Andrea Grillo –11/10/17 blog: Come se non
Depois do Motu Proprio Magnum Principium, uma reflexão sobre o valor das “línguas populares” torna-se não só possível, mas necessária. A tradução é novamente reconhecida como condição da tradição.
Nesta brilhante intervenção, o historiador e teólogo Ubaldo Cortoni, monge camaldolense e professor do Pontifício Ateneu de S. Anselmo, relê com grande capacidade de síntese a importância do recente documento à luz da história moderna e medieval. E uma citação de Anselmo sela uma reflexão sobre a mudança de direção que o papa Francisco soube imprimir à tradição, canonizando um linguista jesuíta.
Tradução: Orlando Almeida
O “grego da Terra” ou quando um papa canoniza um linguista
por UBALDO CORTONI (foto: settimananews.it)
É verdadeiramente singular descobrir que ainda hoje se possa tomar partido por uma pequena tradição com “t” minúsculo, tal como o “s” daquela ‘storia’ [história] com a qual alguns se entretêm, firmemente ancorada numa theologia perennis, “igual em todos os lugares, em todos os tempos e para todos os homens”, que Jürgen Moltmann desmascara recorrendo ao ensaísta e linguista francês George Steiner1, para o qual toda a transmissão é uma tradução, cuja tarefa é a de tornar insolitamente familiar a um destinatário, muitas vezes culturalmente distante, um conteúdo que antes lhe era estranho.
Obviamente ser-me-á objetado que
- com a tradução muito do original corre o risco de perder-se,
- mas creio que seja mais arriscado perder completamente a oportunidade de comunicar, transmitir
- e assim permitir à Verdade, formulada inevitavelmente segundo os cânones de uma cultura,
- deparar-se com as verdades de outras culturas, para depois encontrá-las.
Não há dúvida de que a tradução permitiu à igreja crescer e radicar-se nos Novos Mundos.
Um exemplo por todos, o problema enfrentado pelos jesuítas no século XVI com a evangelização do litoral do Brasil por meio de
“uma tradução eficaz da mensagem evangélica e das suas categorias linguísticas (ocidentais), mas também da cultura (linguística) indígena que deveria permitir transmiti-la, com o menor número de mal-entendidos, junto às culturas indígenas americanas”2.
Daí surgiu a “língua geral da costa” ou o “grego da terra”, que na intenção daqueles que o codificaram deveria ajudar aquelas populações a apropriar-se de categorias filosóficas, teológicas e políticas desconhecidas para elas, mas que na realidade deu origem a uma cultura que faria uma releitura da tradição ocidental através das categorias que já possuíam. A gramática da língua tupi foi elaborada em 1595 por José de Anchieta, o apóstolo do Brasil, o primeiro jesuíta espanhol canonizado pelo papa Francisco, um missionário e linguista, que escrevia ao mesmo tempo em
- português,
- castelhano,
- latim
- e tupi.
Estátua do Pe. Anchieta em S. Paulo – TripAdvisor
Uma Babel bendita, quando o pentecostes das línguas permite uma teologia em tradução para uma igreja em transição, como era aquela depois da descoberta das Américas: uma igreja que
- pensava ter alcançado os confins do mundo,
- e teria por isso cumprido há muito tempo a sua tarefa,
- e que ao contrário, ao final de um século (12 de outubro de 1492), que ainda assim marcaria a história desses mundos,
- se via na situação de ter de começar de novo,
- levando o anúncio do Evangelho a uma humanidade não apenas desconhecida por ela, mas completamente ignorada.
Mas indo ainda mais para trás no tempo é com a celebração do sínodo de Veneza, que, mesmo que fosse apenas uma invenção do hagiógrafo de São Cirilo,
- representaria uma das primeiras tentativas de defender o uso da língua de um povo na liturgia
- em oposição ao enrijecimento da igreja carolíngia sobre as línguas do Titulus crucis, isto é, das línguas que compunham a inscrição colocada acima da cabeça do Crucificado: latim, grego e hebraico, que na época de Jesus não eram senão a língua da administração, da koiné e do povo.
