Quase um terço do clero não cumpre o celibato, aponta The Boston Globe. Os bispos irlandeses, pioneiros na implementação de medidas para “garantir o bem-estar” de mães e filhos

The Boston Globe -Redação -810/17
Foto: O filho do padre Sullivan procura o túmulo de seu pai – The Boston Globe
“Há algumas semanas, os bispos irlandeses aprovaram regulamentação, segundo a qual “o bem-estar da criança é primordial. O sacerdote deve assumir as suas responsabilidades pessoais, legais, morais e financeiras”
Tradução: Orlando Almeida
Quase um em cada três sacerdotes não cumpre a regra do celibato, de acordo com uma pesquisa recente realizada pelo ‘The Boston Globe’, que aborda a difícil questão dos filhos dos clérigos. Um desses filhos aponta um desafio impactante: “Se apenas 1% dos 400.000 sacerdotes do mundo tivessem um filho, haveria pelo menos 4.000 pessoas que talvez precisem de ajuda emocional, e de todo o tipo, por parte da Igreja”.
Todas as histórias apresentadas por The Boston Globe são trágicas. Mas o mais impressionante talvez seja o grande número possível dessas vidas difíceis: as de milhares de crianças geradas por sacerdotes que viveram marcadas
- pelo segredo,
- pela vergonha,
- pela ilegitimidade,
- pela rejeição ou pelo abandono,
informa Infobae.
“Não é possível saber o número exato, mas com mais de 400 mil sacerdotes em todo o mundo, muitos deles inconstantes na sua promessa de celibato, o potencial de crianças não planejadas é brutal” – escreveu Michael Rezendes no informe especial do diário de Massachusetts, publicado na seção Spotlight com fotos de Suzanne Kreiter e vídeos de Emily Zendten.

Segundo as estimativas de Vincent Doyle, o filho de um sacerdote que fundou a Coping International – “uma organização de voluntários da saúde mental que promove o bem-estar dos filhos dos sacerdotes católicos e de suas famílias pelo mundo” – se apenas 1% desses 400.000 sacerdotes tivessem um filho, “haveria pelo menos 4.000 filhos e filhas de sacerdotes que poderiam precisar de ajuda emocional, e de outro tipo, da Igreja”.
O fenômeno foi tão silenciado que um livro de quase três décadas atrás, ‘A Secret World’ (Um mundo secreto), de A.W. Richard Sipe, ainda continua sendo o principal estudo sobre o celibato eclesiástico.
Nesse livro salienta-se que 30% do clero católico tem relações sexuais regulares ou ocasionais com mulheres, enquanto aproximadamente 50% cumprem a promessa de manter o celibato.
Um dos casos revelados pelo The Boston Globe é o de Jim Graham, que durante décadas se perguntou por que seu pai, John Graham, o tratou tão friamente, ao passo que com as suas irmãs ele foi mais carinhoso.
Tinha 48 anos quando questionou os seus tios Kathryn e Otto, que por fim lhe mostraram um recorte de jornal onde se via um homem extremamente parecido com ele com um colarinho de clérigo. “Só os protagonistas o sabem com certeza” – disse-lhe a mulher – “mas é possível que este seja o teu pai”.

A foto correspondia ao obituário do reverendo Thomas Sullivan (foto acima). Naquele momento Graham passou a olhar com outros olhos o homem que o criou, que tinha tido um divórcio contencioso com a sua mãe – ele tinha provado a sua infidelidade com o padre – e tinha obtido a guarda dos três filhos.
“Para ele, devo ter sido uma recordação constante do homem que roubou a sua esposa“ – disse ele a Rezendes.
“Os filhos e filhas dos sacerdotes costumam crescer sem o amor e sem o apoio dos seus pais, e muitas vezes são pressionados ou escarnecidos para que guardem em segredo a própria existência desse relacionamento” – escreveu o jornalista. “São as vítimas desgraçadas de uma igreja que, durante quase 900 anos, proibiu os seus sacerdotes casarem ou terem relações sexuais, mas nunca estabeleceu normas para o que os sacerdotes ou bispos devem fazer quando um clérigo é pai de um criança”.
- O Vaticano também não tomou providências para a manutenção financeira ou o apoio emocional das mães e dos filhos nestes casos.
- Desta maneira, cada indivíduo trata o seu caso como uma crise pessoal.
- Alguns sacerdotes contam a verdade aos seus filhos e filhas.
- Mas outros não. Particularmente entre as crianças dadas em adoção, que podem crescer sem conhecer a identidade dos seus pais biológicos.

