
Laurinda Alves – 1/8/2017.
500 anos depois, num tempo em que Deus continua a ser uma palavra difícil e muitos crentes são perseguidos e mortos, Inácio de Loyola continua muito à frente do tempo inspirando leigos e religiosos.
Da maneira como nos relacionamos connosco próprios e uns com os outros, à forma como integramos e sistematizamos os conhecimentos de todas as naturezas e áreas do saber, aparentemente continuamos a funcionar muito aquém das nossas capacidades. Teoricamente temos dons e talentos que podem permanecer ocultos, por desvendar, ao longo de toda a nossa existência.
De acordo com William James, isso também se deve a uma ‘psico-patologia da média’, uma espécie de doença da‘normalidade’ que nos leva a ficarmos facilmente satisfeitos com a mediania, ou com tudo aquilo que nos soe a padrão ou estatística. Na sua óptica aceitamos mais naturalmente o que nos parece ‘normal’ do que aquilo que exige outros recursos que habitualmente não usamos e nem sempre identificamos em nós.
«É importante terem existido pessoas capazes de cunhar novas linguagens»
Claro que tudo isto é discutível palavra por palavra e linha por linha, mas é interessante como ponto de partida para focar no grande salto para fora da normalidade que todas as pessoas de génio e com rasgo deram, dão e continuarão a dar ao longo dos séculos. Há 500 anos ninguém falava em escuta activa e, muito menos, em exercícios espirituais ou no discernimento do dia a dia, para dar três grandes exemplos existenciais-espirituais.
A normalidade ditava caminhos mais previsíveis e porventura mais condicionados, mas graças a pessoas que escaparam aos cânones, esta terminologia vingou. Mais importante do que ter vingado, é terem existido pessoas capazes de cunhar novas linguagens que nos continuam a interpelar muitos séculos depois.
Inácio de Loyola foi uma destas pessoas. Muito antes de ter sido considerado santo, o basco vaidoso e galante, o cavaleiro sedutor e conquistador, revelou uma capacidade invulgar de ser e fazer diferente. Tão vaidoso era, que ao ver-se defeituoso de uma perna após um ferimento grave no campo da Batalha de Pamplona, em 1521, exigiu que lhe voltassem a partir o osso a sangue-frio para que ele pudesse colar sem defeito.
Nessa altura, a sua personalidade já se destacava claramente por ser diferente da mediania, mas ainda se construia a partir de um código de valores cavalheirescos. Só mais tarde, depois da sua conversão no quarto onde convalescia dessa dolorosa operação, e ao longo de toda a sua peregrinação pela vida, é que Inácio haveria de revelar a sua capacidade de usar e estimular muitos outros a usarem muito mais do que 10% do seu potencial, por assim dizer.
Há 500 anos existiam mestres e professores, mas o conceito de coach era absolutamente desconhecido. Curiosamente, Inácio de Loyola foi ao mesmo tempo um grande mestre, um extraordinário professor e um fabuloso coach. Ensinou a ouvir, ouvir, ouvir sem a tentação de dar conselhos, pistas infalíveis, ou fórmulas definitivas. O seu método sempre foi o de
- ajudar a descobrir caminhos
- e a desocultar dons e talentos
para que cada um pudesse encontrar em si mesmo a capacidade de escutar. De se ouvir a si, de escutar os outros e de sentir a acção do espírito.
Inácio de Loyola apontou para caminhos de liberdade que começavam sempre pela liberdade interior que permite
- sermos quem somos, independentemente da mediania,
- sem tentações estatísticas
- e sem medo de não corresponder às expectativas dos outros.
- Mais, sem outras pressões para além daquelas que são ditadas pela consciência.
Uma consciência formada para aspirar ao maior bem, ao lendário ‘mais e melhor’ que acabou por se converter no seu lema de vida. O “magis” que ainda hoje inspira legiões de homens e mulheres apostados em fazer bem o Bem.
Inácio foi um buscador incansável que ajudou e continua a ajudar os mais racionais e, porventura mais cépticos, a encontrarem caminhos de evolução pessoal e elevação espiritual. Como? Dando critérios de discernimento e ensinando uma atenção especial às ‘moções interiores’, atribuindo nomes e conferindo sentido ao que sentimos. Desolação e consolação são conceitos inacianos, de certa forma inaugurados por ele, na medida em que nos ensinou a perceber o que nos desola e nos consola, independentemente de serem alegrias ou tristezas. Inácio de Loyola compreendeu muito cedo a complexidade psicológica de cada ser humano e soube sempre respeitar a identidade de cada um, dando ferramentas de conhecimento próprio e de Deus.
Tal como os melhores coaches da actualidade, Inácio ajudou-nos a separar águas e a perceber que a consolação e a desolação não são ditadas por circunstâncias externas e, muito menos, dependem de bens absolutos como a riqueza ou a saúde, o reconhecimento dos outros, o prestígio ou o poder. Muito pelo contrário, podemos estar a atravessar grandes desertos ou a sobreviver em meio de tempestades mantendo o espírito consolado pela simples razão de sabermos dar sentido àquilo que nos acontece, por termos a certeza de não estarmos sozinhos e por sabermos que há sempre luz depois da escuridão.
Inácio falava de Deus e traduzia por palavras simples e concretas os ensinamentos de Jesus.
Os budistas falam da impermanência, mas Inácio falava de Deus e traduzia por palavras simples e concretas os ensinamentos de Jesus. De tal maneira foi real e concreto que contagiou primeiro um pequeno grupo de amigos, depois um círculo alargado de companheiros que, mais tarde, se transformaram na Companhia de Jesus, hoje em dia a ordem religiosa masculina mais numerosa na Igreja Católica.
Quinhentos anos depois, num tempo em que Deus continua a ser uma palavra difícil e muitos crentes são perseguidos e aniquilados, Inácio de Loyola continua muito à frente do tempo inspirando leigos e religiosos num caminho de descoberta de si mesmos em relação com os outros, com o mundo à sua volta e com tudo aquilo que os transcende.
Milhares e milhares de crentes atestam a vitalidade do pensamento e acção do fundador da Companhia de Jesus ao celebrarem o dia de Santo Inácio, enchendo igrejas por todo o mundo. Esta segunda-feira a igreja de São Roque em Lisboa – a primeira Igreja de jesuítas em Portugal e uma das primeiras no mundo – estava a transbordar de gente apostada em tentar fazer mais e melhor, precisando certamente de usar mais do que os lendários 10% do seu potencial espiritual e relacional.

Laurinda Alves
Fonte: observador.pt