Dentro desta história, José de Anchieta não é senão um dos últimos daqueles apóstolos que, do séc. VIII ao XI, levaram o anúncio do Evangelho encontrando culturas e tradições através das suas línguas, escritas e não.
Também esta é Tradição, e creio que é nesta direção que se move o Motu proprio Magnum Principium do Papa Francisco,
para que novos mundos possam ainda e sempre se aproximar daquela Verdade, que – embora permanecendo a mesma – aceita comprometer-se com a linguagem, porque o mistério não está na forma que uma tradição pode assumir, mas em narrar ao mundo o mistério da dispensatio Christi, ou, se se prefere, da economia salvífica, que chega à vida dos crentes através da linguagem litúrgica e que talvez hoje represente a última forma de evangelização do Ocidente, pois que a humanidade que se vislumbra no horizonte representa esses novos mundos.
Confiar às conferências episcopais a tarefa de promover e joeirar as traduções significa
- reconhecer o valor imprescindível das culturas em que a igreja está enraizada
- e, ao mesmo tempo, avalizar um seu novo impulso missionário.
Uma nota prudencial da igreja medieval, com a qual muitos identificam certa tradição, era
- a de indicar, ao lado da Escritura e dos textos dos Padres,
- também uma regula fidei,
- da qual entretanto relutava em definir o conteúdo específico, sem prejuízo da fé na cristologia calcedonense (cf. os estudos Jean Leclercq sobre a cristologia na Idade Média monástica),
- pelo simples fato de que cada igreja, por ser particular – especialmente numa estrutura sinodal como a da alta Idade Média (cf. o estudo de Yves Congar, de 1968, sobre a eclesiologia da alta Idade Média) – deveria responder, de tempos em tempos, às problemáticas que diziam respeito àquele específico povo de Deus.

José de Anchieta numa gravura do fim do séc. XVI – www.settimana.news.it
Para tornar a ideia mais simples, mas certamente não menos controversa, há a tentativa do dominicano Yves Congar de falar de Tradição e de Tradições, devolvendo ao leitor a imagem de uma igreja que, como um corpo vivo,
- assume as características específicas da latitude em que nasce, cresce e se radica,
- sem por isso perder qualquer traço específico do ser pessoa ou do ser igreja (a dimensão da missão tornou a pôr em discussão muitas certezas da Igreja europeia).
Mas, com toda a probabilidade, a theologia perennis, da qual depende também certa visão da tradição,
- afunda as suas raízes num equívoco nascido com a recuperação tridentina da abordagem teológica de Gregório VII e Inocêncio III;
- este equívoco nasce dentro de uma igreja, a dos renascimentos carolíngio, otoniano e gregoriano, que confunde unidade e uniformitas (uniformidade – ndr), esta última garantia de univocidade que deveria ditar as condições de pertencimento à igreja.
Exemplificativa deste processo é a troca de cartas entre
- Anselmo de Aosta [também conhecido como Anselmo de Cantuária – ndt]
- e Warlam bispo de Naumburg:
este último lamentava com Anselmo o fato de que
“sobre os sacramentos da Igreja,
- um acha a Palestina,
- outro a Armênia,
- outro a nossa [liturgia] Romana, e a Gália Tripartida;
também o mistério do corpo do Senhor, considera-o
- diversamente a [liturgia] Romana,
- diversamente a Galicana
- e de modo diversíssimo a nossa Alemanha”.
Anselmo defende a diversidade na administração dos sacramentos, antepondo à uniformidade a unidade:
“você se queixa dos sacramentos da igreja, uma vez que
- não são celebrados em todos os lugares de uma única maneira,
- mas são administrados de diversas maneiras em lugares diferentes.
- Certamente, se em toda a Igreja fossem celebrados de uma única maneira e concordemente, seria uma coisa boa e louvável.
Mas já que existem muitas diferenças, as quais
- não diferem por substância do sacramento,
- nem por seu poder nem pela fé;
- e nem todas podem ser recolhidas num único costume:
penso que
- devem ser toleradas concordemente na paz,
- em vez de condenadas em desacordo com escândalo.
De fato, dos santos Padres temos que,
- se se conserva unidade na fé católica,
- um costume diferente a nada se opõe.
