Não se deve só ajudar homossexuais a “se aceitarem”, mas a superar as sequelas deixadas pela homofobia

Juan Arías – 22/09/2017
A polêmica no Brasil sobre se os psicólogos podem ou não curar a homossexualidade, como se esta fosse uma doença, viralizou positivamente nas redes sociais.
A chamada cura gay é algo defendido e promovido, por exemplo, por alguns grupos evangélicos e outras correntes religiosas. Isso levou, no entanto, a relegar o aspecto positivo que a psicologia pode trazer para os gays que têm problemas para aceitar sua condição por causa de possíveis pressões sociais ou familiares.
Que a homossexualidade e suas variantes não são uma doença e, portanto, não só os psicólogos, mas ninguém pode curá-las, já foi claramente exposto em 1935 por Sigmund Freud, o pai da psicanálise, em sua carta a uma mãe que lhe pedia ajuda para seu filho gay.
“A homossexualidade não pode ser considerada uma doença. Nós a consideramos como uma variante da função sexual”, escreve Freud, acrescentando que a psicanálise pode fazer outra coisa por seu filho, mas não curá-lo.
“Se ele se sentisse infeliz por causa de milhares de conflitos e inibições em relação à sua vida social, a psicanálise poderia lhe proporcionar tranquilidade, paz psíquica e plena eficiência.”
Em sua carta à senhora, Freud também lembra que
“grandes homens da antiguidade e da atualidade foram homossexuais, e entre eles algumas das figuras mais proeminentes da história, como
- Platão,
- Michelangelo,
- Leonardo da Vinci etc”.
“Não posso curá-lo porque você não está doente, nem fisicamente nem mentalmente”, é a primeira coisa que um psicólogo sério pode dizer a quem pede ajuda para deixar de ser homossexual.
A partir daí, também é verdade que a psicologia hoje pode ajudar, e faz isso em todo o mundo,
- não para que uma pessoa gay deixe de sê-lo,
- e sim, como escreveu Freud, para que “se aceite e se ame” como é.
Pode reforçar a aceitação de sua condição aliviando a dor que vem com
- o peso dos preconceitos sociais
- ou do ambiente hostil em que pode estar vivendo sua sexualidade.
É o que os países anglo-saxões chamam de “psicologia gay afirmativa”.
Um pioneiro deste movimento é o espanhol Gabriel J. Martin, conhecido por sua polêmica obra Quiérete Mucho, Maricón (Editora Roca, 2016). O livro, de 530 páginas, é conhecido como um “manual de sucesso psicoemocional para homens homossexuais”.
Em uma entrevista ao jornal El Mundo, de Madri, em março do ano passado,
- Martin vai além de Freud ao entender que a função que a psicologia pode oferecer aos homossexuais não é a simples ajuda para “se aceitarem”.
- Segundo ele, deve “ajudá-los a superar as sequelas deixadas pelo ambiente homofóbico, ou seja, a homofobia interiorizada, a rejeição da própria homossexualidade”.
Este tipo de terapia psicológica é, de fato, o oposto do que os extremistas evangélicos desejariam dos psicólogos, que é forçar o homossexual a sair de sua condição para ser “normal”.
A psicologia gay afirmativa ajuda, pelo contrário, a reforçar a ideia de que o que alguns homossexuais realmente podem precisar é eliminar os preconceitos sociais interiorizados, de que são vítimas de uma anormalidade. Estes preconceitos se devem, de acordo com o psicólogo espanhol,
- à educação recebida na família
- e na escola
- e ao contexto social em que vivem.
Daí a importância da psicologia em reafirmar que a homossexualidade é inata e, portanto, onipresente na natureza e na história.
Devemos lembrar que, se a psicologia
- não pode curar alguém que não esteja doente,
- e sim ajudar os homossexuais a se sentirem normais,
muito menos a religião pode fazer isso, pois,
- além de considerar a homossexualidade um desvio da natureza,
- prega que a prática da mesma é pecado e ofensa a Deus.
Há igrejas que recorrem aos exorcismos para retirar a homossexualidade de uma pessoa, como se fosse um demônio. Todo esse esforço para “curar um gay”, além de uma aberração, é, como afirma Freud, “um crime e uma crueldade”.
Juan Arías
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/21/opinion/1506025854_128074.html
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