
PAOLO AFFATATO, YOGYAKARTA – 02/08/2017
Tradução: Orlando Almeida
Na Indonésia, a quermesse de significado inter-religioso: os cristãos apoiam o governo na luta contra o radicalismo islâmico
O sultão toca o othok-othok e inaugura a “JMJ asiática”
O sultão Hamengku Buwono X, governador de Yogyakarta, tocando o othok-othok – instrumento musical da tradição javanesa – abre oficialmente o evento: nesta imagem está todo o significado do Asian Youth Day, o “Dia da Juventude Asiática”, a quermesse organizada pela Federação das conferências episcopais da Ásia que, durante uma semana vai reunir os jovens católicos de vinte e dois países do continente nas ruas de Yogyakarta, cidade situada na ilha indonésia de Java.
O Sultão, chefe civil e religioso da província de Yogyakarta, ofereceu o seu apoio ao encontro católico cedendo gratuitamente o uso de um grande centro de convenções que vai hospedar os vários eventos da semana: reuniões, seminários, catequese, apresentações teatrais e musicais, experiências de oração e reflexão, eventos centrados todos sobre o tema do multiculturalismo e da harmonia entre culturas e religiões diferentes.
Na que é definida familiarmente como a “JMJ asiática” – a fonte de inspiração é, de fato, a Jornada Mundial da Juventude – o foco é “viver juntos o Evangelho na Ásia multicultural” e não poderia ser outro senão a Indonésia o país anfitrião de um evento em que a Igreja Católica promove, a partir das novas gerações, o paradigma para a coexistência entre fiéis de religiões diferentes, justamente quando o país islâmico mais populoso do mundo está sendo sacudido pelos fermentos do islamismo radical que representa um desafio para a tolerância e a harmonia social.
É o Arcebispo de Jacarta e presidente dos bispos indonésios, Ignazio Suharyo, quem o afirma de forma clara ao Vatican Insider.
“A Indonésia é por natureza um país pluralista e multicultural, com mais de três mil grupos étnicos e onze mil línguas locais: o país, por meio dos seus jovens, pode ensinar aos outros países asiáticos o pluralismo e a convivência serena entre homens e religiões. Os nossos jovens oferecem aqui um exemplo de unidade, encarnando aquela “unidade na diversidade”, que é o lema da nação. Mas é uma abordagem que pode e deve ser exportada para todas as realidades da Ásia e para além dela“.
Yogyakarta, em particular, é considerada uma “micro-Indonésia” pelo seu inato pluralismo cultural e religioso: sedia mais de sessenta universidades entre estatais e privadas, faculdades e academias, acolhe jovens de todo o país, que enchem as ruas, bares, bibliotecas, praças, templos e mercados, que fazem de “Yogya” (como todos a chamam) um oásis multicolorido.
A cidade é de per si especial: a província de Yogyakarta é, de fato, a única da Indonésia ainda hoje governada por um sultanato pré-colonial que dirige uma espécie de mini-teocracia, desde quando pai do atual sultão, meio século atrás, participou da luta pela independência contra os holandeses e depois aceitou fazer parte da República da Indonésia.
Hoje o Sultão é um guia esclarecido de uma cidade alegre, plural, aberta, fértil em ideias e iniciativas interculturais, onde os cidadãos de todas as religiões apreciam o seu trabalho e não põem em discussão de maneira alguma a exceção institucional de um governador não eleito mas ainda nomeado com base no sistema hereditário. A cidade, com uma forte consciência coletiva aberta às mais diversas contribuições, sedia o Asian Youth Day, que trouxe a Yogya mais de dois mil jovens de 22 países, 52 bispos (entre os quais seis cardeais) e 158 sacerdotes.
Neste ambiente peculiar, a JMJ asiática é marcada por um profundo significado inter-religioso: no país muçulmano mais populoso do mundo, os jovens muçulmanos participam dos eventos programados e estão até mesmo integrando o comitê organizador. O próprio governo indonésio contribuiu com um apoio financeiro e político, através do Ministério dos Assuntos Religiosos, do Ministério do Turismo e do Ministério da Juventude e Desporto.
O presidente Joko Widodo conta também com os cristãos (cerca de 10%, dos quais 7,5 milhões de católicos numa nação de 250 milhões de habitantes, 85% muçulmana) para combater, em nome da cidadania, o retorno do extremismo islâmico que causa preocupação generalizada.
A base da convivência civil, fortemente estimulada por Widodo, é a “Pancasila”, a carta dos cinco princípios que regem a vida social de uma nação tão multiforme e reforçam a identidade nacional necessária para evitar a balcanização.
A Pancasila, que traça as linhas mestras de um Estado democrático em que a religião tem um peso, mas não é uma teocracia, serve de proteção também contra o canto das sereias do Estado islâmico. O Califado desencadeou uma maciça operação de propaganda no Sudeste Asiático, encontrando terreno fértil em alguns grupos radicais indonésios como o Hizbut-Tahrir Indonésia que, graças a uma recente medida aprovada pelo executivo, poderá ser banido sem passar pelos tribunais.

PAOLO AFFATATO
Asia Editor no “International Fides Service” – Roma e Região, Itália