Se depois se pergunta de onde nasceram estas variedades de hábito: não entendo outra coisa senão que [nasceram] de diferenças das sensibilidades humanas. As quais
- embora não discordem quanto à realidade e ao poder da coisa,
- não concordam entretanto quanto à aptidão e decoro em administrá-los.
Na realidade o que um julga mais adequado, outro muitas vezes o julga menos adequado, e não penso que desvie da verdade da mesma realidade o não concordar em tais diferenças”.
Se por sensibilidades humanas entendemos
- as culturas que o anúncio do Evangelho encontra
- e as modalidades com que o rito restaura e organiza a fé dos crentes “per ritus et preces”,
então nunca se poderá dizer que este processo está concluído, com as sociedades mudando e reorganizando-se em torno de linguagens novas e muitas vezes surpreendentes.
As últimas palavras de Anselmo são magistrais e relembram à igreja um princípio de unidade que supera o nível da ideia:
- pode-se até não concordar com certa prática porque está distante da sensibilidade de certa cultura,
- mas nem por isso uma igreja deve sentir-se dividida por outra experiência eclesial, quando “per ritus et preces”, embora de modo diferente, se faz experiência da mesma fé.
Para Anselmo, como para boa parte dos teólogos medievais, dialéticos ou não,
- os sacramentos são um instrumento para que a igreja possa conduzir os seus fiéis ao “sábado eterno”
- e, por isso, devem comunicar, em todos os sentidos e com todos os sentidos, o ser nova criatura.
Tudo isso apenas no século XI.
Pergunto-me então
- como viver a Tradição sinal de unidade,
- mais do que pensá-la e impô-la como garantia de uniformidade?
Pareceu-me útil recorrer a um estranho tempo verbal, um “tempo não-definido”, capaz de
- fazer com que a igreja e as tradições se tornem plásticas,
- não para tomar formas sempre novas,
- mas para aderir ao tempo em que vive,
- para conferir a ele certa contemporaneidade,
- e ser assim interpretável e traduzível;
pensei em um tempo da narração: o aoristo.
Para aqueles que não têm prática da língua grega, o que não é nenhum pecado (!), o aoristo é um tempo verbal que tem a estranha característica de ser um “tempo não-definido”, mas não exclusivo da nobre tradição helênica, porque, como toda a realidade que tem uma vida, nem sequer pode ser considerado propriedade exclusiva de uma única cultura.
O aoristo é aquele entretanto que permite o desenrolar-se de uma narração:
- abre o passado ao presente
- entregando uma ação ao seu sentido futuro.
Mas a sua característica principal é a de ficar fora da tradicional contraposição entre
- um aspecto imperfectivo do verbo, que torna uma testemunha mais como um cronista da ação que se desenrola sob seus olhos,
- e o perfectivo, que insiste sobre o fato de que a ação seja vista como já realizada,
ou seja, uma testemunha num processo para o qual o fato é mantido num tempo e num espaço afastados da vida.
A igreja, ao contrário,
- não pode identificar-se num cronista,
- fora da ação,
- distante do campo de jogo,
- e não pode nem sequer pôr-se na atitude da testemunha capaz apenas de memórias,
- mas sim como narradora:
ela
- não é a história que narra
- e nem mesmo o autor desta história,
- é a voz que traduz em vida a obra que o autor entrega para um seu público.
Isto pode acontecer quando um Papa canoniza um linguista.
Notas:
1 J. Moltmann, Esperienze di pensiero teologico. Vie e forme della teologia cristiana, (BTC 115), Brescia 2001, 63.2 A.
2Agnolin, “Grammatica dell’evangelizzazione e catechesi della lingua indigena. Mesoamerica e Brasile: XVI-XVII secolo. Traduzione come conversione. Le lingue generali, il “Greco della Terra” e l’invenzione del Tupì”, em Pratiche sacramentali tra vecchio e Nuovi Mondi, M. T. Fattori (ed.), Cristianesimo nella Storia, 31 (2010) 2, 681-742.
Fontes: http://www.cittadellaeditrice.com/munera/quando-un-papa-canonizza-un-linguista/
http://www.settimananews.it/liturgia/quando-un-papa-canonizza-un-linguista/