O repórter do Boston Globe’s Spotlight reporter Michael Rezendes conversou com Jim Graham, que acredita que seu pai era um padre católico. Boston Globe
Quando os filhos conhecem a sua identidade desde pequenos, a ferida emocional é profunda.
“Tudo o que eu queria era que ele me levasse para tomar um sorvete e dissesse em público: “Estou tão orgulhoso da minha filha” – disse ao Boston Globe Chiara Villar, uma mulher de 36 anos que vive nos arredores de Toronto por que ali nasceu quando a sua mãe, Maria Mercedes Douglas, seguiu o seu pai, o padre Anthony Inneo, na sua missão.
“Eu me perguntava por que ele não podia ser meu pai. Comecei a culpar a mim mesma” – disse a mulher ao lembrar a sua infância cheia de sentimentos
- de indignidade e vergonha,
- e de feridas como os cortes que costumava fazer em si mesma.
Villar passou os primeiros anos feliz junto de um homem que ela chamava ‘Papi’. Mas quando começou a frequentar o jardim de infância, explicaram-lhe que era um segredo e que, se alguém lhe perguntasse por ele, devia identificá-lo como seu tio.
“Com as portas fechadas era o meu pai, mas logo depois, quando eu me encaminhava para o carro da minha mãe, ele dizia- me: ‘Ok, Chiara, que Deus te abençoe’. Era como o Dr. Jekyll e Mr. Hyde” – declarou a mulher ao jornal.
Que o tenham sabido na infância ou que o tenham descoberto quando adultos, os filhos de sacerdotes, em sua maioria, sofreram por terem tido esse destino.
“Para muitos, a verdade os fez em pedacinhos, e os seus sentimentos de desilusão e abandono podem conduzir a vidas marcadas por
- relacionamentos desfeitos,
- abuso de substâncias
- e pensamentos suicidas” – escreveu Rezendes.
“Para muitos acaba-se a fé na igreja, quando reconhecem que
- uma instituição considerada um farol da verdade moral
- permitiu, ou deixou passar,
- que os sacerdotes tivessem filhos
- e fugissem das suas responsabilidades de apoio, atenção e amor de um pai”.
Na prática, de acordo com o relatório, é raro os padres assumirem a responsabilidade legal e financeira da paternidade, e as mães das crianças não costumam pressioná-los ou intentar ações legais contra eles.
“Em 10 casos que The Boston Globe estudou em profundidade,
- apenas duas das mães recorreram aos tribunais para obterem o sustento dos menores,
- ao passo que as outras deixaram a critério do sacerdote a decisão de como manter a sua descendência e encontraram pouca ajuda”.
Seis das crianças não receberam apoio paterno para
- a sua alimentação,
- a sua saúde
- ou a sua educação.
E alguns dos padres que fizeram contribuições para o sustento condicionaram-nas a que as suas identidades fossem mantidas em segredo.
“Em alguns casos, a exigência de segredo era desnecessária” – analisou Rezendes. As mães eram católicas devotas e olhavam os pais dos seus filhos não só como tais, mas como representantes de Deus.
“A esta conduta condescendente faz eco
- a das vítimas de abuso sexual de um clérigo,
- muitas vezes relutantes em denunciar seus abusadores
- porque imaginavam que, de alguma forma, eram culpadas pelo que lhes fora feito,
- já que seus abusadores eram considerados homens santos”.
Três anos atrás, o Comitê sobre Direitos da Criança da ONU solicitou que o Vaticano
- “faça uma estimativa do número de crianças geradas por padres católicos,
- descubra quem são
- e tome todas as medidas necessárias para garantir que sejam respeitados os direitos dessas crianças de conhecer e receber o cuidado dos seus pais”.

Há algumas semanas, os bispos irlandeses aprovaram regulamentação, segundo a qual “o bem-estar da criança é primordial. O sacerdote deve assumir as suas responsabilidades pessoais, legais, morais e financeiras“.
Essas diretrizes procuram garantir o ‘bem-estar’ dos filhos dos sacerdotes e das mães dos pequenos.
Por sua vez, insiste-se que “o sacerdote deve assumir as suas responsabilidades pessoais, legais, morais e financeiras”.
O documento também afirma que “é importante que a mãe e a criança não fiquem isoladas ou excluídas“.
Embora o Papa Francisco não tenha falado especificamente sobre este assunto, quando era arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Bergoglio afirmou em 2010 que, se um dos seus padres confessasse ter um filho, ele lhe responderia que
- as suas obrigações “superavam a sua vocação”.
- Consequentemente – escreveu ele no livro ‘Sobre o céu e a Terra’, o clérigo “deve deixar o ministério e cuidar do filho, mesmo que decida não se casar com a mulher”.
Em Amoris Laetitia, Francisco lembra que “se uma criança vem a este mundo em circunstâncias indesejadas, os pais e outros membros da família devem fazer todo o possível para aceitar esse filho como um presente de Deus, e devem assumir a responsabilidade de aceitá-lo com ternura e afeto”.
O ‘dictamen’ dos bispos irlandeses torna-se especialmente relevante, tendo em vista que Francisco presidirá em Dublin no próximo verão o Encontro Mundial das Famílias, onde provavelmente o papa poderá encontrar alguns filhos de sacerdotes.
OBS. Acompanha esta matéria um vídeo (falado em inglês) – Clique e veja
The Boston Globe – Redação
LEIA MAIS: (em inglês)
- https://www.cbsnews.com/news/boston-globe-spotlight-children-of-catholic-priests-michael-rezendes/
- Read Part I of the report on BostonGlobe.com: “Children of Catholic priests live with secrets and sorrow”
- Read Part II of the report: “A priest’s son takes his case directly to the Pope”