do mestre morto,
  • e sim tornar-se discípula daquele que já  então ascendera ao Pai.

Para Maria, a experiência do ressuscitado implicará

  • a passagem de um conhecimento para o outro,
  • do conhecimento do mestre para o conhecimento do ressuscitado,
  • e ela será investida na missão de anunciar aos discípulos a qualidade totalmente nova da relação que a exaltação de Jesus estabeleceu seja entre o ressuscitado e os seus discípulos, seja dos discípulos entre si (20: 17-18).

Maria de Magdala, em suma, incorpora a síntese da cristologia de João, tão fortemente caracterizada pela polaridade encarnação-exaltação.

Então a pergunta que se faz necessária é: a que se deve a amnésia que levou a tradição subsequente a

  • fazer deslizar Maria de Magdala da história de Jesus e da sua comunidade discipular, antes e depois da Páscoa,
  • para uma sucessão de infinitas lendas que,
  • embora preservando a sua lembrança,
  • a alteraram
  • e a tornaram insignificante para a história da grande Igreja?

Até mesmo um simples relance de olhos, às chamadas tradições apócrifas, basta para perceber que, dentro de algumas comunidades marginais, o papel desta mulher era reconhecido e respeitado. De fato, até na tradição da grande Igreja se levantaram, de vez em quando, algumas vozes que destacaram a importância de Maria Madalena.

Basta lembrar as palavras de Rábano Mauro quando afirma que Cristo escolheu Maria de Magdala

“apóstola da sua ascensão, premiando com uma digna recompensa de graça e de glória e com privilégio de honra aquela que por seus méritos era dignamente a guia de todas as suas cooperadoras, aquela que Ele pouco antes tinha instituído como evangelista da ressurreição”.

Mas a voz desse abade de Fulda e arcebispo de Mogúncia [Mainz] dos inícios do século IX permaneceu, como a de muitos outros, apenas uma voz marginal. Só podemos esperar que não aconteça a mesma coisa com dois papas como João Paulo II e Francisco que restituíram à Igreja latina

  • a Maria  de Magdala evangélica,
  • discípula de Jesus,
  • testemunha da ressurreição
  • e, portanto, como a definiu o Papa Francisco na catequese de 17 de maio de 2017, “a apóstola da nova e maior esperança”.

 

Marinella Perroni

 Ensina Novo Testamento no Pontifício Ateneu de Santo Anselmo em Roma, Professora convidada na Faculdade de Teologia Marianum.  Fundou a Coordenação das teólogas italianas (2003), que presidiu de 2004 a 2013. É vice-presidente e membro do Comitê Científico da Bíblia.

Publicações recentes: Le donne di Galilea. Presenze femminili nella prima comunità cristiana (Edb, 2015), Maria di Magdala. Una genealogia apostolica (con Cristina Simonelli, Aracne, 2016), etc. 

Fonte: http://www.osservatoreromano.va/it/news/maria-di-magdala

 

 

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